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Investigações policiais
violam a Constituição |
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Apenas um em
cada mil processos é investigado pelo Ministério Público (MP),
embora a Constituição da República atribua aos magistrados a
responsabilidade pelos inquéritos. "Temos um estatuto referido
pela Constituição em que o MP é responsável pela investigação,
mas o modelo existente, fundamentado em leis de menor
importância, tem uma diferente concretização prática", disse ao
DN o procurador da República António Cluny, ontem eleito
presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP).
"É urgente que o poder político acabe com os equívocos", avisou.
"Isto quer dizer que a maioria dos processos é investigada pelas
polícias, cabendo aos magistrados apenas atribuir-lhes uma
qualificação jurídica e deduzir a acusação", explicou o
magistrado que, com aquela eleição, assume pela quinta vez a
presidência do SMMP. "Só um em cada mil processos é hoje da
competência do MP", garantiu, esclarecendo "Este modelo não
corresponde aos princípios teóricos vertidos quer na
Constituição quer no Estatuto do MP."
Apelando a uma urgente definição política, questionou
"Pretende-se que o MP seja uma magistratura que se
responsabilize efectivamente pela investigação criminal, e possa
acompanhá-la do princípio ao fim; ou pretende-se um modelo do
tipo inglês, em que o MP apenas acusa e sustenta em julgamento
as acusações, não tendo qualquer opção na definição das
prioridades e meios afectos aos processos?"
No exercício do mandato de quatro anos, António Cluny vai
incluir uma outra prioridade nas actividades do SMMP Pugnar para
que o Conselho Superior do MP tenha novas regras, nomeadamente
com representantes do poder político a exercer funções a tempo
inteiro. "É no seio daquele órgão que se pode encontrar um
corresponsabilização de magistrados e representantes do poder
político pela efectiva actuação e condução dos destinos do MP",
explicou.
O magistrado sucede no cargo a Luís Felgueiras, que, no ruído do
processo Casa Pia, comandou o sindicato num dos períodos mais
controversos da vida judicial portuguesa. Por várias vezes teve
de erguer a voz em defesa quer do estatuto da autonomia do MP
quer da própria figura do Procurador-Geral da República.
"Procuramos dar o contributo numa perspectiva construtiva, e não
apenas na defesa de prerrogativas da classe", disse, em
declarações ao DN.
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Ex-militares
portugueses recrutados para o Iraque |
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A promessa é de um salário
mínimo de quatro mil dólares por mês consoante a especialização
Antigos homens de forças de elite militares ou policiais são os
mais desejados
Uma firma norte-americana especializada em segurança, a
Blackwater, que tem como cliente a própria Administração dos
EUA, está a estabelecer contactos no nosso país no sentido de
contratar uma centena de portugueses para trabalharem como
seguranças no Iraque, em particular em instalações associadas a
empresas petrolíferas, soube o JN. Os americanos procuram
ex-militares e ex-polícias de unidades de elite. Já há 80
candidatos, seduzidos pelos salários que, no mínimo, chegam aos
quatro mil dólares.
O Iraque é actualmente o principal mercado das empresas de
segurança, as chamadas Private Military Companies (PMC), uma
verdadeira área de negócio em expansão desde o fim da Guerra
Fria, e com maior expressão nos EUA e no Reino Unido (ver texto
em baixo).
O alvo preferencial da contratação são antigos militares ou
antigos polícias, da PSP ou da GNR, que tenham passado por
unidades de elite e participado em acções internacionais ou que
detenham especialização em áreas mais técnicas.
O salário mínimo é de quatro mil dólares por mês e deverá variar
consoante a especialidade do candidato, uma vez que vão ser
necessários desde operadores de rádios a condutores, passando
por tratadores de cães para patrulha ou para detecção de
explosivos, num total de cem homens.
Os contactos estão a ser a ser estabelecidos através da
representante da Blackwater em Portugal, a Milícia, uma empresa
com sede no Porto, que confirmou a informação recolhida pelo JN,
e que é fornecedora de equipamento das Forças Armadas e das
forças de segurança portuguesas.
O boca a boca já começou, entretanto, a correr com insistência
entre os meios policiais e militares, se bem que António Amaro,
responsável pela Milícia, tenha salientado que os "contratos de
trabalho, que serão de três meses, apenas se destinam a
ex-militares ou ex-polícias". "Nunca poderiam ser elementos no
activo, uma vez que isso iria levantar problemas legais",
acrescenta.
A Blackwater quer reforçar a sua presença no Iraque e está a
recrutar pessoal nos EUA, na América Latina e na Europa. No
entanto, aos contratados portugueses e de outras nacionalidades,
o principal papel será na segurança de instalações e de
infra-estruturas, uma vez que, como refere o sítio da Blackwater
na internet, a protecção de entidades dos EUA estão reservadas
aos próprios norte-americanos.
Testes físicos e
militares concluídos antes do Verão
António Amaro prevê que o processo de recrutamento de seguranças
portugueses para o Iraque esteja concluído durante o Verão.
"Neste momento estamos a receber os currículos e a avaliá-los",
aponta o empresário, que garante não haver quaisquer problemas
legais - "a Blackwater é uma empresa perfeitamente legal, que
trabalha inclusive para a Administração norte-americana, na
protecção de altas entidades e instalações. Porque é que havia
de haver problemas?". Já quanto à selecção dos candidatos a
questão é mais complexa "Temos que aferir se os curriculos
correspondem à realidade e temos forma de o fazer". A selecção,
cuja lista será enviada para os EUA, para a sede da Blackwater,
será seguida de testes físicos. Já quanto à qualidade da
condição militar, "também será sujeita a testes, mas é uma fase
posterior que ainda não foi determinada".
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Morte
na Esquadra |
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Desde o
passado domingo que em Lagos não se fala noutra coisa. José
Reis, 30 anos, instrutor de windsurf na pequena cidade algarvia,
morreu faz hoje uma semana, quando apareceu enforcado numa cela
da esquadra da PSP local. Horas antes tinha-se desentendido com
um agente das Brigadas Anti-Crime, com quem se envolveu em
confrontos num dos bares mais concorridos da cidade. Entre os
amigos e habitantes de Lagos há quem não acredite na tese
oficial de suicídio. O PÚBLICO procurou reconstituir a sua
última noite.
Na noite de
sábado, 5 de Março, José Reis, 30 anos, instrutor de windsurf,
saiu de casa, no Bairro 1º de Maio, na Meia Praia, em Lagos,
para o aniversário de um amigo de longa data no restaurante O
Caseiro, na localidade vizinha de Araão.
"Ele saiu todo bem disposto para a festa de anos do amigo",
conta agora a mãe, entre o destroço da perda do filho e a
proibição de falar à comunicação social, imposta desde a
primeira hora pela filha, Paula Reis, advogada em Lisboa.
A casa onde José Reis vivia com os pais é uma moradia baixa,
pequena, branca, uma chaminé algarvia competindo com uma pequena
parabólica. De lá terá saído para o Caseiro, um restaurante
discreto, imerso no campo, que ninguém diria albergar uma grande
sala de refeição. Ao todo, nessa noite, eram umas 27 pessoas.
"O Zé?", pergunta o empregado que os serviu. "O Zé esteve aí
cinco estrelas, estava todo bem disposto. Estavam todos, era uma
festa de anos. Ele nem bebeu grande coisa." E como era José
Reis? "O Zé? Era cinco estrelas, já lhe disse. Ele costumava vir
aqui com clientes lá da empresa de windsurf onde trabalhava.
Alguém acredita que ele se enforcou?"
No jantar, Reis falou animadamente, entre outras coisas, sobre
surf. "O meu marido faz pesca submarina e eles passaram o jantar
todo a falar. Eu, que tenho sempre alguma reserva em relação a
uma pessoa que já teve problemas com drogas no passado, gostei
dele", conta uma das participantes na festa.
No fim do jantar, P., o aniversariante, não podia conduzir
porque já tinha bebido o seu bocado. Foi José Reis que conduziu
a viatura dele até Lagos, onde o grupo iniciou um périplo por
vários bares.
"Estivemos em dois ou três bares e, entretanto, o grupo foi-se
dividindo. Estávamos no bar Taberna Velha e o Zé disse que
queria ir-se deitar porque queria ir fazer surf para a costa
norte", conta um elemento do grupo.
O último desacato da
vida de José Reis
Nessa noite, o bar Grand Café, no centro de Lagos, estava cheio.
"Tinha muita gente. Tinha tanta gente que houve pessoas que não
se aperceberam bem do que se passou, porque o que aconteceu foi
junto à entrada do primeiro andar, junto às escadas", conta um
barman de Lagos.
Ninguém sabe dizer a hora exacta em que, na entrada do primeiro
andar do Grand Café, se iniciou a troca de palavras e agressões
entre José Reis e o subchefe Domingos, das Brigadas Anti-Crime
da PSP de Lagos, que ali se encontrava à paisana, como sempre.
"Eu não vi como tudo começou", conta V., proprietário de outro
bar na cidade. "Só me apercebi da luta, dos vidros partidos no
chão, dos polícias a chegarem e a levarem o rapaz. E cheirava a
gás, cheirava bastante a gás."
No bar, sobem-se umas escadas de pedra por entre paredes em
túnel, que lembram ambientes medievais, e acede-se a duas salas
amplas em madeira, decoradas com arcos e colunas, grandes
espelhos com grossas molduras e a figura de um anjo a pairar
sobre o balcão retro de uma das salas. O desacato aconteceu
junto à entrada, entre as escadas e a porta que dá acesso ao
balcão.
"A maior parte das pessoas não deram por nada", conta José
Francisco, o gerente. "Eram umas 3h30. Eu estava aqui, atrás do
balcão, a trabalhar. Só me apercebi da confusão quando chegaram
os polícias para o levar. Ele gritava "doem-me os olhos, doem-me
os olhos, não vejo nada", era só o que ele dizia."
Uma testemunha que estava ao balcão diz ter visto José Reis a
desentender-se com o subchefe Domingos. "O subchefe estava à
paisana. O Zé disse-lhe qualquer coisa, pegaram-se os dois, o
subchefe pega num spray e manda com gás ali para dentro. Eu
fiquei com o nariz e com a garganta a arder e tive de descer as
escadas e vir cá para fora."
O facto de ter descido as escadas de pedra e ter vindo para a
rua permitiu a esta testemunha ver tudo. "O segurança do bar foi
lá para separar os dois e também levou com o spray. O subchefe
Domingos pediu reforços. Às tantas, estavam cinco ou seis
polícias a cair em cima do rapaz, a bater-lhe."
Foi então que um dos polícias acabados de chegar perguntou ao
subchefe porque usou o spray dentro do Grand Café: "Eu vi o
outro a perguntar-lhe: porque é que usaste o spray aí dentro? E
vi o Domingos a pegar no spray e metê-lo num guardanapo ou num
pano. Foi mesmo à minha frente".
Mesmo para quem acompanhava José Reis e pertencia ao grupo
inicial que viera de Araão, as razões porque Domingos e o
instrutor de windsurf se desentenderam permanecem confusas. "Há
quem diga que foi o Domingos que disse: "estás a olhar para
mim?", e há quem diga que o Zé o mandou para o caralho. Não
sei", diz um dos elementos desse grupo.
Enforcado na cela
José Reis foi para a esquadra da PSP cerca das 4h da manhã do
passado domingo. Dois amigos terão ido com ele e terão estado
com ele na esquadra. O que se passou no interior está no segredo
dos deuses. Pelo menos um dos amigos de José Reis que esteve na
esquadra já terá recebido ameaças para não falar à comunicação
social.
"Ele diz que já lhe telefonaram a ameaçar e que só fala à
Polícia Judiciária e à IGAI [Inspecção Geral da Administração
Interna]", explica um amigo.
Cerca das 4h da manhã, José Reis telefona da esquadra para a
irmã, Paula Reis, em Lisboa, a pedir um advogado e ajuda. José,
entretanto, é detido numa cela sem cinto e cordões dos sapatos,
segundo a PSP.
O último turno de vigia às celas terá sido às 5h. A PSP afirma,
num comunicado enviado à comunicação social, que José foi
encontrado em perigo de vida cerca das 5h20. Teria, lê-se mais
tarde na imprensa, "enrolado o pescoço nas calças de ganga". O
comunicado da PSP diz ainda que foram feitas todas as tentativas
de reanimação possíveis no local, quer por agentes, quer por
elementos do Instituto Nacional de Emergência Médica. A Polícia
Judiciária e a IGAI passavam a investigar o caso.
Na segunda-feira, em tempo recorde, a agência Lusa noticiava que
a autópsia, realizada no Hospital do Barlavento Algarvio, tinha
confirmado suicídio por enforcamento.
Agora, na casinha baixa e branca do Bairro 1º de Maio, a mãe,
devastada, só sabe dizer que quer saber a verdade: "Eu quero
saber porque levaram o meu filho para a esquadra. Eu quero
saber. Ele saiu daqui tão bem disposto, nem queria ir para o
Grand Café".
Ao lado, olhar cabisbaixo, testemunha da angústia da esposa e
confrontado com a sua própria inquietude, José dos Reis, pai de
José Reis, encolhe os ombros: "Eu só quero o apuramento da
verdade. Hoje [quinta-feira, dia 10] ainda não vi a autópsia e a
Polícia Judiciária ainda não veio cá...".
Na esquadra da PSP de Lagos, o jovem comandante surge no hall de
entrada, entre os olhares circunspectos e sérios dos agentes:
"Não lhe posso dizer nada. O caso está sob investigação e, por
respeito para com a família...". Explicamos que ainda não
dissemos o que estamos ali a fazer. "Mas eu é que já sei o que
quer, é o assunto do dia..."
A vida atribulada de José Reis
Um passado
de drogas e um presente de mar e surf. É este o perfil possível
do instrutor de windsurf que apareceu enforcado em Lagos
José Reis cresceu ali, naquele dédalo pequeno e deserdado de
meia dúzia de casas brancas e chaminés algarvias, roupa a secar
entre carrinhas abandonadas, roulottes, sofás e cadeiras. No
Bairro 1º de Maio, na Meia Praia, em Lagos, a regra é agora o
silêncio ou as meias palavras. "A família não quer falar e
enquanto a família não falar, a gente vai respeitar..."
Aos poucos, no entanto, amigos e pessoas mais chegadas vão
falando. "Sempre foi muito activo, andámos na escola juntos,
jogávamos à bola juntos, jogávamos ténis de mesa, andávamos de
bicicleta, de BMX. Ele nunca foi de estar parado", conta A., um
amigo de infância.
Por volta dos 20 anos, José experimenta a heroína e navega na
onda durante os próximos anos. "Sim, andou naquilo uns quatro ou
cinco anos. Foi nessa altura que ele fez mais asneiras", conta
A. " E foi nessa altura que ele lidou com a polícia e com o
subchefe Domingos. Se houve ou não coisas entre eles, não sei."
O PÚBLICO não conseguiu, em tempo útil, ter acesso ao eventual
cadastro de José Reis. Em Lagos, há quem diga que ele tem o
registo limpo e há quem diga que já esteve preso - o jornal 24
Horas chegou a noticiar que José esteve preso 12 anos.
"Diziam que ele esteve 12 anos preso. Quer dizer, tinha passado
metade da vida preso. Como, se ele tinha o cadastro limpo?",
pergunta o pai, José dos Reis.
Pedro Filipe, da escola de windsurf Windsurf Point, garante,
lacónico, que "nos últimos anos José Reis nunca passou uma noite
na PSP de Lagos". A., o amigo de infância, que se iniciou na
heroína ao mesmo tempo, diz que sim, que nos velhos tempos José
"chegou a ir a julgamento duas ou três vezes e a ter pena
suspensa".
Foi durante o auge dos anos negros da heroína que, para o tirar
de Lagos, a família o envia para Lisboa, para o pé da irmã,
Paula Reis, de onde segue para um Centro de Recuperação para
Toxicodependentes em Arruda dos Vinhos. Nessa altura, trabalhou
como mecânico na Fiat. "Ele sempre foi de desenrascar coisas,
uma prancha, uma motorizada", justifica um amigo.
Quando regressou para a casa dos pais, a sua casa de sempre,
José começou a trabalhar na Windsurf Point, mesmo ao lado de
casa. "Veio mais calmo. Já cá estava há quatro anos. Dava
instrução aos miúdos, os miúdos gostavam dele, era brincalhão.
Também arranjava pranchas. Podia ir beber os seus copos à noite
a Lagos que no dia seguinte estava aqui às 9h", contam na
escola.
Na noite de Lagos, e em particular no bar Grand Café, onde José
Reis teve o desacato final da sua vida, ninguém parece ter
razões de queixa. "Ele aqui nunca arranjou problemas", diz,
taxativo, o gerente, José Francisco.
Nos últimos tempos, dizem, José estava entusiasmado com a
abertura da loja da Windsurf Point numa urbanização nova situada
entre a marina de Lagos e a Meia Praia e preparava-se para
assinar contrato na escola. "Uma pessoa que anda entusiasmada
com isto vai-se suicidar?", perguntam.
Lagos, a cidade dos rumores
Mulheres
sentam-se em mesas de café a falar, sussurrando, sobre o assunto
do momento. "Dizem que ele se suicidou...", diz uma. "Tu, lá da
tua casa, viste ou não viste?", pergunta outra.
Desde há uma semana que em Lagos ninguém fala noutra coisa que
não seja o suicídio de José Reis na esquadra da cidade. Não se
trata de um falar livre e aberto, mas de uma coisa assim entre a
ladainha e o sussurro. As informações e contra-informações
sucedem-se. "Agora já dizem que o polícia, o Domingos, estava em
casa a dormir quando o Zé se suicidou. Você acredita? Ah, e
dizem que o spray apareceu no bolso do Zé..."
À superfície, Lagos parece viver o dia-a-dia normal de qualquer
pequena cidade. Nas entrelinhas, nas conversas de café e da
Praça Gil Eanes, o que aconteceu está presente em muitas
conversas. Os interlocutores calam-se e baixam os olhos quando o
forasteiro os confronta com o sucedido.
"Ah, eu cá não vi nada. Porquê, disseram-lhe que eu tinha estado
lá? Não, não vi nada", responde educadamente um jovem barman,
que alguém jurava ser testemunha do que se passou no Grand Café
na madrugada do passado domingo.
Para alguém que vem de fora, as pessoas parecem ser sempre as
mesmas. Na Praça Gil Eanes, perto dos junkies que se passeiam
pelo espaço compreendido entre os CTT e as traseiras da câmara
municipal, os polícias são os mesmos que nos observavam
circunspectos quando nos dirigimos à esquadra da PSP. O jovem
que se cruza connosco num bar é daí a pouco o barman no animado
Mullens e o outro, de cabelo com gel, que bebe imperiais no
Mullens, é o que nos serve o café da manhã junto à Praça Gil
Eanes.
À noite, a Lagos de Março é um deserto, um vazio quebrado pelas
gargalhadas de um bando de turistas, pelo som do mar lá na Meia
Praia ou pelo néon de bares como o Bon Vivant, os ecrãs gigantes
ligados na Sky TV. Num dos bares do centro, um barman é
taxativo: "Lagos é um meio muito pequeno e você não vai
conseguir que ninguém lhe diga nada".
Procurar dados sobre o caso José Reis é como riscar a ponta de
um iceberg. Em desespero de causa, rumamos ao bairro de 17
barracas junto ao Estádio Municipal.
"Devia era ter sido aqui. Aqui somos todos unidos e não temos
medo da polícia. É quase tudo mulheres porque os homens estão
presos. Quando alguém vai parar à esquadra, liga para cá e vamos
lá todos", explica J., uma amiga de infância de José.
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Oficiais da
PSP dão "benefício da dúvida" |
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Sindicatos
ameaçam com protestos se não houver decisões
O Sindicato dos Oficiais de Polícia (ASOP) decidiu ontem dar
dois meses de "benefício da dúvida" ao novo Governo - o tempo
"necessário" para se saber qual o caminho que irá ser seguido.
Admitindo haver "algumas expectativas" relativamente ao novo
ministro da Administração Interna (MAI), Jorge Soares, faz votos
que António Costa "entre com vontade de resolver os problemas".
Para além do "benefício da dúvida", os associados da ASOP, que
ontem reuniram em assembleia geral, em Torres Novas, decidiram
realizar uma "vigília de forma continuada" em frente ao MAI,
caso "não sejam tomadas decisões rápidas". Os estatutos, a
definição de carreiras e a avaliação da formação são alguns dos
pontos que querem ver tratados, sob pena de os oficiais "virem a
endurecer a luta".
"O envelhecimento na instituição é notório assim como a
insatisfação", garante Jorge Soares, salientando que "desde a
cupula até ao simples agente, ninguém tem expectativas".
"Como se podem definir critérios de excelência na Polícia quando
não existem meios humanos e materiais", questiona o responsável,
lembrando que desde 1999 não há promoções na carreira de
oficiais, e que o estatuto tem quase seis anos. "Os concurso são
sistematicamente impugnados", pelo que "nunca mais houve
promoções do primeiro para o segundo posto dos oficiais".
Admitindo que a PSP "atingiu o limite", Soares defende ainda
"uma vassourada generalizada" na Direcção Nacional (DN) da PSP,
por forma a que "surja gente capaz de dar uma volta à
instituição".
ASPP exige respostas
Também a Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP)
já exigiu "uma postura diferente" por parte dos novos
responsáveis do MAI e da DN, relativamente "aos graves
problemas" que afectam a instituição. "Exigimos saber que futuro
é reservado para as forças de segurança, que modelo e condições
de trabalho" estão previstas para os polícias que "vivem debaixo
de ferro e fogo".
O estatuto, regime de carreiras, aposentação, horário de
trabalho e regulamento disciplinar são alguns dos assuntos a
discutir. "Estamos fartos daqueles discursos pretensiosos de que
se vai fazer isto e aquilo", diz Alberto Torres, lembrando que
nos últimos 30 anos "a situação tem vindo a agravar-se". |
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Reivindicações: Polícias denunciam ‘estrangulamento’ das
promoções |
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Oficiais da PSP fazem vigília |
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Os oficiais
da PSP descontentes com o ‘estrangulamento’ das carreiras e a
falta de promoções profissionais estão dispostos a iniciar um
vigília em frente ao Ministério da Administração Interna, por
tempo indeterminado.
Reunidos ontem
em Torres Novas, os elementos da Associação Sindical de Oficiais
de Polícia (ASOP) lamentaram que o actual estatuto da Polícia
esteja a causar “divisões e mal-estar” na corporação e decidiram
endurecer as formas de luta para exigir mudanças.
Segundo o subcomissário Jorge Soares, presidente da ASOP, ficou
acordado iniciar uma vigília “muito em breve, de forma
continuada e por tempo indeterminado”. O objectivo é exigir a
“avaliação da nossa formação para que possamos ser tratados como
os colegas licenciados”. Actualmente, há mais de 250
subcomissários que estão em condições para ascender na carreira,
mas não o conseguem fazer devido a barreiras criadas pelo
estatuto da PSP.
De acordo com Jorge Soares, é urgente traçar “um projecto de
âmbito nacional para a Polícia”, onde se defina em concreto o
que se pretende da PSP. Caso contrário, continuam a pedir-se
“resultados de excelência, quando os meios são insuficientes”.
Os oficiais defendem ainda a realização de “um levantamento às
necessidades da corporação” e pedem mais estabilidade e
autonomia para o Instituto Superior de Ciências Policiais.
“Gostaríamos que o nosso Instituto Superior tivesse a autonomia
necessária para fazer um bom trabalho”, concluiu Jorge Soares.
CONSEQUÊNCIAS
DESAPROVEITAMENTO
Um dos oficiais ligado à ASOP está na carreira desde 1983, mas
não é promovido por causa dos impedimentos legislativos. A sua
experiência operacional acaba por ser desperdiçada.
ACTUALIZAÇÃO
A última vez que a PSP fez uma actualização de conhecimentos
para os seus efectivos foi há 10 anos. Daí em diante, nunca mais
foram feitas acções de formação para colocar os operacionais a
par das novas metodologias.
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Gangues dominam cenário da
criminalidade portuguesa |
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Números do
Relatório de Segurança Interna reflectem preocupação por parte
das autoridades Acções criminosas com violência aumentaram 3,4%
A actividade criminosa em Portugal está a envolver cada vez mais
violência, segundo dados do Relatório de Segurança Interna, que
registam um aumento de 3,4 por cento em 2004, comparativamente
ao ano anterior. Subida ainda mais significativa vai para a
"actividade grupal" - qyue se refere vulgarmente a gangues - que
sobe 5,7 por cento, numa tendência que se verifica desde 2003.
O documento foi elaborado pelo Gabinete Coordenador de Segurança
(GCS), com base nos dados da criminalidade recolhidos pela PSP,
GNR e Polícia Judiciária, e só chegará à Assembleia da República
depois de ser conhecido pelo próximo Governo.
Os valores são reconhecidamente preocupantes, como admite o
general Leonel Carvalho, secretário-geral do Gabinete, em
declarações ao JN, e nem a descida de um por cento da
criminalidade geral ajuda a adoçar a pílula. O oficial salienta,
ainda, a descida de 30 por cento nos homicídios e reduções
significativas nos assaltos a bancos e aos correios, assim como
da criminalidade juvenil (uma questão, aliás, já focada pelo JN),
mas reconhece que acaba por ser a pequena criminalidade
violenta, em particular a praticada pela "actividade grupal",
aquela que mais reflexos tem no cidadão e no chamado "sentimento
de insegurança".
Outro dado preocupante e sempre a subir são as agressões a
agentes de autoridade, que aumentaram seis por cento, "em
particular na área da GNR", se bem que o conjunto de subidas se
generalize a todo o País, sobretudo nas "grandes áreas urbanas
onde se concentra mais população, Lisboa, Porto e Faro, durante
o Verão".
Parte dessa actividade criminosa é acompanhada pelo uso de
armas, que poderá ser uma arma branca ou de fogo, mas há a ideia
de que "está a aumentar o número de armas de fogo em circulação
no mercado ilegal".
Leonel Carvalho salienta, no entanto, que por agora "as armas
têm servido mais para intimidação". De onde vêm essas armas é
que ninguém ainda sabe muito bem explicar.
Para algumas fontes policiais, as armas surgem naturalmente
associadas à actividade dos gangues, mas, por agora, quer o
relatório quer as forças policiais ainda mantêm a ideia de que
esses grupos de jovens ainda não têm estruturas organizadas
"Surgem de forma espontânea e têm líderes de ocasião e são
constituídos para executar golpes específicos, desfazendo-se
depois".
Mas há um aspecto em que todos concordam são cada vez mais
violento e recorrem cada vez mais a armas.
Fenómeno criminal
urbano
A "razia" é um termo que há já vários anos entrou no meio
policial e corresponde a situações de assaltos múltiplos
ocorridos num espaço de tempo curto, praticados por um mesmo
grupo. A palavra veio dos vulgarizados gangues e da necessidade
de as forças policiais investigarem este fenómeno gerado nos
meios suburbanos dos grandes centros populacionais e envolvendo
faixas etárias que vão dos 14 aos 20 anos. E esta realidade tem
vindo a ter cada vez mais importância no Relatório de Segurança
Interna, fruto do esforço que tem vindo a ser exigido à polícias
para fazer face a este tipo de fenómeno criminal. Reflecte
também as implicações da actividade dos gangues no dia-a-dia do
cidadão comum. Lojas de telemóveis e cafés têm sido os
principais alvos dos gangues, mas já se assiste a uma evolução,
por exemplo, nas viaturas, passando do furto para o roubo à mão
armada.
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Crime violento sempre a
subir |
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A
criminalidade em Portugal tem crescido sucessivamente nos
últimos anos, de acordo com os relatórios anuais levados a cabo
pelo Ministério da Administração Interna. Em 2000, houve 359 445
crimes, números estes que foram crescendo nos anos seguintes:
368 340 crimes (mais 2,4 por cento) em 2001, seguindo-se 386 253
(mais 4,8 por cento) em 2002 e 409 509 (mais 5,6 por cento) em
2003, ano do último relatório publicado.
Segundo o CM
publicou ontem, em 2004 houve um ligeiro decréscimo do total da
criminalidade: 1 por cento. Valor que segundo as nossas fontes
poderá ter que ver com o aumento de policiamento durante o
período do Euro’2004. E que contraria a tendência dos três anos
anteriores.
No entanto, aumentou o número de crimes violentos, mais 700
casos que em 2003 (o que dá mais que dois crimes violentos por
dia em Portugal), com especial incidência nos ataques a
tesourarias e estações dos CTT (40 por cento), assaltos em
transportes públicos (mais 30 por cento) e assaltos às
gasolineiras (mais 20 por cento).
No que respeita à criminalidade violenta e grave, a comparação
dos relatórios referentes aos anos de 2000 a 2002 revela
aumentos globais de 9 por cento entre 2000 e 2001; e de 10,6 por
cento, entre 2001 e 2002.
O relatório de 2003, que foi publicado em Março desse ano, foi
elaborado de forma diferente, não apresentando os dados
relativos à criminalidade violenta e grave, preferindo
debruçar-se mais sobre a pequena criminalidade. Um discurso
político que não será de estranhar, se for levado em conta que
se estava praticamente às portas do Euro’2004 e que importava
passar um discurso tranquilizante à população e aos visitantes.
Por sua vez, no relatório de 2003 é referido que os crimes
contra o património eram os que detinham maior expressão, com 57
por cento do total das participações feitas às autoridades
policiais. A estes seguiam-se os crimes contra pessoas, com 24
por cento das participações e especial incidência na ofensa à
integridade física voluntária simples, com 43 402 corrências,
seguido da ameaça e coação, com 18 186 casos.
O relatório referente a 2004, em análise pelo Conselho Superior
de Segurança Interna, deverá ser tornado público até 31 de
Março.
O QUE BAIXOU EM 2004
ASSALTOS A BANCOS
Menos 40 por cento em 2004. A PJ recebeu 98 participações. Em
dois destes casos, ladrões de capacete e caçadeiras roubaram 65
mil euros de uma dependência do BNC, na Parede, Cascais.
HOMICÍDIOS
Diminuíram 30 por cento relativamente a 2003. Um dos casos mais
chocantes ocorreu no Minho: um jovem de 27 anos que matou a
golpes de espada a mãe e a avó, em Seixas, Caminha.
SEQUESTROS E TOMADA DE REFÉNS
Em 2004, houve menos oito por cento dos raptos, sequestros e
tomada de reféns. Recorde-se o caso de uma jovem de 21 anos,
sequestrada, violada e abandonada amarrada de pés e mãos, em
Sátão.
O QUE AUMENTOU EM 2004
ASSALTOS E TESOURARIAS DAS FINANÇAS
Os departamentos de cobrança do Estado estiveram na mira dos
gatunos, como sucedeu em Quarteira. Apesar de rebentar a parede
com um martelo pneumático, os ladrões não lograram levar o
cofre.
ASSALTOS A ESTAÇÕES DOS CTT
Juntamente com as tesourarias das Finanças, os ataques a
estações dos Correiossofreram um aumento conjunto de 40 por
cento. Noticiado pelo CM foi o assalto à aos CTT de Sacavém.
ASSALTOS EM TRANSPORTES PÚBLICOS
Aumentaram 30 por cento face a 2003. Um gang, em que os
criminosos actuavam aos pares, dedicava-se ao roubo violento,
por esticão, em comboios da Linha de Sintra. Foi desmantelado
pela PSP.
ASSALTOS A BOMBA DE GASOLINA
Mais 20 por cento do que no ano anterior. Três homens assaltaram
postos de abastecimento em Cascais, levando dinheiro e o carro
de um cliente. Abriram fogo sobre a Polícia durante a fuga.
O AGRAVAMENTO DE PENAS VAI CONTRIBUIR PARA COMBATER A
CRIMINALIDADE VIOLENTA?
“O agravamento das penas não serve para combater a
criminalidade. Os crimes mais violentos ocorrem em maior número
nos países que têm a pena mais grave, como é a pena de morte.
Nenhum potencial criminoso pensa na pena que poderá vir a sofrer
no momento em que decide praticar um crime. O que todos os
criminosos pensam é que nunca vão ser apanhados. Portanto, o
aumento das penas pode satisfazer um espírito de vingança,
privada ou pública (da vítima ou da sociedade), mas não é um
critério razoável de prevenir a ocorrência de crimes. As
estatísticas sobre a criminalidade são mais estatísticas sobre a
actividade policial das polícias do que da verdadeira realidade
criminosa de uma dada sociedade e representam mais o número de
queixas.” António Marinho, Advogado
“O agravamento das penas não contribui em nada para o combate à
criminalidade. O que certamente contribui para diminuir a
criminalidade são uma polícia activa, a prontidão no julgamento
e o efectivo cumprimento da pena. Um indivíduo não vai deixar de
cometer um crime só porque a pena que terá de cumprir tem mais
um ano ou menos um ano, até porque nem vai pensar nisso quando
efectivar o acto condenável. Quem comete um crime não pensa na
pena. Mas se souber que depois vai ser perseguido até ser
detido, que será julgado em devido tempo e que, caso seja
condenado, terá, efectivamente, de cumprir a pena, então sim,
talvez pense no que lhe poderá acontecer. Só assim as coisas
podem mudar. E se assim não for estou certo de que a pouca
vergonha vai continuar.” Germano Marques da Silva, penalista
“O combate à criminalidade não depende tanto do rigor das penas
mas sim da sua inevitabilidade e rapidez. Isso é que é
essencial. E a essa prática devem ser associadas medidas de
apreensão e perda do património que seja produto do crime.
Aliás, isso está previsto na lei, só que não tem sido aplicado.
Mas não tenhamos ilusões. Uma pena grave, só por si, não tem
efeitos mágicos. O que é importante, o que é preciso, é que seja
aplicada e com rapidez. Não basta existir a Lei. É preciso
rapidez de reacção penal e a sua inevitabilidade.” Maria José
Morgado, procuradora-geral adjunta
“A criminalidade violenta a que assistimos está mais relacionada
com as crises económicas e sociais do que, propriamente, com a
gravidade das penas aplicadas ou a aplicar. Conforme se agudizam
essas crises, assim aumenta a criminalidade violenta. Por outro
lado, quando as crises são atenuadas acontece uma retracção na
criminalidade. É um dado histórico. Um movimento cíclico. No
entanto existe um outro dado que contribui, decisivamente para o
aumento desse tipo de criminalidade: é o crescimento do tráfico
de droga. Os negócios nessa área potenciam, muitas vezes, a
criminalidade violenta.” Francisco Moita Flores, criminologista
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Segurança e justiça |
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O novo Governo
toma posse sem que nada ou quase nada se saiba sobre algumas das
questões mais importantes e decisivas para o nosso futuro.
A campanha eleitoral, para além dos temas da disputa política
sem relevância nem dimensão, foi dominada pelas questões das
finanças públicas e da economia, com realce para as reformas do
Estado e da administração pública.
Os temas da segurança e da justiça foram, porventura
deliberadamente, ignorados nos debates que se travaram. Ora,
estas funções de soberania do Estado são condicionantes do bom
funcionamento da sociedade e da economia.
Uma das vantagens competitivas que o País poderá apresentar no
mercado internacional é a imagem de relativa segurança de que
ainda podemos orgulhar-nos, num mundo onde os receios de
violência têm aumentado, com novas ameaças no horizonte.
Mas essa relativa acalmia de que desfrutamos não pode
dispensar-nos de reforçar empenhadamente a eficácia dos serviços
de segurança a nível das informações e dos meios de prevenção e
investigação.
Quanto à justiça, é evidente a falta de confiança dos cidadãos e
das empresas no sistema a quem compete o seu exercício.
Para além da ineficácia resultante da lentidão do sistema na
solução dos litígios, a própria credibilidade e fiabilidade das
decisões judiciais entrou em crise muito grave.
E se é certo que as crises políticas podem e têm sido superadas
com recurso a eleições criando nova legitimidade do poder
político e alternância dos seus agentes, a crise do poder
judicial não pode recorrer a esse remédio, uma vez que as
magistraturas dispõem de um autogoverno não legitimado
democraticamente nem alterável pelos eleitores.
E essa é, justamente, a maior dificuldade na reforma do sistema
de justiça e o que explica que nenhum Governo tenha até hoje
obtido sucesso na melhoria do serviço de justiça.
Se o poder político continuar a não dispor de instrumentos que
melhorem a rentabilidade e a qualidade da actividade do sistema
de justiça, não tenhamos ilusões prosseguirá a deterioração da
eficácia e da imagem da justiça, a par da impunidade geral e do
desrespeito das normas legais em vigor, com consequências
extremamente negativas na vida dos cidadãos e na economia do
País.
De pouco valerá continuar a reformar a legislação se não for
reformado o sistema que a aplica e devia garantir o seu
funcionamento.
Não sei se o novo Governo tem a vontade e a determinação para
enfrentar as dificuldades e resistências que seguramente se
oporão a qualquer reforma dos regimes de autogoverno das
magistraturas, de acesso e progressão nas carreiras judiciárias,
de gestão dos tribunais, de responsabilização dos agentes
judiciários e outros, com o objectivo de tornar a justiça mais
eficiente, mais segura, mais transparente, mais aberta à
sociedade e à modernidade, menos ideológica e mais fiel ao
espírito da lei.
Se tiver essa vontade e essa determinação, as oposições
responsáveis terão o dever de não dificultar, mas antes de
apoiar as reformas necessárias.
A opinião pública parece hoje favorável a essa renovação e a
degradação da imagem da justiça constitui um forte incentivo a
uma nova política para o sector.
Esperemos que não seja mais uma oportunidade perdida.
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SEF recusa
entrada a 30 cidadãos/dia |
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Advogados lançam folheto com
direitos dos estrangeiros não admitidos
Em 2004, em média, foram impedidos de entrar em Portugal 30
estrangeiros por dia, quase três vezes mais do que em 2003, o
que se deve à realização do Europeu de futebol. Neste período
foi recusada a entrada a 7333 indivíduos, estimando-se que
outros quatro mil tenham sido impossibilitados de pisar o solo
português no ano passado. Para estes, a Ordem dos Advogados (OA)
lançou ontem um folheto em várias línguas para ser distribuídos
nas postos fronteiriços.
Os principais motivos da recusa de entrada em Portugal são a
ausência de visto ou visto caducado, a inexistência de meios de
subsistência, a falta de comprovativo do objectivo da estada,
documento falso ou falsificado. Entre 16 de Maio e 4 de Julho, o
período do Euro 2004, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)
interceptou sobretudo romenos, marroquinos e brasileiros.
No folheto são explicados os principais direitos do cidadão
estrangeiro não admitido em território português direito a um
intérprete, a um advogado e ao tribunal. "Em Portugal são
expulsas diariamente dezenas de pessoas e em alguns casos podem
beneficiar do estatuto de asilo ou provar que têm meios de
subsistência em Portugal", disse ao DN Carlos Pinto Abreu,
presidente da Comissão dos Direitos Humanos da OA, responsável
pela iniciativa e que ontem tomou posse.
O objectivo é que o folheto seja um instrumento acessível e
eficaz, daí que esteja escrito em várias línguas, nomeadamente,
alemã, árabe, chinesa, francesa, inglesa, japonesa, persa,
russa, turca, bem como em tétum e bahasa indonésio. A ideia está
lançada, diz Carlos Pinto Abreu, cabe, agora, ao Governo
distribuí-lo pelas fronteiras nacionais, em especial nos
aeroportos.
Em 2004, as detecções de fraude documental - passaporte ou
documentos de identificação falso ou falsificado - totalizaram
991, das quais 752 foram detectadas no aeropor- to de Lisboa, 77
na fronteira de Vilar Formoso, 64 no aeroporto do Porto e 49 no
posto misto do Caia, os locais com maior número de recusas de
entrada em território português. A maioria destes documen-tos
era de cidadãos provenien- tes da Guiné, Venezuela, Senegal e
Brasil.
A recusa de entrada de estrangeiros em território nacional
decorre da aplicação da Lei n.º 244/98, regulamentada pelo
Decreto-Lei n.º 34/2003.
De acordo com a legislação, cabe ao transportador promover o
retorno do indivíduo e pagar a taxa da estada no Centro de
Instalação Temporário, sendo da sua responsabilidade garantir a
satisfação das necessidades básicas dos passageiros em causa.
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Funcionários da
PJ suspendem greve a horas extra |
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Novo ministro
da Justiça, Alberto Costa, inicia funções sábado
A Associação
Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal (ASFIC)
decidiu hoje suspender a recusa de prestação de trabalho
extraordinário, na véspera da tomada de posse do novo ministro
da Justiça, Alberto Costa, que inicia funções sábado.
Carlos Garcia,
secretário-geral da ASFIC, referiu que se trata de "um gesto de
boa vontade" para com o novo titular da pasta da Justiça, que
"não tem responsabilidades" pela situação criada pelo não
pagamento das horas extraordinárias aos funcionários de
investigação criminal da PJ.
Os cerca de
1.300 funcionários de investigação criminal da PJ iniciaram em
01 de Fevereiro último uma recusa ao trabalho extraordinário até
que este fosse "reconhecido e pago expressamente como tal".
Apesar de
concederem este "quase estado de graça" ao novo ministro Alberto
Costa, a ASFIC espera que o novo responsável governamental
receba os dirigentes da Associação "o mais rapidamente" possível
para analisar e resolver a situação.
O horário
normal destes funcionários é das 9:00 às 17:30, mas
frequentemente é-lhes exigido que fiquem no serviço ou saiam
para serviço externo sem que se encontrem dentro do seu horário
de trabalho ou estejam escalados de prevenção.
Hoje, em
comunicado, a ASFIC reconhece que os "novos governantes nunca
foram confrontados com os dossiers que afectam a PJ e que
actualmente se encontram em discussão" e que a Associação tem
"consciência que o arrastar desta situação vem acarretando
graves prejuízos para investigações em curso", nomeadamente as
relativas à criminalidade mais grave e complexa.
"É apanágio da
ASFIC/PJ pautar sempre a sua actuação por atitudes de coerência
e bom senso, assumindo posições construtivas na busca de
soluções para os problemas que afectam a PJ e os seus
funcionários".
A associação
realça, contudo, que mantém-se os "pressupostos de facto e de
direito que levaram a ASFIC/PJ a encetar a acção de luta na
busca de um modelo de trabalho para a investigação criminal da
Judiciária", razão pela qual tudo fará para resolver a situação.
A este
propósito, o secretário-geral da ASFIC disse à Lusa estarem
pendentes nos Tribunais Administrativos acções judiciais para
pagamento das horas extraordinárias a estes trabalhadores da PJ.
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Onde a lei não vale |
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Um dos
indicadores determinantes sobre o funcionamento de um Estado de
direito democrático é o ambiente vivido nas instalações
policiais. Nós podemos ter liberdade política, liberdade de
imprensa, liberdade de greve e tudo o resto, mas se, dentro das
instalações policiais, os direitos individuais cessam perante a
autoridade policial, então, de facto, temos um Estado de direito
que só funciona em alguns casos e uma democracia que existe a
nível da superestrutura constitucional, mas já não existe no
mundo de proximidade onde a autoridade a quem delegámos o poder
de vigiar a aplicação da lei se reserva o direito de o fazer
segundo regras próprios, à revelia do que o poder eleito
estabeleceu.
Quando emergimos de 50 anos de ditadura, os que não sabiam ainda
ou não queriam saber tomaram então conhecimento dos abusos
policias cometidos em nome da "pátria", da "segurança nacional"
ou outras balelas que tais. Mas se, em 50 anos de ditadura se
contam pelos dedos de uma mão os que morreram nas esquadras da
PIDE ou assassinados na rua por esta, desgraçadamente, em 30
anos de democracia, morreram muitos mais nas esquadras da
polícia ou vítimas das balas perdidas ou "disparadas para o ar"
da polícia. Como e por que chegámos aqui e por que continuamos
aqui, apesar de se ter revisto toda a formação das polícias
civis e apesar de fazer enquadrar por magistrados as polícias de
investigação, é uma longa história de sucessivas revisões da lei
processual, sempre a favor do facilitismo da investigação, e uma
longa história de demissões na luta contra os abusos policiais,
quer por parte do poder político, quer por parte do poder
judicial.
Uns e outros, uma e outra coisa, foram consentindo que aos
poucos se reinstalasse a velha mentalidade de que não há nada a
fazer nesta matéria, pois que faz parte da natureza policial, se
não mesmo da sua eficácia, o abuso sempre que necessário e
possível e a impunidade perante o abuso, como preço a pagar para
obter resultados e conseguir a tranquilidade corporativa das
forças policiais. Este raciocínio não apenas é ilegítimo e
perigoso, mas muitas vezes também contraproducente, quanto aos
resultados.
Tomemos o caso de Leonor Cipriano, a mãe algarvia suspeita de
ter assassinado a própria filha, cujo corpo nunca apareceu para
confirmar, sequer, a sua morte. Durante meses e meses, quer
Leonor, quer o seu irmão - suspeito alternativo do mesmo crime -
têm estado detidos às ordens das autoridades, Ministério Público
e Polícia Judiciária, que não conseguiram até à data nem
levá-los a confessar o crime, nem estar perto de esclarecer se
crime houve, de facto, e quem o cometeu. Agora, e graças à
denúncia corajosa da directora da prisão, apareceram a público
fotos terríveis de Leonor Cipriano, revelando na cara aquilo que
para qualquer um de nós são sinais evidentes de tortura.
Tortura, digo bem - como nos tempos da PIDE. Para explicar
aquilo, a PJ forneceu já uma resposta, antes mesmo de concluir o
inquérito anunciado - o que também é habitual. Segundo a PJ, a
detida ter-se-ia atirado por umas escadas abaixo, depois de uma
sessão nocturna de "interrogatório informal", conduzido pelos
agentes. Ficámos assim a saber que a PJ tem o privilégio, que
não conheço da lei, de interrogar presos a meio da noite e sem a
presença de juiz, nem advogado, nem escrivão, e que tais
interrogatórios são de tal forma simpáticos que há suspeitos que
preferem atirar-se pelas escadas abaixo do que terem de voltar a
passar pelo mesmo. E esta é a versão policial e benévola daquilo
que terá sucedido - acredite quem quiser. Eu não acredito: para
mim, aquela mulher foi torturada selvaticamente. E foi torturada
porque - e aqui entra o lado contraproducente deste episódio -,
passadas décadas de vivência democrática e de avanços
tecnológicos que facilitam a investigação dos crimes, a nossa
investigação policial, como nos bons velhos tempos, continua a
privilegiar, e em muitos casos a contentar-se, primeiro que
tudo, com a confissão do suspeito. Confessado o crime,
encerra-se o caso, remetendo-o a tribunal, sem necessidade de
mais esforços nem investigação. Não admira depois que, muitas
vezes e quando os juízes se convencem que a confissão foi
arrancada ilegitimamente, se vejam forçados a absolver os réus,
porque nada mais há nos autos que os possa incriminar. Ora, se a
confissão é o objectivo primeiro e final da investigação, é
inevitável que, quando o suspeito é pobre, não dispõe de
advogado de peso e se encontra jurídica e socialmente
desprotegido, surja a tentação de o forçar a confessar o crime
real ou hipotético, a bem ou a mal.
Tomemos outro caso, ocorrido sábado passado, em Lagos. Um
instrutor de surf está num bar a festejar os anos de um amigo.
Desentende-se com um graduado da PSP, que está à paisana. Este
chama reforços à esquadra e lança um gás que faz evacuar o bar.
Cá fora e segundo o relato de testemunhas, seis ou sete polícias
caem em cima do civil e moem-no de pancada, à vista de todos.
Depois, levam-no para a esquadra, de onde, às quatro da manhã,
ele telefona à irmã a pedir que lhe arranje um advogado. Mas já
não vai a tempo: uma hora depois é a esquadra que telefona à
irmã a comunicar-lhe que ele está morto. Explicação da PSP,
antes da conclusão do inquérito: enforcou-se na cela, usando as
próprias calças. É uma explicação também habitual: quando alguém
morre numa cela da PSP, jamais esta reconhece que morreu em
consequência de maus tratos sofridos ou anuncia que só terá
conclusões depois do inquérito. Invariavelmente, aparece logo
uma explicação oficiosa, segundo a qual o preso morreu
suicidando-se, ou porque se atirou de cabeça contra a parede ou
porque se enforcou. Seria curioso saber se a esquadra da PSP de
Lagos tem um gancho no tecto para que os presos se possam
enforcar livremente. Assim como seria curioso saber por que é
que alguém que telefona a um familiar a pedir um advogado porque
está preso logo depois decide renunciar ao advogado e à própria
vida. Mas o mais importante era explicarem-nos o que se passa
nas esquadras da PSP que leva a que, com tanta frequência, os
detidos (às vezes, por simples arruaças nocturnas) se queiram
suicidar. Não deveria ser uma esquadra de polícia o local por
excelência onde vigora a lei e a segurança?
Há anos atrás, durante as comemorações do Ano Novo, em Lisboa,
uma senhora foi presa por alegados desacatos na via pública.
Levada para a esquadra da PSP, identificou-se como juíza, embora
não tivesse a identificação consigo. Segundo o seu relato, o
graduado de serviço ter-lhe-á respondido: "Juízes como-os ao
pequeno-almoço!" E, de passagem, ter-lhe-á dado um encontrão. A
senhora fez queixa e o caso subiu até ao Supremo Tribunal de
Justiça. Azar do polícia: a senhora era mesmo juíza e os
conselheiros ficaram escandalizados com o seu relato. Aplicaram
ao polícia pena de prisão maior, dizendo que aquela sentença se
queria exemplar, pois que, cito de cor: "Se isto se passa nas
esquadras de polícia com uma juíza, o que não se passará com
simples cidadãos?"
Pois é, aí é que bate o ponto. "Simples cidadãos" não têm
direito a uma justiça de simpatia e compreensão corporativa,
como tem um juiz. Simples cidadãos que, para mais, não disponham
de meios financeiros para se defenderem a sério esbarram com a
falsificação dos factos praticada pela própria polícia, com o
encobrimento dos chefes, com o silêncio cauteloso do ministro e,
no limite e se conseguem chegar a tribunal denunciando o que
sofreram, com a benevolência dos juízes para com a polícia.
E, como sucede em todos os meios, a impunidade para com os maus
compromete e desmotiva os bons. Quantas vezes não terão os bons
polícias, que são sem dúvida a maioria, de calar-se ou desviar
os olhos para não terem de ver o que os outros fazem?
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Relatório Anual
de Segurança Interna: crimes graves e violentos aumentaram |
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A criminalidade
em Portugal diminuiu um por cento no ano passado
comparativamente a 2003, apesar do aumento dos crimes graves e
violentos, aponta o Relatório Anual de Segurança Interna de 2004
citado pela Rádio Renascença.
Apesar do
acréscimo de crimes graves e violentos, as forças policiais
registaram uma diminuição de 30 por cento no número de
homicídios.
O crime mais praticado em Portugal no ano passado foi o furto de
veículos.
De acordo com o documento, a diminuição no número total de
crimes representa o melhor resultado nos últimos sete anos,
sendo que as forças policiais e os serviços de segurança
registaram 405 mil crimes no ano passado, cerca de menos quatro
mil do que em 2003.
A PSP registou uma diminuição no número de crimes de quase
quatro por cento, enquanto a GNR contabilizou uma subida de um
por cento e a Polícia Judiciária, com cerca de 15 mil crimes,
apresenta um aumento de cerca de 20 por cento.
Os números registados pela PSP e GNR representam 96 por cento da
criminalidade nacional.
Quanto ao tipo de crimes, aqueles que são considerados violentos
e graves aumentaram 3,4 por cento, sendo que oito em cada dez
(80 por cento) são roubos na via pública, com ameaça de armas ou
por esticão.
Entre os crimes violentos e graves, mais 770 crimes do que no
ano anterior (um aumento de 3,4 por cento), regista-se um
aumento no número de assaltos a tesourarias e estações dos CTT
(40 por cento), assaltos em transportes públicos (mais 30 por
cento) e assaltos em postos de abastecimento de combustíveis
(uma variação de 20 por cento).
A criminalidade cometida por grupos aumentou 5,7 por cento e,
pelo contrário, os assaltos a bancos diminuíram 40 por cento, os
homicídios registaram um decréscimo de 30 por cento, a
criminalidade juvenil caiu seis por cento e os raptos,
sequestros e tomadas de reféns oito por cento.
Geograficamente, a criminalidade aumentou em metade dos
distritos do país e desceu na outra metade, tal como nas regiões
autónomas.
Segundo a Rádio Renascença, os dados foram debatidos na manhã de
quinta-feira numa reunião do gabinete Coordenador de Segurança,
presidida pelo ainda ministro da Administração Interna, Daniel
Sanches e com a presença de representantes das sete forças e
serviços de segurança envolvidos.
O relatório será ainda analisado pelo Conselho Superior de
Segurança e Interna, depois apreciado e aprovado pelo Conselho
de Ministros, que terá de o enviar para a Assembleia da
República até 31 de Março.
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PSP cria novas
salas de atendimento a vítimas de violência doméstica |
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A PSP está a proceder à criação de 108 salas de atendimento
às vítimas de crime, em todos os distritos do país, nomeadamente
nas ilhas. Já foi feita a aquisição de mobiliário específico,
com cores mais suaves, confortável, para dar um clima de maior
proximidade e intimidade entre a polícia e as vítimas, regra
geral mulheres fragilizadas e assustadas com a situação em que
se encontram.
De acordo com o comissário Luís Elias, chefe da Divisão da
Prevenção da Criminalidade, da Direcção Nacional da PSP, a
partir de Abril as salas estarão a funcionar a tempo inteiro -
nomeadamente em Lisboa (35), Porto (20), Madeira (8), Açores
(8), Setúbal (7) e Faro (7).
Segundo Luís Elias, se a esquadra onde a vítima se dirigir não
tiver condições de atendimento, esta será encaminhada para uma
que reúna condições ou é solicitada a comparência de uma equipa
especializada no atendimento de vítimas de crime.
Por outro lado, ainda no campo do combate à violência doméstica,
de acordo com aquele oficial, estão em fase avançada de formação
cursos em duas vertentes. Um de investigação de crimes de
violência doméstica - em Lisboa e no Porto já existem secções
específicas para este tipo de investigação -, e o segundo para
atendimento às vítimas de crime, onde serão formados, a nível
nacional, cerca de 150 elementos para atendimento e actuação
específica neste campo.
Outra novidade é a utilização de um auto de notícia padrão,
específico para situações de violência contra a mulher, que foi
criado por um grupo de trabalho coordenado pela Comissão para a
Igualdade e Direitos da Mulher, no âmbito do segundo Plano
Nacional contra a Violência Doméstica.
Este documento, segundo o chefe da Divisão de Prevenção da
Criminalidade, permite uma recolha mais eficaz de dados
estatísticos relativos a violência doméstica, ao mesmo tempo que
também possibilita a recolha de informação fundamental sobre o
caso e uma avaliação de risco, de molde a que a autoridade
judiciária possa decretar medidas urgentes para a protecção da
vítima.
A PSP dispõe, desde 1999, de uma recolha específica de dados
relativos a agressões domésticas e, desde 2002, altura em que
este crime passou a ser considerado público, podendo qualquer um
fazer a denúncia, a tarefa tornou-se mais facilitada para a PSP.
De acordo com os dados da PSP, 85 por cento das vítimas de
violência doméstica são mulheres e a violência contra os
cônjuges ou companheiros é a mais frequente, representando 69
por cento das ocorrências. O distrito com maior violência
doméstica é o do Porto, com 22 por cento, ficando logo depois
Lisboa, com 21 por cento.
O maior número destes crimes ocorre entre casais de classe média
baixa, com idades entre os 25 e os 45 anos, muitas vezes com
situações de alcoolismo, consumo de estupefacientes e
perturbações mentais à mistura, e em muitas destas situações as
agressões continuam mesmo depois da separação de facto do casal.
De acordo com o comissário Luís Elias, este padrão tem vindo a
alterar-se nos últimos tempos, atingindo actualmente todo o tipo
de classes sociais, incluindo as mais altas, tendo aumentado
também o número de vítimas do sexo masculino.
Histórias que ficam na memória
A investigação criminal, nos casos de violência doméstica,
também afecta os polícias. Testemunha disso é o comissário Dário
Prates, comandante da Divisão de Investigação Criminal da PSP de
Lisboa, que já muitas vezes tem ficado preocupado com os seus
homens.
Pela Divisão de Investigação Criminal da PSP passam muitos casos
que marcam, como conta este responsável, ao relembrar alguns que
ficaram gravados na memória de todos os que ali trabalham. É
que, como explica Dário Prates, "quando se parte para a
investigação de um caso de violência doméstica, nunca se sabe o
que se vai encontrar mais".
Num desses casos, na fase de inquérito, o investigador
deparou-se com uma família com três filhos, que vivia numa casa
degradada, suja e sem luz, em Lisboa, tendo a filha mais velha
do casal, então com 15 anos, já fugido de casa. Os irmãos, de
nove e cinco anos, estavam subnutridos e maltratados.
A mulher, que era espancada pelo marido, alcoólico e muito
violento, chegou a telefonar para o investigador do processo
alertando-o de que pretendia suicidar-se e que acabara de tomar
uma série de comprimidos. O desabafo permitiu que a PSP chegasse
a tempo de a transportar ao hospital e a salvar.
Só que no decorrer da investigação descobriu-se que a própria
mãe tinha comportamentos impróprios com as crianças: alguma
agressividade, deixava-os sozinhos em casa enquanto ia para as
discotecas, não lhes dava regularmente atenção e mesmo
alimentação.
Foi feita queixa à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em
Risco e as crianças acabaram por ser entregues a um familiar. A
irmã mais velha, que fugira, já se encontra também em casa desse
parente.
Noutro caso, uma mulher era regularmente espancada pelo marido e
agredida verbalmente. Durante a investigação veio a descobrir-se
que o casal era toxicodependente e que o homem também espancava
os dois filhos menores e os pais, acamados, que viviam na mesma
casa.
A PSP conseguiu encaminhar uma das crianças, uma menina de três
anos, para um lar, tendo a outra, um bebé de um ano, também sido
encaminhada para uma instituição de acolhimento. Os idosos, por
proposta da polícia, foram internados num lar da terceira idade.
A mãe acabou por abandonar a residência e encontra-se
desaparecida há um ano.
Na sequência de uma denúncia, a PSP encontrou uma mulher que era
espancada pelo marido, alcoólico, há 13 anos. Quando era
agredida, a mulher fugia para a rua, com o filho de seis anos ao
colo, e só regressava a casa depois de o marido dormir.
Apesar de viverem em quartos separados dentro da mesma casa, em
situações de bebedeira o homem, além de lhe bater, violava-a. A
criança começou a ter comportamentos estranhos, imitando as
agressões a que assistia. Insultava a mãe e batia-lhe. A mulher
acabou por pedir para desistir do procedimento criminal,
alegando que só queria que o homem abandonasse o lar e não que
fosse castigado.
Por fim, o comissário Dário Prates relembra que estes casos não
são exclusivo dos mais pobres. Recentemente, foi investigado o
caso de um casal de posição social elevada, em que o marido
agredia a mulher com puxões de cabelo, socos e pontapés,
levando-a a abandonar o lar e a refugiar-se em casa dos pais.
Ela acabou por apresentar queixa contra ele, apesar de durante
algum tempo ter aguentado a situação, por vergonha e comodidade
económica.
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A PSP na tormenta |
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Há uns quinze
dias, o agente da PSP Irineu Dias foi assassinado quando seguia
num veículo policial em patrulha de rotina no bairro da Cova da
Moura, na Grande Lisboa.
O facto surpreende. A guerrilha urbana naquele bairro é tão
intensa que seja normal uma morte em operações? Ponto é que
ainda não foi fornecida uma explicação: a morte era inevitável?
Se sim, porquê? Se não, que falha explica a sua ocorrência?
A reacção dos agentes foi reveladora. Metade deles terá ido
entregar as armas - em resposta ao apelo sindical e contra a
vontade da hierarquia. Não analisemos este apelo. Nem estudemos
a conservação da pérola do património nacional que dá pelo nome
de "bairro da Cova da Moura".
É a entrega das armas que merece atenção: são armas de defesa
pessoal de polícias. Sentir-se-ão mais seguros sem armas? Terão
aderido à sugestão de os desarmar, feita há anos pelo general
Gabriel Espírito Santo, então Chefe de Estado-Maior-General das
Forças Armadas? Querem acabar com as rondas e a própria
actividade de policiamento? A não ser assim, deveriam ter
reivindicado melhores armas pessoais para se defenderem de uma
ameaça mais forte.
A questão é outra. A entrega das armas é simbólica: os agentes
da PSP sentem-se abandonados. Não sabem o que os cidadãos e o
Governo querem deles. Por isso, recorrem as estas manifestações
dramáticas. O seu estado de espírito é mau. Têm altas taxas de
suicídio e de consultas psiquiátricas. Razões sociais são
invocadas para explicar o mal-estar: muitos agentes jovens vivem
separados das famílias, em más camaratas nas esquadras.
Estas razões são boas mas insuficientes. A PSP sente-se
abandonada porque sucessivos governos a têm abandonado:
encaram-na com uma mistura de desinteresse, desconfiança e
desconhecimento.
Destes três Dês resultam falhas na PSP. Os efectivos estarão
abaixo das necessidades? É a tese dos sindicatos que reivindicam
mais quatro mil agentes. Mas erram, pois temos mais polícias por
mil habitantes do que a média europeia - e não temos mais
ameaças.
Os agentes sentem-se ainda abandonados por uma outra razão: têm
pouco enquadramento. A PSP tem seiscentos oficiais para vinte
mil agentes. É um ratio sete vezes inferior à média europeia.
Melhoraria se incluíssemos os membros da carreira de "chefes" os
quais, apesar do título, não têm funções de comando. Essa
inclusão seria ilegítima.
Corrigir aquele erro custa tempo e dinheiro - o que exige
poupança, dado o estado das finanças públicas. A correcção tem
que começar já. Um primeiro contributo será converter as 700
vagas de agentes em lugares de oficiais - e extinguir os lugares
dos que forem promovidos, após adequada formação. Depois, a
reforma da PSP deverá ter em conta as transformações que ela
conhece por ter passado a ser - por estar a saber passar a ser -
uma polícia de investigação criminal.
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Segurança -
Policiamento em algumas zonas de Lisboa só se faz a pé |
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Carros da PSP não andam |
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A vida não
está fácil para os polícias da 3.ª Divisão do Comando
Metropolitano de Lisboa (COMETLIS) da Polícia de Segurança
Pública (PSP) que diariamente fazem acções de patrulhamento de
carro. É que nesta altura há dez a doze viaturas “encostadas”
devido a avarias, soube o Correio da Manhã junto de fonte
policial.
A situação
chegou a ser dramática no passado fim-de-semana. Como nos
garantiram quatro esquadras, Horta Nova, Bairro da Cruz
Vermelha, Carnide e Bairro da Boavista, chegaram a não ter
nenhuma viatura para acções de patrulhamento.
A 3.ª Divisão da PSP cobre uma extensa área da capital, com
alguns focos problemáticos. Entre outras, estão nesta zona as
esquadras do Bairro da Boavista, Campolide, Cruz Vermelha,
Lumiar, Musgueira, Serafina e Telheiras.
FIM-DE-SEMANA NEGRO
O COMETLIS confirmou ao CM várias situações verificadas no
passado fim-de-semana (ver caixa). Por exemplo houve a avaria de
um carro em Carnide, tendo o serviço sido assegurado pela Horta
Nova.
Depois foi um automóvel policial da 37.ª esquadra da Serafina
que ficou inoperacional tendo o serviço sido feito por Benfica.
Nesse fim-de-semana negro, uma avaria também não poupou um
carro-patrulha do Bairro da Cruz Vermelha, o que deixou a
esquadra sem resposta para acudir a qualquer ocorrência.
SUCATA SOBRE RODAS
Mas a situação das viaturas nesta divisão da PSP de Lisboa está
longe de deixar os espíritos descansados.
É que segundo a nossa fonte, “naquele fim-de-semana houve carros
que foram reparados e entregues na sexta-feira de manhã e à
tarde já estavam parados”.
Mas, o rosário de lamentações continua. O mesmo informador
referiu que, “actualmente existem 80 a 90 por cento de Fiat
Tempra com mais de 210 mil quilómetros, há carros sem luzes no
tablier e outros sem direcção assistida”.
A concluir, a mesma fonte adianta uma solução simples capaz de
minorar a situação de carência: “Era urgente colocar os carros
adstritos aos serviços de secretaria ou aos comandos a fazer o
patrulhamento na rua”.
SERVIÇO FOI ASSEGURADO
Perante a situação de falta de veículos na 3.ª Divisão da PSP de
Lisboa e confrontado com a anomalia, o gabinete de Relações
Públicas do Comando Metropolitano de Lisboa (COMETLIS) confirmou
ao Correio da Manhã as anomalias descritas e a forma como se
tentou resolvê-las.
“Sempre que a viatura de uma esquadra avariou, o patrulhamento
automóvel foi assegurado por carros de outras esquadras”,
explicaram ao nosso jornal.
Deste cenário depreende-se que os carros-patrulha, alguns com
mais de 200 mil quilómetros percorridos, estão presos por
arames, mas do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa chega a
resposta: “Sempre que acontece uma anomalia a central-rádio faz
de imediato a requisição de outra viatura”. Daí que, os
responsáveis considerem que o patrulhamento esteve sempre
assegurado, perante o volume de serviço que existiu.
AVANÇOS E RECUOS
PRIVADOS
A 1 de Abril de 2002 no Porto era lançada uma experiência
inovadora. A manutenção da frota policial era entregue a uma
empresa privada. O custo era estimado em dez euros mensais por
veículo.
PROMESSA
Na Primavera de 2003, o comandante do COMETLIS garantia que,
todas as esquadras do comando lisboeta contariam com pelo menos
dois carros disponíveis para efectuar patrulhamentos nocturnos.
ALERTA
Em Março de 2004, o presidente da Associação Sindical dos
Profissionais de Polícia, Alberto Torres, alertava para o facto
de existirem viaturas da polícia a circular há dez e doze anos.
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