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Evadido matou Ireneu |
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Um
recluso que cumpria pena por homicídio na cadeia de Vale
de Judeus saiu com licença do juiz para ir passar o
último Natal a casa – e não regressou à cela. É ele o
suspeito do brutal assassínio do agente da PSP Ireneu
Diniz.
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Luís Carlos Santos, está a ser procurado
pelas autoridades pela morte de Ireneu Diniz, agente da
PSP. Ele é suspeito da autoria material do homicídio
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A
Polícia Judiciária já conhece a identidade do homem que
fez fogo com a pistola-metralhadora UZI e matou o agente
da PSP Ireneu Diniz, na madrugada de 17 de Fevereiro, no
Bairro da Cova da Moura, arredores da Amadora.
O suspeito chama-se Luís Carlos Santos, tem entre 30 e
40 anos e é de origem cabo-verdiana.
Cumpria no Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus
pesada pena por homicídio – mas, antes do Natal do ano
passado, foi agraciado com uma licença precária de nove
dias. Devia ter regressado à cadeia em 27 de Dezembro.
Não voltou.
Luís Carlos Santos, a partir daquele dia, começou a ser
procurado pelos Serviços Prisionais e pelas forças de
segurança por “ausência ilegítima” do Estabelecimento
Prisional. Agora, é perseguido como o presumível autor
material da morte do agente Ireneu Diniz.
O grupo que emboscou a patrulha da PSP de Alfragide, que
circulava num jipe Land Rover com as cores da Polícia,
era constituído por quatro homens. Os criminosos
dispararam com caçadeira, duas pistolas (calibre 7,65 e
9 mm) e pistola-metralhadora UZI – arma de fabrico
israelita, utilizada por exércitos e forças policiais,
conhecida como ‘costureirinha’ devido à rápida cadência
e precisão de tiro.
A vítima dos disparos seguia no jipe, ao lado do
condutor, agente Nuno Saramago, que escapou
milagrosamente ao tiroteio sem uma beliscadura. O corpo
de Ireneu Diniz ficou cravejado de tiros: foi atingido
por 22 projécteis, alguns na cabeça. A autópsia
demonstrou que ele foi atingido por balas disparadas
pela pistola-metralhadora UZI e zagalotes de caçadeira.
O homem que abriu fogo com essa terrível arma foi Luís
Carlos Santos – é esta, pelo menos, a convicção do
Ministério Público e da Polícia Judiciária, que nos
últimos dias pôs em marcha uma verdadeira caça ao homem.
Todos os elementos do grupo que disparou contra os
agentes Ireneu e Saramago estão identificados.
Na madrugada da última terça-feira, numa operação de
grande envergadura conduzida pela Polícia Judiciária e
executada conjuntamente com o Grupo de Operações
Especiais da Polícia de Segurança Pública e o Corpo de
Intervenção, na Cova da Moura e no Casal do Cotão ( às
portas do Cacém), as forças de segurança esperavam
capturar alguns dos membros do grupo – entre eles, Luís
Carlos Santos, já com cadastro por homicídio.
Apenas encontraram Lino, de 20 anos, conhecido pela
alcunha de ‘Bechona’, sem profissão conhecida, tido pela
Polícia como um hábil atirador com armas de fogo e
suspeito de diversos crimes de roubo e assaltos á mão
armada.
Segundo diversas fontes policiais ontem contactadas pelo
Correio da Manhã, Luís Carlos Santos, natural de Cabo
Verde, acoitou-se na Cova da Moura após a saída precária
do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus.
Equipas de vigilância da Directoria de Lisboa da Polícia
Judiciária , à hora do fecho desta edição, mantinham
debaixo de olho as imediações da Cova da Moura e as
zonas de Benfica e da Amadora com o objectivo de
localizarem Luís Castro Santos – enquanto outras equipas
da PJ aguardavam na sede, na Rua Gomes Freire,
indicações para avançarem.
“A captura do suspeito está iminente”, disse ontem aos
nossos repórteres uma fonte policial ligada às
investigações.
Tal como aconteceu na madrugada da última terça-feira,
os inspectores da Polícia Judiciária vão contar com a
protecção do Grupo de Operações Especiais (GOE) e do
Corpo de Intervenção da PSP (CI).
O Correio da Manhã apurou que, ontem à noite, equipas do
GOE e do CI esperavam nas unidades um sinal da Polícia
Judiciária.
DE ONDE VEIO A ARMA ASSASSINA?
Entre os investigadores da Polícia Judiciária ganha
forma uma teoria: Marcos Fernandes, de 30 anos, o
luso-brasileiro em prisão preventiva pela morte de dois
agentes da PSP da Amadora, na madrugada do último
domingo, terá sido o vendedor da pistola-metralhadora
UZI que matou o agente Ireneu Diniz, em Fevereiro.
Marcos foi caçado pela PJ, na madrugada de
segunda-feira, numa casa de Melides, onde a Polícia
encontrou um arsenal de guerra.
“As armas apreendidas são praticamente novas e serviriam
como catálogo para mostrar a clientes”, disse ao CM
fonte policial. No início deste mês, à porta de um bar
ilegal da Reboleira, Amadora, Marcos efectuou 60 tiros
com uma pistola-metralhadora – numa clara demonstração
das virtudes da arma.
'BECHONA' PARTICIPOU EM SEQUESTRO
Lino, o ‘Bechona’, que anteontem foi detido pela PJ e
pela PSP, no Cacém, suspeito da co-autoria do homicídio
do agente da PSP Ireneu Diniz, participou num assalto
com sequestro na noite do crime. Tal como o CM noticiou,
o assalto ocorreu na madrugada de17 de Fevereiro,
escassas horas antes do homicídio.
‘Bechona’ e três cúmplices forçaram a entrada na
residência de uma família, na Estrada Militar da Damaia
de Cima, Amadora. Durante mais de duas horas, o grupo
manteve a família refém. “Os quatro saíram da casa com
dinheiro, jóias, e outros artigos”, disse ao nosso
jornal fonte policial. Findo o assalto, o grupo resolveu
separar-se.
Quanto a ‘Bechona’, segundo a mesma fonte policial, terá
seguido para o bairro da Cova da Moura, refugiando-se
numa casa na rua Principal onde, pelas 05h00, viria a
participar na emboscada fatal contra o jipe da PSP em
que seguia Ireneu Diniz.
PORMENORES
DUAS ARMAS NO CRIME
Uma arma de guerra, de calibre 9 mm, marca Uzi, e uma
caçadeira – foram estas as armas disparadas sobre o
agente Diniz e que lhe provocaram a morte. Nenhuma delas
terá sido apreendida na operação policial desencadeada
anteontem na Cova da Moura, Amadora. Na casa que
‘Bechona’ tinha arrendada, no Cacém, e na dos pais, não
foram descobertas armas.
DETIDOS NA OPERAÇÃO
Paralelamente à operação policial levada a cabo
anteontem na Cova da Moura, Amadora, a PSP deteve dois
homens. Um de 58 anos que se encontrava na posse de uma
arma de fogo ilegal (adaptada a 6.35 mm) e carregada com
sete munições. Outro, de 21, apanhado ao volante sem
carta de condução.
PSP VOLTA AO ATAQUE
Na madrugada de ontem, a PSP voltou a ‘atacar’ o bairro
Cova da Moura. No espaço de uma hora foram feitas três
detenções. Um homem de 30 anos foi detido com 6,22
gramas de haxixe. Um outro, de 21, tinha 11 grama da
mesma droga. A última detenção, pelas 06h30, foi a de um
homem de 21 anos, na sua posse 7,77 gramas de cocaína e
25,30 de heroína.
PROVA DA FORÇA
Após a morte de Ireneu Diniz, a PSP aliviou o
patrulhamento da Cova da Moura, um dos mais difíceis
bairros da Grande Lisboa. Mas a Polícia já voltou a
intensificar a presença no bairro.

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Ilegais:
registado aumento de assaltos à mão armada por gangs de
romenos |
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Imigrados para o crime
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O crescente
recrutamento de cidadãos romenos ilegais pelas máfias de Leste a
operar em Portugal está a preocupar as autoridades, nomeadamente
o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que alerta para o
aumento dos assaltos à mão armada praticados por aqueles
imigrantes.
Fonte deste
organismo disse ao CM que todos os dias entram em Portugal
dezenas de romenos sem visto de trabalho e que, dada a sua
vulnerabilidade, são, muitas vezes “recrutados” pelas
organizações mafiosas de Leste.
“As mulheres e as crianças mais pequenas são colocadas na
mendicidade e os adolescentes são integrados em gangs que se
dedicam ao roubo, nas grandes superfícies, de objectos
facilmente vendáveis, como CD, DVD e jogos de computador”, disse
ao CM um inspector do SEF, acrescentando que as jovens começam
já a ser encaminhadas para a prostituição e os rapazes para os
assaltos à mão armada, facto que está a preocupar as
autoridades.
“Ultimamente temos assistido a um ‘boom’ de assaltos à mão
armada praticados por romenos, sobretudo no Norte do País e a
maior parte deles alega que é para pagar a viagem às redes
mafiosas”, sublinhou a referida fonte.
O fenómeno da chegada em massa de romenos é relativamente
recente e tem a ver com o facto destes imigrantes, ao contrário
dos russos ou ucranianos, não necessitarem de visto para
entrarem no espaço Shengen. “A emissão de vistos nos países de
Leste está cada vez mais difícil, pelo que as máfias encontraram
nos romenos a ‘mão-de-obra’ de que necessitam”, disse fonte
policial.
NÃO QUEREM TRABALHAR
Ainda há dias, dois agentes da Polícia Judiciária foram
recebidos a tiro por três romenos, num café de Braga, situação
idêntica a outra ocorrida em finais do ano passado na cidade da
Guarda.
E o que mais está a preocupar o SEF e as autoridades em geral é
o facto de a esmagadora maioria dos romenos que vêm para a União
Europeia, nomeadamente para Espanha e Portugal, não virem com a
intenção de trabalhar.
“Trata-se de uma imigração que, para além de não ser produtiva,
é socialmente nociva, já que a maioria se dedica à mendicidade e
à pequena criminalidade”, disse ao CM o inspector Novais
Carvalho, Subdirector Regional de Lisboa do SEF. Outra questão
que está a preocupar o SEF é a existência em Espanha de meio
milhão de romenos ilegais e o facto de se prever que milhão e
meio possa abandonar a Roménia, logo que o país adira à UE, em
2007.
GRUPOS ORGANIZADOS ROUBAM PARQUÍMETROS
Não está a ser nada fácil para as forças policiais travar a onda
diária de assaltos aos parquímetros de Lisboa, realizados por
gangs constituídos por jovens romenos. O inspector Novais
Carvalho disse ao CM que “são redes organizadas, em que os
jovens operacionais nem sequer sabem quem são os chefes”.
O facto é que, nas várias ruas de Lisboa, eles ‘retiram’ dos
parquímetros, através de ferramentas que adaptam para o efeito,
cerca de 500 euros por dia, tendo já lesado a Empresa Municipal
responsável pelo sector, só este ano, em mais de 40 mil euros.
Aliás, a EMEL, em conjunto com a autarquia, está a pensar em
criar um sistema de bilhética para os parquímetros, acabando com
a introdução de moedas nas máquinas. “Isto não é fácil porque um
jovem que seja apanhado, diz quase sempre que tem menos de 16
anos para não ficar detido e afirma não conhecer os cabecilhas
da rede”, disse Novais de Carvalho.
CHEGAM POR TERRA
FRONTEIRA ESPANHOLA
Os romenos entram em Portugal pelas fronteiras terrestres,
nomeadamente pelo Caia e Vilar Formoso. Chegam todos os dias,
mas principalmente ao fim-de-semana e, em muitos casos, após
quatro dias de viagem e mais de cinco mil quilómetros de
estrada.
FAMÍLIAS INTEIRAS
Ao contrário do que acontecia até finais de 2003, agora chegam a
Portugal e a Espanha famílias inteiras, encontrando-se a viver,
por vezes 10 ou 15 pessoas num T3. A situação verifica-se
sobretudo nas cidades de Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e
Setúbal.
POUCOS LEGALIZADOS
Em finais de 2003 estavam legalizados em Portugal 766 cidadãos
romenos, 449 homens e 317 mulheres. Segundo o SEF, em 2004, mais
de 600 foram notificados para sair do País.
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Ninguém controla
tráfico de armas |
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Em princípios
de 2001, a Polícia Judiciária Militar detectou movimentações no
nosso país de um poderoso grupo internacional de tráfico de
armamento. “Tinham todo o tipo de armas de guerra, algumas que
nem existiam em Portugal”, disse ontem ao CM o coronel Alcino
Roque, o homem que coordenou as investigações.
Alcino Roque
recorda que entregou pessoalmente ao então ministro da Defesa,
Júlio Castro Caldas, um “relatório confidencial” sobre a
actividade em Portugal daquele grupo de traficantes. “O ministro
autorizou a compra de diverso equipamento para a investigação do
caso”, garante o coronel Alcino Roque.
A PJ Militar levou a cabo escutas telefónicas e planeou uma
operação para surpreender os traficantes de armas. Alcino Roque,
entretanto, reformou-se – e , desde então, não há mais notícias:
o grupo debaixo da mira da PJ Militar nunca foi detido.
Já em 2003, um relatório secreto do Serviço de Informações de
Segurança (SIS) avisava o Governo para o preocupante número de
armas ilegais no País: “(..) pela sua expressão e perigosidade
está a colocar em risco a segurança interna (..)”, lê-se no
documento enviado ao então primeiro-ministro, Durão Barroso. O
SIS apontava o tráfico de armas como um “negócio crescente em
Portugal”. Um técnico da ‘secreta’ disse ontem ao CM que o
“desmoronar da indústria de armamento do Leste foi um dos
factores para o aumento do número de armas em circulação. Em
toda a Europa, mais armas e a preços mais acessíveis. Portugal
não foi excepção”. Aquele funcionário garante que o nosso País
“não está preparado para lidar com este tipo de criminalidade
nestas proporções. Se hoje há políticos que se surpreendem com o
fenómeno é porque não leram os nossos relatórios nem os das
polícias”. De facto, já em 2003 o Governo recebia informação
confidencial do SIS que referia o tráfico de armas como um
crescente negócio com várias vertentes em Portugal. “Um mercado
que cresce porque a polícia não tem meios para o combater”,
lê-se no documento. A informação enviada pelo SIS ao
primeiro-ministro levanta dúvidas, mesmo sobre as armas legais
“(...) Parece mesmo existir alguma dificuldade em apurar o
número exacto de armas legais em circulação”. Explicava o
Serviço de Informações de Segurança com um grande número de
armas entra em Portugal através do circuito legal e depois
desaparece no circuito paralelo.
Outra das vertentes das armas à solta é a sensação de
insegurança nas populações. Segundo o relatório citado, cresce
no nosso país um sentimento de insegurança que leva a que os
portugueses pensem que estão mais protegidos se comprarem uma
arma. O mercado ilegal de armas ganha com isto uma grande fatia.
Depois, há o mercado da droga e a diversa criminalidade que lhe
está associada, que também contribuiu para o negócio ilegal de
armas. Mas segundo o criminologista Barra da Costa, o uso de
armas de guerra e o aumento da criminalidade violenta em geral
assentam “na excessiva permeabilidade das fronteiras e num
crescente sentimento de impunidade”.
ASSALTOS DE CAÇADEIRA
Em Portugal, a maioria dos assaltos ainda é feita com caçadeiras
de canos serrados. Normalmente são roubadas nos armeiros ou em
casa de particulares. A PSP tem a competência exclusiva da
fiscalização das armas e explosivos.
Legalizadas há 900 mil armas e, dessas, 80 por cento são
caçadeiras. Para fiscalizar as armas, os 500 armeiros registados
e os fabricantes de explosivos há 52 agentes em todo o
território nacional.
Mas as armas de guerra são baratas. Ainda há poucos meses, um
grupo de cidadãos de Leste foi surpreendido nas bombas de
gasolina da Damaia quando vendiam uma Kalashnikov por 200 euros.
A LEI PENAL PORTUGUESA NÃO PREVÊ O TRÁFICO DE ARMAS
O crime de tráfico de armas não está previsto na ordem jurídica
portuguesa. Segundo o juiz Raul Esteves, a única forma de punir
a posse ilegal de armas de guerra é através do Código de justiça
Militar. O artigo 275 do Código Penal poderia ter a solução mas,
segundo aquele magistrado, “o Código de Justiça Militar que
entrou em vigor em Setembro último, derrogou o artigo 275 do
Código Penal porque veio dispor sobre a mesma matéria sem
revogar expressamente o artigo do CP”.
Este juiz, Raul Esteves, foi o presidente do grupo de cinco
especialistas que ao longo de dois anos preparou uma nova lei
para o uso e porte de armas de defesa.
A legislação esteve pronta mas prescreveu. A lei apontava para
um controlo mais apertado sobre o uso de armas, regulava a
utilização de sprays de defesa e pistolas eléctricas e
estabelecia um novo enquadramento sobre armas furtadas.
O documento recebeu críticas positivas de vários quadrantes
políticos e uma autorização legislativa aprovada por unanimidade
na Asssembleia da República. Durão Barroso foi para a Europa e
os 180 dias para fazer aprovar a lei prescreveram. A AR concedeu
então nova autorização legislativa mas Santana Lopes não
priorizou o assunto e a lei continua na gaveta. Segue-se José
Socrates.

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Preso carrasco de Ireneu |
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Um dos quatro
suspeitos da morte do agente da PSP Ireneu Diniz foi apanhado,
cerca das 06h00 da manhã de ontem, enquanto dormia, numa casa
arrendada no Cacém. Um juiz do Tribunal de Instrução Criminal de
Lisboa decidiu mandá-lo em prisão preventiva. O suspeito, Lino,
de 20 anos, é hábil com as armas de fogo.
Ficou feita em
pedaços a porta da casa em Casal do Cotão, Cacém, na Linha de
Sintra, onde se escondia um dos suspeitos do homicídio do agente
da PSP Ireneu Diniz. Avançou, primeiro, uma equipa de assalto do
Grupo de Operações Especiais da PSP (GOE) – e, logo atrás,
inspectores da Polícia Judiciária. Eram 06h30. Lino, conhecido
como ‘Bechona’, de 20 anos, foi apanhado a dormir. Com ele,
estavam mais três todos menores, entre eles, o irmão.
Trinta e cinco dias depois do homicídio do agente Ireneu Diniz,
na Cova da Moura, na madrugada de 17 de Feveriro, foi detido um
quarto suspeitos do crime.
A operação ‘Cerco Maior’, nome de código dado à acção policial
de ontem, começou a ser preparada no final da passada semana,
pela Polícia Judiciária. a operação foi planeada pela Directoria
da PJ de Lisboa, em colaboração com a PSP. A investida policial
foi ultimada ao final da noite de segunda-feira – e teve início
pelas 05h00 de terça-feira.
A Polícia Judiciária tinha ontem para cumprir 20 mandados de
busca domiciliária e um mandado de detenção emitidos pelo
Ministério Público.
O primeiro destino da operação foi a Cova da Moura, nos
arredores da Amadora, onde cerca de 180 agentes chegaram pelas
05h00, entre investigadores da PJ, operacionais do GOE e do
Corpo de Intervenção. “O principal alvo foi a Rua de São
Nicolau, onde podia estar o indivíduo procurado”, disse ao CM
fonte policial.
Cinco homens foram detidos em várias casas daquelas passadas a
pente fino. Estavam indiciados por extenso rol de crimes de
roubo, assaltos e posse de armas proibidas.. Uma caçadeira de
canos serrados, uma pistola de calibre de guerra e três armas de
calibre 6,35 milímetros foram apreendidas. Mas nem sinal do
principal suspeito. A Polícia passou, então, à segunda fase – e
as forças policiais envolvidas na operação ‘Cerco Maior’
avançaram para o Casal do Cotão, às portas do Cacém. “Se o
suspeito não fosse encontrado na Cova da Moura, só poderia estar
numa casa que arrendou naquele local com o irmão mais novo e
outros dois menores”, disse ao CM fonte policial.
A ‘ficha’ policial de Lino, o ‘Bechona’, obrigava a redobrados
cuidados de segurança. É um hábil atirador e as armas de fogo
não têm segredos para ele. Sempre viveu na Cova da Moura. Os
pais são cabo-verdianos e ele nasceu em Portugal. Nunca foi
condenado, mas está refeenciado por, roubos, assaltos à mão
armada e tráfico de droga.
Pelas 06h30, forças policiais tomaram posição à volta do prédio,
o n.º 3 da Rua Cidade de Setúbal, em Casal do Cotão, Cacém, onde
Lino vivia num andar arrendado. Uma equipa de assalto do Grupo
de Operações Especiais, secundada por inspectores da Polícia
Judiciária, subiram para o 4.º esquerdo, a casa de Lino.
“Ninguém aqui no prédio ouviu a chegada das autoridades: só o
barulho da porta a ir abaixo e os gritos dos polícias lá dentro
de casa”, recordou ao nosso jornal uma moradora do prédio.
‘Bechona’ foi descoberto, ainda a dormir, num dos quartos da
casa. No apartamento foi ainda encontrado o irmão do suspeito, e
outros dois menores – estes três sem qualquer ligação à morte do
agente da PSP.
O detido foi de imediato levado para os calabouços da PJ, em
Lisboa. À tarde, foi interrogado por um juiz de Instrução
Criminal. Foi-lhe decretada a prisão preventiva. É suspeito de
pertencer ao grupo que matou com 22 tiros o agente Ireneu.
As investigações da Polícia Judiciária vão prosseguir. Sabe-se
que os criminosos são quatro, que disparam uma metralhadora Uzi,
uma caçadeira e duas pistolas de calibres 7,65 e 9 milímetros.
SUSPEITO PERIGOSO A MONTE
O mais perigoso do grupo de quatro indivíduos que matou o agente
da PSP Ireneu Diniz está a monte, algures país europeu – disse
ao CM fonte policial. Este homem, com idade entre os 20 e os 30
anos, é filho de imigrantes cabo-verdianos e nasceu em Portugal.
As investigações já efectuadas permitiram apurar que terá sido
ele a disparar a pistola-metralhadora Uzi que em conjunto com
tiros de caçadeira e de pistola de calibres 7,65 e 9 milímetros,
acabaram com a vida do agente Ireneu Diniz. Há quatro semanas,
dia 25 de Fevereiro, a PSP deteve um suspeito do crime, que foi
libertado por falta de provas.
FAMÍLIA QUER JUSTIÇA PARA "VIVER EM PAZ"
ww A família de Ireneu Diniz, em Soeira, Vinhais, espera que a
captura de um dos suspeitos na tragédia que o vitimou possa
ajudar para que seja feita justiça – uma das coisas que mais
desejam na vida para viverem em paz. Fátima Diniz, irmã do
falecido agente da PSP, disse que “é sempre triste recordar
outra vez a tragédia que abanou a nossa família”. “Durante este
mês, aquilo que eu mais pedi a Deus foi que fossem encontrados e
castigados os assassinos. Acredito que a Polícia está a fazer
tudo o que pode, mas para nós o tempo corre muito depressa.
Esperamos que se faça justiça”. Sobre a ajuda financeira à
família, que foi prometida nos dias da tragédia, a irmã do
agente fala do bom e do mau.
“O apoio dos colegas, amigos, chefias da Polícia não nos tem
faltado. A Segurança Social já entregou uma pequena contribuição
pontual para a minha mãe. A nível particular, tem havido
generosidade. Entristece-nos o facto de por parte do Governo,
depois do funeral, nem mais uma palavra ouvimos, e isso custa
muito em especial à minha mãe, que ainda está bastante abalada”,
disse Fátima Diniz.
'NINJAS' DA PSP EM ACÇÃO
Lino, o ‘Bechona’, considerado um homem perigoso e hábil a
manejar armas, foi apanhado a dormir numa casa, nos arredores do
Cacém. A equipa de assalto do Grupo de Operações Especiais, os
‘Ninjas’ da PSP, partiram a porta em menos de um fósforo e
entraram de rompante – como se vê nos filmes.
Na operação ‘Cerco Maior’ participaram uma centena de
operacionais, fortemente armados, do Corpo de Intervenção da
Polícia de Segurança Pública. A missão era isolar todos os
locais onde decorreram rusgas e garantir a segurança dos
inspectores da Polícia Judiciária.
“Êxito de 100 por cento” – foi assim que o subintendente Magina
da Silva, comandante do Grupo de Operações Especiais da PSP, se
referiu à captura de um dos suspeitos da morte do agente Ireneu
Diniz. O oficial do GOE louvou ainda a articulação entre a PSP e
a Polícia Judiciária.
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O bairro onde o
carteiro não entra há dois anos |
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Santa
Filomena é uma das "ilhas" do crime da Amadora. Entrar ou tentar
a aproximação
fora de um determinado horário é como pedir para ser roubado e,
muitas vezes, agredido.
Os dois agentes da PSP foram mortos mesmo aqui ao lado.
Ainda é cedo,
mas nos acessos ao Casal de Santa Filomena, bairro degradado da
Amadora vizinho do bar às portas do qual foram abatidos dois
polícias no último fim-de-semana, já há mulheres na rua a vender
peixe em alguidares. Adultos deixam, apressados, as barracas e
encaminham-se para a estação ferroviária. Vão trabalhar nas
obras e nas limpezas.
Três horas mais tarde, as peixeiras, enxotando as moscas, ainda
tentam despachar o resto do pescado. Encostados às paredes,
grupos de jovens perfilam-se como se fizessem guarda ao bairro.
A partir desse momento torna-se perigoso, para quem é de fora,
tentar entrar ou mesmo circular nas imediações.
O gueto em que se transformou o Casal de Santa Filomena, bairro
clandestino nascido, como todos os restantes do concelho da
Amadora, no pós-25 de Abril de 1974, com cerca de 3500
habitantes, está aberto aos não moradores apenas três a quatro
horas por dia. "Das sete até às dez da manhã, com sorte, não há
problemas", garante um agente da PSP, que pediu o anonimato.
A dimensão da criminalidade e violência existentes no bairro e
suas imediações pode ilustrar-se com um caso, no mínimo,
caricato. Os carteiros já não entram lá dentro há cerca de dois
anos. Era frequente serem assaltados e agredidos. Quando se
recusaram a fazer a distribuição, a solução encontrada foi
instalar, numa rua de acesso, uma "bateria" de caixas de
correio. Muitas delas são frequentemente arrombadas, sobretudo
aquelas que pertencem a idosos e onde se presume que possa ser
depositada correspondência que renda dinheiro de reformas e
subsídios.
"Aqui há assaltos todos os dias. Ninguém está seguro, seja na
rua ou em casa", explica Maria Felisberta, moradora na vizinha
Avenida General Humberto Delgado - onde fica o Chop Bar, junto
ao qual foram baleados os agentes da PSP. Na extremidade desta
artéria, que confina com o Casal de Santa Filomena, os
estabelecimentos comerciais atestam o grau de insegurança da
zona: todos eles, quer vendam hortaliças, cafés ou roupas, estão
protegidos por gradeamentos.
"Cercam-nos,
roubam-nos, agridem-nos"
"Atender um telemóvel na rua é a mesma coisa que dizer que já
ficou sem ele", conta, por sua vez, um reformado que caminha com
o auxílio de uma bengala.
Num café próximo, o proprietário, Alberto Morais, diz que não
"tem conta o número de pessoas que já levei a casa em cuecas".
São vítimas de assaltos. Incautos, fora do "horário livre",
cometem o erro de entrar ou aproximarem-se do bairro. Grupos de
adolescentes - "às vezes são mais de 50" - cercam-nos,
roubam-nos, agridem-nos e, muitas vezes, retiram-lhes quase todo
o vestuário.
Para a polícia, entrar no bairro é igualmente uma tarefa
difícil. Existem 21 ruas e um sem-número de becos e "fisgas"
(espaços de cerca de 50 centímetros entre as paredes das
barracas). Das ruas, que têm como nomes as letras do alfabeto
(só não existem a J, a Y e a W), apenas duas são transitáveis,
uma por automóveis e outra por jipes. "Eles [os jovens] conhecem
o bairro de olhos fechados e uma vez lá dentro é quase
impossível apanhá-los", conta um agente da PSP.
A criminalidade em Santa Filomena, segundo os polícias,
divide-se em dois grupos. O primeiro inclui os menores e
adolescentes. Os que fazem assaltos nas ruas. "Começam aos sete
ou oito anos a roubar nos supermercados. Depois passam para os
telemóveis. Mais tarde, a partir dos 12 ou 13, iniciam-se nos
carros e vão até aos roubos em estabelecimentos", pormenoriza o
mesmo agente da PSP, que prefere não ser identificado.
A morte encomendada
de "Zé de Verde"
Este ciclo costuma ser interrompido quando os jovens, mais ano
menos ano, chegam aos 18. "Nessa altura passam para o tráfico de
droga. Aí já não afrontam a polícia, ficam mais discretos",
refere ainda o agente. São estes, explica, os que acabam por ser
referenciados nos actos mais violentos aqui registados.
Fala-se de homicídios. De ajustes de contas entre traficantes,
com matadores contratados. Nos dois últimos anos foram cinco as
pessoas aqui assassinadas. Fica a história da morte encomendada
de "Zé de Verde" (irmão do já falecido traficante e homicida "Celé").
O homem que ia executar o serviço, confiado na descrição do
vestuário que lhe fizeram, esfaqueou fatalmente, junto a uma
taberna do bairro, uma outra pessoa.
A primeira tentativa para eliminar o traficante falhou, mas
semanas depois, ainda em Santa Filomena, "Zé de Verde" acabou
por morrer crivado de balas. À polícia chegou a informação de
que esta morte foi paga com poucas centenas de euros.
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Milhares de agentes em
manifestações de luto em vários pontos do país |
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No dia em que
os dois agentes da PSP assassinados na Amadora foram a enterrar
em Gondomar e na Guarda, milhares de colegas, familiares e
anónimos desfilaram em silêncio também em Lisboa. Em homenagem a
Paulo Alves e Carlos Abrantes, mas também para reivindicar mais
apoio e meios. A tutela mandou instaurar um inquérito para que
os familiares das vítimas recebam indemnização. Por Isabel
Leiria, Sandra Silva Costa e Gustavo Brás
O desabafo é de
Cândida Ivo, "esposa, irmã e cunhada de agentes da PSP": "Todos
os dias me levanto e me deito com o credo na boca e o coração
apertado." Fala antes de iniciar a marcha em silêncio, pelas
ruas de Lisboa, em homenagem aos dois agentes da PSP mortos a
tiro na Amadora no último fim-de-semana.
Ao apelo do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP) e a
Associação Sindical Independente de Agentes da PSP responderam
perto de quatro mil pessoas, segundo a polícia, que desfilaram,
ontem ao final do dia, entre o Marquês de Pombal e o Terreiro do
Paço.
De cartolina negra na mão, Cândida insiste. "Em primeiro lugar,
era meu dever cívico sair à rua em lamento pela mortes de três
agentes", ocorridas só nestes três primeiros meses do ano. "Toda
esta situação revolta toda a gente."
Ao seu lado concentravam-se familiares de agentes da PSP,
bombeiros, elementos de várias forças de segurança, fardados ou
à paisana, cidadãos sem ligação à polícia a não ser a
"solidariedade" que quiseram expressar e moradores na Amadora,
como Alcides Mendes, da associação Espaço Jovem, no Casal de
Santa Filomena. "Esta é uma boa iniciativa para mostrarmos que
estamos solidários com a polícia. Falta muita coisa para acabar
com a criminalidade, mas este é um primeiro passo", diz.
A ideia era que a manifestação terminasse em frente ao
Ministério da Administração Interna, onde seria cumprido um
minuto de silêncio. Mas foi mesmo sempre em silêncio que o
desfile se cumpriu. Sem palavras de ordem, sem apitos ou
megafones. Um olhar de consternação e respeito marcava os rostos
das pessoas nas ruas. Todos estavam de acordo em que era preciso
dar "autoridade às autoridades", "mais meios", "mais apoios".
Os mesmos pedidos foram ouvidos de manhã, numa vigília que
juntou poucas dezenas de agentes da PSP à frente do Parlamento.
E serão repetidos numa reunião que o SPP terá na segunda-feira
com o ministro da Administração Interna. Em comunicado, o
gabinete de António Costa fez para já saber que "mandou
instaurar o necessário inquérito, de forma a poder ser atribuída
aos familiares uma indemnização pelos danos que sofreram".
Funerais em Baguim do
Monte e Guarda
Há pouco mais de um mês, participou nas cerimónias fúnebres de
Irineu Dinis, o agente baleado na Cova da Moura a 17 de
Fevereiro. Ontem voltou a vestir a farda e saiu de Bragança ao
final da manhã com destino a Baguim do Monte, Gondomar, para
assistir ao enterro de Paulo Alves, 23 anos. Tem o crachá com o
nome à frente de todos os olhos mas pede para não ser
identificado. "Trabalhamos numas condições que ninguém imagina e
ainda ficam admirados com estas mortes..." Depois volta a fechar
a cara e não diz mais nada.
"É um sentimento de revolta contra tudo e contra todos." É
mulher, da divisão da PSP da Amadora, a mesma a que pertenciam
os dois agentes baleados na madrugada de domingo e ontem
sepultados, e fuma cigarro atrás de cigarro. Também fala sob a
condição de anonimato. "Tem de mudar muita coisa, principalmente
na Amadora", a "pior e mais perigosa" zona do país para um
agente da PSP trabalhar. Insiste: "Ouve-se dizer na comunicação
social que andamos sempre acompanhados nos patrulhamentos, mas
não é verdade. Estamos sempre sozinhos. Há muita coisa a mudar."
A tarde de ontem foi, aliás, a tarde de todos os silêncios. Nem
o ministro da Administração Interna, António Costa, nem o
dirigente da Associação Sindical de Profissionais da Polícia,
Adão Vaz, presentes no funeral, quiseram prestar declarações.
As centenas de agentes da PSP de todo o país que se concentraram
em Baguim do Monte - só da região de Lisboa saíram dois
autocarros - também preferiram economizar as palavras. "Por
respeito à memória do colega falecido".
Carregando coroas de flores, os grupos de agentes da PSP não
pararam de chegar até mesmo depois das 15h00, hora para que
estava marcada a missa de corpo presente. A celebração acabou
por iniciar-se com algum atraso, mas o pároco da freguesia,
padre Borges, ainda teve tempo para, durante a homilia, deixar
um recado ao ministro António Costa. Pediu "mais meios" para as
forças de segurança combaterem a criminalidade e afirmou que
chegou a altura de o Governo "passar das palavras aos actos".
Por volta das 16h20, o toque dos sinos anunciou outra etapa nas
cerimónias fúnebres. A urna com o corpo de Paulo Alves, coberta
com a bandeira nacional, foi carregada em ombros pelos colegas
da esquadra até ao carro funerário. Alguns não conseguiram
evitar as lágrimas.
"Gesto de
solidariedade"
O cenário foi em tudo idêntico na Guarda, onde foi a enterrar
António Carlos Abrantes, o outro agente da PSP baleado na
Amadora. A celebração na Igreja da Misericórdia foi presidida
pelo bispo coadjutor do distrito, Manuel Felício. Estiveram
presentes o secretário de Estado adjunto do ministro da
Administração Interna, José Magalhães, o director adjunto da
direcção nacional da PSP, Carlos Lima, bem com o presidente da
Câmara da Amadora, Joaquim Raposo.
No exterior da igreja, o ambiente era de profundo pesar,
consternação e revolta. Em sinal de luto da corporação, os
agentes da PSP colocaram uma faixa preta nos crachás.
Pouco passava das 16h30 quando a urna saiu da igreja aos ombros
dos colegas da vítima, seguindo depois em direcção ao cemitério
municipal. O cortejo fúnebre foi acompanhado por milhares de
pessoas. À entrada do cemitério, diversos elementos do Corpo de
Intervenção da PSP formavam a guarda de honra que assinalou o
último adeus a António Carlos Abrantes.
No final, Joaquim Raposo explicou que se deslocou à Guarda "num
gesto de solidariedade em relação à PSP no seu conjunto e, em
particular, em relação à família do agente falecido".
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Ministros de Santana
adjudicam sistema de comunicações três dias após as eleições |
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Comissão de avaliação
obrigou empresa a baixar o preço do projecto num terço do seu
valor
O ex-ministro da Administração Interna, Daniel Sanches, assinou
um despacho conjunto com o responsável pela pasta das Finanças,
Bagão Félix, três dias após as eleições legislativas,
adjudicando um sistema de comunicações, no valor de mais de 500
milhões de euros, a um consórcio liderado pela Sociedade Lusa de
Negócios (SLN), uma holding para a qual o próprio Daniel Sanches
trabalhou, antes de integrar o Governo de Santana Lopes.
Manuel Dias Loureiro, deputado do PSD e presidente da mesa do
congresso, também está ligado a este grupo como administrador
não executivo. O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de
Cavaco Silva, Oliveira e Costa é o presidente da SLN.
A adjudicação do Sistema Integrado das Redes de Emergência e
Segurança de Portugal (SIRESP) - uma infra-estrutura de
comunicações móveis, que permitirá a interligação entre as
várias forças de segurança, a emergência médica e a protecção
civil - foi assinada no dia 23 de Fevereiro. O processo de
escolha da empresa, que irá assegurar a rede durante pelo menos
15 anos, já tem um vasto currículo de polémicas.
Em Julho de 2003, o Governo convidou cinco empresas de
telecomunicações a apresentar propostas a este =meganegócio, mas
apenas o consórcio vencedor enviou um projecto. Depois de terem
pago 15 mil euros pelo programa de procedimentos, os restantes
participantes desistiram, alguns alegando que o concursos estava
previamente decidido (ver PÚBLICO de 17/09/2003).
O despacho de adjudicação foi publicado no Diário da República
de 9 de Março. Neste documento, refere-se que o adiamento da
adjudicação "poderia causar inevitáveis atrasos na implementação
do SIRESP, comprometendo irremediavelmente a sua conclusão" no
prazo estabelecido por uma resolução do Conselho de Ministros de
2003.
Essa mesma decisão determinava que o sistema deveria ser
instalado em duas fases, ao longo de seis anos. A primeira, a
executar entre 2003 e 2004, incluiria a instalação de estações
de base e de toda a infra-estrutura básica em oito zonas
urbanas, que iriam receber o Euro 2004. A fase seguinte seria
concluída até 2008. A primeira etapa não chegou a ser cumprida,
não tendo o sistema servido de base operacional a qualquer das
entidades que garantiu a segurança e o socorro no Europeu de
futebol.
Adjudicação é
provisória
O PÚBLICO tentou contactar, sem sucesso, o ex-ministro Daniel
Sanches, que se encontra de férias. Na impossibilidade de obter
um comentário do governante, Fátima Franco, ex-assessora de
imprensa do ex-titular da pasta da Administração Interna,
explicou que a adjudicação foi feita a título "provisório",
sendo "susceptível de revogação imediata". A assessora adiantou
ainda que o contrato com o consórcio vencedor ainda não foi
assinado e justificou a data da decisão, já depois das eleições,
com o facto de se tratar de um processo "urgente". Já a
ex-adjunta do ministro Bagão Félix, Jacinta Oliveira, contactada
pelo PÚBLICO, apenas referiu que a questão já tinha sido
levantada há duas semanas por um órgão de comunicação social e
que nessa altura a resposta oficial foi que o assunto se tratava
de uma "matéria substantiva do Ministério da Administração
Interna".
Dias Loureiro, administrador não executivo da SLN, sublinha em
declarações ao PÚBLICO, que não está ao corrente do que se passa
com o processo e que acredita que o Governo tomou uma decisão
que cumpre os requisitos de legalidade. Confirma que Sanches
trabalhou para a SLN, como administrador da Pleiade (uma
sub-holding do grupo) e de outras empresas deste universo, antes
de integrar o Executivo de Santana, mas insiste na seriedade do
ex-governante. "Daniel Sanches é uma pessoa integra e séria. Se
tomou essa decisão é porque achou que a podia tomar", sustentou
Dias Loureiro, que já foi accionista da SLN.
Preço reduzido em200
milhões de euros
Num primeiro contacto com o PÚBLICO, o ex-ministro ministro da
Administração Interna de Cavaco Silva não soube precisar se
ainda detinha qualquer quota na SLN, acabando por completar,
numa segunda conversa, que já não possuía acções da holding de
que é administrador não executivo. Insistiu em referir que é
presidente da Ericsson, a principal concorrente da Motorola -
esta última empresa também faz parte do consórcio.
Contactada pelo PÚBLICO a SLN, que detém um total de 43 por
cento do consórcio - 33 por cento através da holding e quase 10
por cento através da Datacomp, uma empresa do grupo -, enviou um
resposta escrita, explicando que o projecto se integra numa
parceria público-privada, que incluiu a concessão da rede por 15
anos. A empresa especifica que o SIRESP levará três anos e meio
a concretizar, contabiliza um investimento global de 115 milhões
de euros e será usado por 55 mil utilizadores de sete
organizações: PSP, GNR, PJ, INEM, Cruz Vermelha, Marinha,
Direcção-Geral das Florestas.
O montante referido não corresponde, no entanto, ao valor global
do sistema, que está contabilizado por uma comissão independente
em 538,2 milhões de euros. Esta comissão de avaliação, que
emitiu um relatório final a 16 de Fevereiro, obrigou o
consórcio, composto pela SLN, pela PT Venture (30,1 por cento),
Motorola (14,9 por cento) e Esegur (uma empresa do grupo
Espírito Santo que detém 12 por cento), a rever as suas
condições, por considerá-las insatisfatórias do ponto de vista
do interesse público. O preço foi um dos itens alterados, sendo
reduzido em cerca de um terço, ou seja, menos 200 milhões de
euros. Também foram introduzidas modificações técnicas no
projecto e acrescentadas cláusulas que permitem o Estado
acautelar situações de incumprimento. Os níveis de penalizações
ao consórcio, no caso de inoperacionalidade da rede, também
foram alterados em alta, já que foram considerados insuficientes
pela comissão.
João Pires, um porta-voz do actual ministro da Administração
Interna, António Costa, assegurou que o processo está a ser
analisado pelo governante, sem adiantar mais pormenores.
O PÚBLICO contactou três das quatro empresas que desistiram do
concurso. A Siemens precisou que não tinha comentários a fazer e
a Nokia não respondeu. A Elocom, ligada à EADS, uma das
concorrentes, explicou que não teve envolvimento directo no
processo, remetendo explicações para os escritórios franceses da
companhia.
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Governo passa a decidir o
que as polícias devem investigar |
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PDiário:
Executivo quer decidir quais os crimes que devem ser
investigados mais rapidamente. Magistrados do Ministério Público
- que agora conduzem as investigações - estão de acordo
Uma das medidas
do executivo de Sócrates é a determinação de prioridades na
investigação criminal. Actualmente sob a alçada do Ministério
Público (MP), as investigações são instauradas cada vez que o MP
tem conhecimento de um crime. Mas o volume processual nem sempre
permite apagar todos «os fogos» judiciais ou seguir todas as
pistas.
«O princípio
legal que o novo executivo pretende aplicar está já garantido na
Constituição. São os órgãos de soberania que determinam a
política criminal a ser seguida quer pelo MP quer pelas
polícias. Nesse sentido é legitimo que o Governo queira
regulamentar algo que já está previsto constitucionalmente e
como sempre o MP irá cumprir a legalidade», assegurou ao
PortugalDiário Luís Felgueiras, presidente do sindicato dos
magistrados do Ministério Público (SMMP).
Apesar de estar
previsto constitucionalmente, nenhum governo anterior tomou as
rédeas das prioridades na investigação criminal, pelo menos, não
formalmente. Isto porque, a nomeação do Procurador-geral da
República é política e como tal seguirá as orientações dadas
pelo governo eleito. Para os socialistas é preciso ir mais longe
e discriminar legalmente os crimes aos quais deve ser dada
prioridade, para além das que decorrem da legislação já em
vigor.
Fonte do
gabinete do ministro da Justiça adiantou ao PortugalDiário que
as prioridades na investigação criminal só serão determinadas,
após aprovação da Lei que irá estabelecer a política criminal,
que ocorrerá dentro em breve.
Uma decisão que
pode ser interpretada como um mero formalismo, uma vez que as
prioridades na investigação criminal estão já definidas no
programa de Governo. No entanto, o ex-secretário de Estado da
Justiça, no governo de Santana Lopes, Paulo Rangel, explica ao
PortugalDiário que não partilha dessa ideia. «Poderá vir a ser
um mero formalismo... depende, mas depende bastante do que o
executivo socialista apresentar. No entanto, acho que pode ser
um instrumento muito útil e que sempre defendi. Não só por estar
consagrado na Constituição, mas também porque é necessário
defender prioridades com sentido. Isto é, de acordo com as
estatísticas criminais».
No programa de
Governo são estabelecidas prioridades no combate à
criminalidade, nomeadamente aos crimes violentos, de terrorismo
e criminalidade económico-financeira. É neste último ponto que
os magistrados do MP consideram que podem ser dados novos
passos. «A criminalidade aduaneira e fiscal poderá ser uma
prioridade interessante tendo em conta que é uma das áreas onde
o Estado perde mais dinheiro em impostos. É também onde a
colaboração internacional precisa de ser mais aprofundada»,
adianta.
Segundo o
sindicato «existem ainda muitos passos para dar» na
criminalidade económica, especialmente a nível de identificação
de redes internacionais. A fuga aos impostos aduaneiros,
nomeadamente no contrabando de álcool e tabaco - é uma das
principais fontes de rendimento da criminalidade organizada, que
consequentemente, poderá ser também a mais violenta.
Para Paulo
Rangel a medida socialista faz todo o sentido, no entanto, é
necessário que quando existir um diploma concreto seja dada
prioridade a problemas graves, como o tráfico de droga, de
pessoas, terrorismo e criminalidade violenta. «Até porque poderá
existir algum perigo na concessão de prioridades na investigação
criminal».
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Manifestação de polícias |
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Cerca de 40
polícias manifestaram-se, esta manhã, em frente à Assembleia da
República para exigirem medidas para as forças de segurança. O
sindicalista Alberto Torres defende que é preciso dar resposta
aos problemas. O ministro da Administração Interna, António
Costa, não quer precipitações.
«É preciso que
rapidamente se faça uma reforma nas forças de segurança de modo
a que os polícias tenham os meios necessários para o desempenho
da sua função, em prol da segurança de todos os cidadãos»,
adiantou Alberto Torres, da Associação Sindical de
Profissionais da Polícia (ASPP).
O sindicalista
alertou ainda para que se resolva «rapidamente o grave problema
o drama das famílias que para além de ficarem sem os seus
familiares ficam desprotegidas».
Perante as
reivindicações dos polícias, o ministro da Administração
Interna, António Costa, quer ouvir a direcção nacional da PSP e
as associações que representam os profissionais.
«Temos já um
conjunto de reuniões de trabalho marcadas para o início da
próxima semana, seja com o comando e direcção nacional das
forças policiais, quer com o conjunto de reuniões que já
tínhamos solicitado com as organizações sindicais das diferentes
corporações», afirmou António Costa.
O ministro
recusou a ideia de tomar decisões precipitadas. «Estamos a
acompanhar a situação com as forças de segurança e na altura que
for apropriado anunciaremos as medidas», acrescentou.
Na apresentação
do Programa do Governo, José Sócrates reafirmou a ideia de que o
Executivo vai reforçar a segurança nas áreas críticas.
Frente à
Assembleia da República decorreu, esta manhã, uma homenagem aos
dois polícias mortos na Amadora e em defesa de maior segurança.
Para esta tarde está marcada uma marcha silenciosa.
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PSP e PJ não se intimidam
com bairros problemáticos |
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Directores nacionais das duas polícias satisfeitos com operação
conjunta na Cova da Moura. Detenção do principal suspeito da
morte do agente Ireneu foi feita pelo Grupo de Operações
Especiais
A Polícia
Judiciária e a Polícia de Segurança Pública garantem que não
existe qualquer espécie de «intimidação» em relação aos bairros
problemáticos dos arredores de Lisboa. A operação desta manhã,
no bairro Cova da Moura, é a prova disso mesmo.
Os directores
nacionais das duas polícias apareceram juntos, esta terça-feira,
para apresentar a operação conjunta que resultou na detenção do
principal suspeito da morte do agente Irineu Diniz, no passado
dia 17 de Fevereiro na Cova da Moura. Santos Cabral, director
nacional da PJ, garante que «há ainda algo a esclarecer», já que
o crime terá sido cometido em co-autoria.
A operação
desta manhã contou com a participação de cerca de 180 efectivos
da PSP e da PJ, incluindo duas forças do Corpo de Intervenção e
do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP. Magina da Silva,
comandante do GOE explica que uma parte da operação, que
decorreu no Cacém, «foi apenas mais uma igual a muitas outras.
Procedemos à abertura da porta do apartamento, onde estavam três
suspeitos, dois adultos e um adolescente, que não ofereceram
resistência».
No bairro da
Cova da Moura, 18 buscas domiciliárias levaram à detenção de
seis pessoas e à apreensão de uma caçadeira de canos cerrados,
uma pistola de guerra e três armas de calibre 6.35.
Tanto Santos
Cabral, da PJ, como Branquinho Lobo, director nacional da PSP,
mostraram-se satisfeitos pelo decorrer das operações conjuntas
das duas polícias, apesar de manifestarem pesar pela morte de
três agentes da PSP no último mês. Branquinho Lobo disse mesmo
estar «triste por não poder comparecer no funeral dos dois
agentes», assassinados no passado domingo.
Quanto à
questão da violência nos bairros periféricos de Lisboa, como o
caso da Cova da Moura, para Santos Cabral, «não é um problema
novo. O problema que se coloca é que tem de ser encontrada a
melhor forma de encarar a questão». Paulo Rebelo, sub-director
da directoria de Lisboa, afirmou que «não vivemos num caos».
«Há um
denominador comum entre a notícia que damos hoje e os factos que
ontem [segunda-feira] ocorreram. É a questão das armas
proibidas», explicou Santos Cabral. «É importante estarmos
atentos a esta questão». Contudo, não existe, garantiu o
director nacional da PJ, qualquer relação entre a operação desta
terça-feira, em que foram apreendidas cinco armas ilegais na
Cova da Moura, e a de segunda-feira em Melides, Alentejo, onde
foi encontrado um verdadeiro arsenal de armas de guerra ilegais.
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Policia - PS muito vago
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O Programa de
Governo para a área da segurança é pobrezinho. Houve as Novas
Fronteiras, que foi uma espécie de Estados Gerais, onde Rui
Pereira apareceu com um papel muito bem feito, sobre o que era
preciso fazer em matéria de segurança. Desse papel não passou
praticamente nada, nem para o programa eleitoral, nem para o
Programa de Governo. Portanto, que esta campainha [morte de dois
polícias na Amadora] que tocou dramaticamente na vida de duas
famílias sirva também de campainha para este Governo. Que haja a
preocupação urgente de se perceber o que se passa, não só em
termos sociais e culturais nos guetos, mas no que se passa em
termos de forças de segurança, de meios e de motivação, e de
alteração de regime e de prioridade que é preciso dar, antes que
surja uma coisa errada, que é transformar-se a segurança numa
obsessão dos portugueses, a securitização da vida política
portuguesa não é boa.
Eu compreendo mal que não haja colete à prova de bala para todos
os agentes de segurança. Agora não compreendo, de todo, que não
haja para quem intervém em zonas de risco como aquela.
Há outra coisa que também é incompreensível - como é que, e se é
verdade o que me disseram, que o assassino, podemos dizer assim,
utilizou uma arma de 9 milímetros. Em princípio, as forças de
segurança não têm armamento tão sofisticado, mas os virtuais
delinquentes têm, para não dizer os efectivos delinquentes.
Outra questão como é que, apesar de tudo, é possível, em termos
de planeamento, haver um veículo não blindado que vai para essas
zonas e em que intervêm sozinhos três agentes? |
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