REVISTA DE IMPRENSA - DOSSIÊ N.º 73

 
     
     
  Polícias expressam «profunda preocupação» , in dn de 23 de Junho de 2005  
  Lutam pela reforma mais cedo , por Falcão-Machado in CM de 23 de Junho de 2005  
  As explicações do ministro , in SIC online de 22 de Junho de 22 de Junho de 2005  
  Forças de Segurança ameaçam endurecer formas de luta , in Publico de 22 de Junho de 2005  
  Manif junta dois mil agentes das forças de segurança , in PD de 22 de Junho de 2005  
 

Medo maior do que força da Polícia , por Paulo João Santos in CM de 22 de Junho de 2005

 
  Sindicatos da Polícia contestam reforma , in JN de 22 de Junho de 2005  
  Forças policiais saem hoje à rua contra política de António Costa , in DN de 22 de Junho de 2005  
 

Deserto de medo , por Ricardo Marques in CM de 19 de Junho de 2005

 
  Dilemas policiais , por Hernâni Carvalho in CM de 20 de Junho de 2005  
  Os guetos de Carcavelos , por Hugo Franco in CM de 20 de Junho de 2005  
  Crime sobe na Amadora , por Sónia Simões in CM de 19 de Junho de 2005  
  Polícia evitou confrontos na manifestação skin , por Sónia Simões in CM de 19 de Junho de 2005  
 

Nacionalidade - Sampaio quer nova Lei , por Henrique Machado in CM de 19 de Junho de 2005

 
  Polícia promete Verão com segurança apertada , por Cláudia Lima da Costa in PD de 18 de Junho de 2005  
     
Polícias expressam «profunda preocupação»
 

Pelas medidas anunciadas pelo Governo, nomeadamente as respeitantes aos subsistemas de saúde das duas corporações 

Os cerca de dois mil profissionais da PSP e da GNR que se manifestaram hoje em Lisboa expressaram "profunda preocupação" pelas medidas anunciadas pelo Governo, nomeadamente as respeitantes aos subsistemas de saúde das duas corporações.

O ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa, anunciou que os subsistemas de saúde da PSP e da GNR serão equiparados ao regime da ADSE (Assistência na Doença aos Servidores do Estado), o que, para os polícias e guardas, representará "uma diminuição de regalias".

No âmbito da manifestação de hoje, na Praça do Comércio, foi entregue no Ministério da Administração Interna (MAI) uma moção a expressar "profunda preocupação pelo conjunto de medidas que o Governo pretende implementar no âmbito das forças de segurança".

O texto faz referência "ao fim dos subsistemas de saúde, congelamento da progressão nas carreiras e subsídios e aumento do tempo de serviço para efeitos de pré-reforma e reforma", que passará dos actuais 55 para 60 anos.

Essas medidas, "a serem aprovadas, atentam gravemente contra os já magros direitos dos profissionais das forças de segurança, tendo em conta a especificidade da sua função e o risco que da mesma deriva", acrescenta.

Os manifestantes solicitam, através da moção, "a imediata suspensão dos projectos que visam colocar em prática as medidas anunciadas e a constituição de um grupo de trabalho, tutelado pelo MAI, para análise e debate das mesmas".

A manifestação de hoje circundou por duas vezes o quarteirão onde se situa o MAI, ouvindo-se palavras de ordem como "Ó mentiroso vem à janela", numa alusão ao ministro António Costa.

"O descontentamento nas forças de segurança é tão grande que nesta manifestação os manifestantes, a nível da PSP, são 80 por cento agentes, 10 por cento chefes e 10 por cento oficiais, o que é inédito, porque os chefes e os oficiais não costumavam participar nestes protestos", disse à Agência Lusa um sindicalista.

A manifestação foi convocada pela Plataforma das Forças de Segurança, que engloba onze sindicatos e associações sócio- profisionais da PSP e da GNR.

O porta-voz da Plataforma, José O+Neil, disse aos jornalistas que "a manifestação foi uma demonstração de força" em defesa das reivindicações dos profissionais das forças de segurança, que admitem fazer uma greve de zelo às multas se o Governo não recuar nas medidas anunciadas.

"Queremos, queremos e vamos conseguir" gritavam os manifestantes no final do protesto, que começou cerca das 17:30 e terminou por volta das 20:30.

A manifestação de hoje de polícias foi a segunda em dois dias, depois de outro protesto realizado quarta-feira em Lisboa, promovido pela Comissão Coordenadora Permanente de Sindicatos e Associações das Forças e Serviços de Segurança.

 

 
 
Protesto - Forças de segurança na rua contra Governo
Lutam pela reforma mais cedo
 

Punhos erguidos frente ao Ministério da Administração Interna e gritos de “Mentiroso!”. Este foi apenas um momento da manifestação que as organizações sindicais e profissionais das Forças de Segurança realizaram ontem para mostrar ao Governo o seu descontentamento pelas propostas de aumento de tempo de serviço, para efeitos de aposentação e pré-aposentação – passam a ir para a reforma aos 60 anos – e fim dos subsistemas de saúde, entre outras. 

Mais de cinco mil elementos da PSP, GNR, Polícia Marítima, Guarda-Florestal e SEF, vindos de todo o País, mostraram, numa das mais participadas manifestações de sempre – entre os Restauradores e a Assembleia da República –, que para o sector terminou o estado de graça de José Sócrates.

Na manifestação tiveram lugar algumas rábulas irónicas ao futuro dos polícias, face ao aumento de mais quatro anos antes da aposentação. Entre elas, a que maior sensação causou entre os manifestantes foi a do enterro dos polícias, com um manequim vestido de agente, num caixão e com a presença de um ‘padre’ devidamente paramentado.

“O Governo em vez de responder aos nosso problemas, veio introduzir um novo descontentamento”, disse Alberto Torres, da ASPP/PSP, promotora da ‘manif’, articulada com a Comissão Coordenadora sindical das forças e serviços de segurança.

“A ASPP/PSP e a APG/GNR mostraram nas reuniões com o ministro da Administração Interna abertura para resolver o problema dos subsistemas de saúde. O Governo optou apresentar um projecto sem qualquer discussão prévia e com pouca disponibilidade para mudanças”, disse ainda aquele dirigente sindical.

A propósito da mobilização policial face aos mais recentes problemas de segurança, como o ‘arrastão’ de Carcavelos e os assaltos nos comboios, Alberto Torres referiu que faltam à PSP quatro mil elementos e disse que as deslocações dos agentes para responder a estas emergências “está a esgotar fisicamente os profissionais”, deixando antever para breve um ponto de ruptura.

REIVINDICAÇÕES 'ESQUECIDAS'

Algumas reivindicações menos conhecidas foram também apresentadas, como a da saída da Polícia Marítima (PM) da tutela do Ministério da Defesa ou o respeito pelos direitos de maternidade na GNR. “A Constituição e a Lei de Defesa Nacional não permitem as Forças Armadas tutelarem a polícia, pelo que a PM sob a alçada do Ministério da Defesa é uma ilegalidade”, disse o chefe Cipriano da PM. Por sua vez, Ana Lopes, militar da GNR e mãe solteira, chamou a atenção para o facto de as agentes nesta situação serem obrigadas a estar de serviço 24 horas, não tendo onde deixar os filhos, bem como serem obrigadas a formatura em adiantado estado de gravidez.

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- CARLOS FREIRE
Como querem segurança? Dêem dignidade às Polícias, dêem-lhes melhores condições e não lhes retirem o pouco que têm. E a propósito: se querem conseguir mais algumas receitas, porque não diminuem o pessoal da AR e dos Ministérios e porque não reduzem para metade os nossos deputados. É que deles, poucos são os que fazem alguma coisa.

- jacinto
Para sustentar o carnaval do REGIME da TERCEIRA REPÚBLICA temos todos que dar o SANGUE, SUOR e LÁGRIMAS para que os barões possam engordar com regalias acima de tudo e todos.

- Carlos (Maputo)
Porque razão a função pública não tem um sistema de saúde igual para todos, a ADSE não serve para uns e serve para outros, acabem-se com os privilégios da polícia, forças armadas, etc.. Se a profissão é desgastante, reduzam o horário de trabalho e retirem-nos para os administrativos qd mais idosos.

- Maria João Ribeiro
Gostava de saber qual a profissão de algumas pessoas que estão contra a luta dos polícias. Todas as empresas privadas pelo menos ao domingo folgam, não é verdade? Natal estão em casa, não é verdade? Não perseguem bandidos, não é verdade? Entre outras coisas, todas as profissões são desgastantes, umas mais, outras menos, mas daí a criticarem quem luta por melhores condições, é simplesmente TRISTE.

- R.Mendes
A reforma devia ser igual para todos os trabalhadores, todos contribuimos, ou uns são filhos de deus e outros do diabo...

- José Seabra
Será que o nosso povo é tão invejoso que não consegue ver mais além? 1º- limitaram os passes e aumentaram o custo, não me importei porque não usava passe; 2º- aumentaram a reforma das mulheres dos 62 para os 65 anos, não me ralei não era mulher; 3º- retiram regalias aos FP, não me chateei não sou FP. Agora vêm tirar-me os meus direitos e quando percebo já é tarde.É isto que querem para vós e para os vossos?

- Fernando Grilo
Os polícias devem defender os seus direitos tal como todo o povo o deveria fazer, mas que não faz e critica quem faz. (cambada de carneiros). Vão ver um polícia de 60 anos contra um ou dois garotos de 19 ou 20 anos e ver o que ele faz. Melhor, vcs que criticam, deveriam ser assaltados à frente de um policia de bengala e óculos bem grossos por um meliante de 20 anos. Quem iriam criticar depois?

- José Seabra
D. Fátima David, estou de acordo consigo quando diz que é triste ver o egoísmo das pessoas. Direi mais que é inveja. A Srª pode agradecer ao Prof. Cavaco e ao PSD por lhe terem aumentado a idade da reforma dos 62 para os 65 anos. Alteração essa que ficou provada não ter resolvido nada para o país,a não ser,o interesse dos patrões. Quanto à idade da reforma, essa devia ser igual para todos, 60 anos.

- Carlos Sousa
Isto é mais uma manobra de diversão do governo, faz pensar que a crise do país é dos policias e dos militares... mas para os milhares ou dezenas de milhares de amigos e compadres que eles metem em todo o lado, mesmo que não estejam qualificados ou numca tenham dado mostra de conhecimento ou competência nessa área, para esses benesses não faltam!

- ZED
Envergonha-me os politicos que temos,mas também me envergonha algum povo que temos...

- E os políticos ?
Deputados,presidentes de Câmaras, porque é que e apesar de também serem funcionários públicos, já se podem reformar ao fim de 2 mandatos? POIS É, A LEI DEVE SER IGUAL PARA TODOS.

- manuel figueiredo
Trabalho num país que neste momento é talvez o mais rico da Europa: Inglaterra. Aqui a aposentação é igual para todos: 65 anos homem e mulher. Como no meu trabalho há um regulamento que temos de terminar aos 62, tenho de esperar até aos 65 para receber a reforma do governo inglês. Mas que grande Portugal, que pode dar reformas aos 55.

- Coitadinhos ?
Fartam-se de trabalhar, passar multas e proteger as costas aos políticos corruptos.

- JCG
Há uma alternativa óbvia para o problema da reforma focalizado na idade do acesso à mesma: reformem-se quando quiserem, mas o Estado deve calcular a respectiva pensão tendo em conta os ‘descontos’ acumulados pelo candidato a reformado e a respectiva esperança de vida nesse momento. Por exemplo, se o candidato a reformado (homem) tiver 50 anos de idade, tem uma esperança de vida de 25 anos (de acordo com as médias nacionais). Então, divide-se o montante de ‘descontos’ acumulados por 25 anos para encontrar o montante da pensão anual.

- Agh - Lisboa
Quanto aos privilégios do Sub-sistema de saúde, é mal que já vem de longe, é que nessas datas, para além dos aumentos de vencimentos, iam subrepticiamente obtendo estas regalias,que; trantando-se de dinheiros públicos, é injusto. Não há cidadãos com mais direitos que outros (o ensino, a saúde e outros direitos-públicos), devem ser destribuidos por todos, sem beneficiar grupos ou classes.

- Alexandre Sousa
Esse senhor que diz que os contribuintes estão a pagar os ordenados é pura mentira, nós descontamos como toda a gente e não vamos buscar nada a ninguém. (Lisboa)

- Maria Santana
A todos os comentários contra a Policia, apenas queria deixar um pequeno registo, só mesmo as pessoas que desconhecem a realidade das Polícias se podem dar a comentários desse género.

- ricardo
Sr ministro da Administração Interna, faça um favor aos Portugueses, DEMITA-SE!!

- professor malandro
É incrivel como as pessoas são ignorantes. Como pode ter um governo autoridade para modificar alguma coisa (mesmo que essas medidas sejam válidas) se têm tão bons salários mais reformas e mais ajudas de custo para tudo. A função pública não tem culpa. O problema são alguns que ganham demasiado e têm todos os privilégios. Primeiro acabe-se com isso incluindo o Sr. Pres. da Rep. Há muitas diferenças.

- ana
Este governo não passa de um grupo de amigos que tudo faz para manter os seus tachos (vale tudo). MENTIROSOS! E nós temos aquilo que merecemos pq lhes demos mais uma oportunidade depois de todo o disparate feito no tempo do eng. Guterres. ESTOU REVOLTADA PELA FALTA DE CONSIDERAÇÃO PELO POVO!

- Reis
Nós não somos mais nem menos que os outros,aumentam-nos a idade para a reforma,mas têm que nos dar um horário semanal fixo de 35 horas,pagar-nos as horas extraordinarias,pagar de forma diferenciada(mais caro)o serviço prestado à noite e aos fins de semana/feriados,dar-nos duas folgas semanais seguidas entre outras coisas que não temos direito e os funcionários públicos têm,haja equidade e justiça.

- professor malandro
Bem feito. Temos o governo que queremos. Com o Guterres foi o que se viu e agora ainda vai ser pior. Tomem lá que é para aprenderem a não ser parvos. Mas a minha opinião vale pouco, pois sendo professor sou considerado parasita e malandro.

- Teixeira da Silva
Os Polícias e os militares devem poder reformar-se aos 52 ou 55 anos de idade, já que, temos de admitir, têm uma actividade muito mais desgastante do que o funcionário público comum que trabalha sentado num gabinete e bem protegido. Mas sou contra passarem à reserva nas Forças Armadas com apenas 20 anos de serviço e irem para casa ainda novos com os contribuintes a pagar-lhes o ordenado.

- Silva
Na manefestação de ontem não vi pedir melhores meios para combater o crime, é uma profissão de risco? Quantos agentes foram mortos ao serviço? E camionistas e taxistas e outros, quantos foram?

- Artur Silva
Admito que hoje, mais do que nunca, trabalhar como Agente da Polícia é muito desgastante.

- Queiros
E eu que pensava que este governo poderia salvar Portugal, enganei-me(para variar). Estou com os polícias(que são abatidos em bairros de lata), e com toda a função pública, mas o mal está na raiz. Como pode o poder político ser tão totalitário numa democracia? Será que perdemos mesmo o "voto na matéria". Somos servo do capital...

- Amândio Martins
Portugal visto de fora deve ser um espectáculo triste! A culpa em parte é do povo, que vota em políticos que só se interessam por eles próprios e amigos, e que mandaram os valores nacionais às urtigas. A polícia tem razão. Excesso na manifestação: não deviam ter chamado "mentiroso" ao governo. O governo achará que foi um desabafo! Como português pergunto, onde está a dignidade do governo?

- Tou de Olho
Por onde passa um Governo PS estraga tudo. Já esqueceram como NÃO resolveram a política de Defesa e Segurança no tempo do Guterres, Coelho e seus "muchachos"? Portugal hoje está a viver numa DITADURA, imposta por alguns glutões.

- mariano wenseslau
Para o que os polícias fazem, ou nada, a maior parte deles deviam ir para a reforma aos 70 anos, porque na realdade é um absurdo de falta de profissionalismo. Já agora aproveito para dizer porque é que os polícias nas viaturas de serviço da polícia nunca usam o cinto de segurança mesmo os da brigada de trênsito na auto-estrada. Deviam ser multados.

- Vitor
Contra a reforma aos 60 anos? Tem muita sorte não ser aos 65, como nós privados, que é o que devia ser! Um sistema de saúde especial para V. Exas? Deviam era pertencer ao nosso SNS! Afinal não somos todos iguais? Os polícias ganham pouco? Então aumentem-lhes o ordenado e acabem com estas regalias desmoralizadoras para o resto da sociedade pagante!

- Ana Santos
O governo só faz o k faz pq o povo deixa, o Português é cobarde, o povo civil só tem k se unir às forças de segurança e ir para a rua tb. Este governo não defende os direitos de ninguém, excepto dele próprio!!

- Cris
As forças policiais, profissionais de saúde e outras profissões de desgaste têm de trabalhar até aos 65 anos já sem capacidade para prestarem qualquer serviço, e os políticos reformam-se ao fim de "6 anos" e dois mandatos com 2.000€ e mais?

- ZM
Se somos todos iguais, porque uns têm mais regalias que outros? Não são pagos pelo Estado? Então a ADSE serve bem para todos! Temos que acabar com os privilégios de alguns e as forças de segurança fazem parte desses privilegiados. A reforma aos 65 é para todos, logo também estão incluídos.

- Pulako
TODA A GENTE SABE QUE SER POLÍCIA NÃO É UMA PROFISSÃO NÃO É TANTO DESGASTANTE COMO SER EMPREGADO DE MESA, PEDREIRO, MOTORISTA, ETC., ETC.. OU SER EMPREGADO DUMA CAIXA DE HIPERMERCADO. ESTES PORTUGUESES POLÍCIAS ESTÃO-SE NAS TINTAS PARA OS SEUS CONCIDADÃOS. O QUE IMPORTA É ELES CONTINUAREM A SER PRIVILEGIADOS. TEREM UM SUBSISTEMA DE SAÚDE DE LUXO PARA OS SEUS FAMILIARES E EX-FAMILIARES.

- Fátima David
É muito triste continuar a ver que o ser humano é de tal forma egoísta que só pensa nele. Se não fosse assim não vinha fazer comentários como os que se ouviram ontem na manifestação. Eu que trabalho para o privado, que trabalhe até aos 65 anos (mesmo de muletas!), mesmo sem regalias. Pois estou à espera que haja alguem que defenda os meus direitos, como se vê com todo este funcionalismo público.

- Francisco
Enquanto se discute migalhas, os grandes compram barcos, casas e carros de luxo e declaram em média 700€ por mês.

- A.Fernandes - Bobadela
As Leis laborais deviam ser reformuladas por etapas e não de forma radical, porque um contrato de trabalho quando é realizado tem o acordo de ambas as partes, assim como qualquer alteração ao mesmo, também devia ser de mútuo acordo e não apenas por interesses da entidade patronal, e sendo reformulado por etapas as expectativas dos trabalhadores mais velhos não eram goradas e os mais novos sujeitavam-se às alterações ou então não concordando com as mesmas estavam a tempo de procurar outras actividades.

- RR-Dublin
Porquê uma diferença tão grande entre os benefícios dos políticos e os restantes funcionários públicos no que toca a esta questão?

- acaraujo
É uma vergonha ver como os governantes maltratam as forças de segurança, que zelam pelo bem estar e pela integridade física dos cidadãos deste país, incluindo a deles próprios (governantes)! Na minha opinião, este Sócrates e todos os seus acólitos já estão no poder há tempo demais - RUA! Já chega. Será possível que as medidas tomadas por este governo só, e apenas, visam o povo? FORA!!

- Ziul
Para quem está no estrangeiro e assiste aos telejornais da RTPI com notícias de casas a arder, fogos diários, violência, greves consecutivas, a pergunta é como vai ser o futuro do nosso País?

 

- Miguel Duarte
Se eu fosse 1º Ministro, simplesmente perante esta situação das reformas aos 55 anos, deixava-as estar como estão, mas com uma nova alteração na lei, quem se reformasse, ficava proibido de exercer qualquer profissão, pois se não podem trabalhar depois dos 55 anos por estarem agastados com a vida activa de polícia, então, também estão cansados para ir trabalhar como seguranças para o privado.

- JS
Muita gente de hoje não sabe o que foi viver no fascismo. É natural que possam aprender com este governo, pela forma como este impõe medidas drásticas sem olhar a consequências e danos sociais na população. Governar para proteger a população é bem diferente e não o que está a acontecer, sem olhar a casos sensíveis. Não me admira se este governo vier a cair, por acção civil!...

- Vera
Se o pessoal se manifestar TODO e em conjunto, vamos ver que como se encolhem unhas ou se foge com o rabo entre as pernas.

- Chana
Triste que se diga! Pertencemos a um país de políticos "castrados" e "aldrabões".

- Jose H. Pacheco
A reforma aos 60 anos tras benefícios ao País, cria mais trabalhos com uma força mais produtiva inovadora de jovens mais educados e treinados para a tecnologia de hoje, com bons resultados para o Estado.

- MAURO P. DA SILVA - BRASIL
No Brasil tem o mesmo problema, todos querem trabalhar menos e se aposentar muito bem. Sugiro o sistema americano, ou seja, cada um que pague do seu bolso uma Previdência Privada e se aposente de acordo com o que pagou. Se quiser se aposentar aos trinta, e ganhar uma ninharia, tudo bem. Impressionante como o ser humano é asqueroso em qualquer lugar do planeta.

- Manuel Horta, Toronto, Canada
Dado o descontentamento popular generalizado, é tempo de se discutir temas verdadeiramente importantes, tais como, direitos adquiridos versus interesse público, e tirar as devidas ilações constitucionais, ou seja, se a perda de direitos adquiridos continua a ser inconstitucional mesmo quando é posto em causa o interesse público.

- Miguel Santos
Eu,que fui um dos muitos que LUTARAM para que PORTUGAL fosse um PAIS LIVRE e DEMOCRATICO,reconheço,os portugueses só sabem viver com a "canga" no pescoco,ao fim de 30 anos. Mesmo os que nasceram depois de 1974,não sabem viver sem a "chibata"... Que tristeza meu Deus. Parece que o voltar da DITADURA é a "solução" para esta cambada, que, sabendo e concordando que o País está mal,continuam a DESTRUIR.

- ANTI_MATRIX
Se nenhum portugues esta contente com a situaçao vergonhosa em Portugal porque que nao fazemos de novo uma revoluçao 25 Abril de novo?
 

 
 
As explicações do ministro
 

António Costa fala da manifestação dos polícias, da criminalidade e dos incêndios  

Milhares de polícias em protesto nas ruas de Lisboa. Imagens de um arrastão na praia de Carcavelos que correram mundo. Dez mil hectares de floresta ardidos nos primeiros cinco meses do ano. Temas analisados e explicados pelo ministro da Administração Interna, António Costa, esta noite, no Jornal da Noite. 

Cerca de quatro mil elementos das forças de segurança saíram hoje à rua em Lisboa. O protesto contra as medidas do governo, que retiram vários benefícios às polícias, começou nos Restauradores e terminou frente à Assembleia da República. Uma acção que é compreendida pelo ministro da Administração Interna. António Costa disse, esta noite no Jornal da Noite, que, apesar de não dar razão aos polícias, "compreende" a manifestação. O ministro garantiu ainda que estará "com os polícias sempre que eles tiverem razão".

Quanto ao motivo da discórdia, o responsável pela pasta da Administração Interna considera que "não há nenhuma razão para que em matéria de assistência na saúde o sistema que existe na PSP e na GNR seja tão distinto daquele que existe para o resto dos servidores do Estado".

António Costa explica que "o que está em causa é o universo dos beneficiários, que no caso da PSP e GNR, por exemplo, cobre todos os filhos maiores, independentemente de estarem ou não a estudarem. Cobrem, por exemplo, os ex-cônjuges, independentemente de manterem ou não a relação".

Compensações mantêm-se

Quanto às restantes compensações que estes profissionais têm não há qualquer alteração. Por isso, mantêm as "compensações na contagem do serviço, em matéria de subsídio de risco, compensações por acidente. Nada disso está em causa", garantiu o ministro.

A partir de agora, ficam abrangidos "o agente e a sua família nuclear e os filhos até serem maiores ou até acabarem os estudos". Ou seja vai ser um regime idêntico aquele que cobre os restantes servidores do Estado.

Contribuir para o sistema de saúde

Mas há mais mudanças. António Costa quer que a PSP e a GNR passem a contribuir para o sistema de saúde. "Hoje em dia não há uma contribuição dos agentes da PSP ou da GNR para o seu sistema de saúde, há só uma contribuição para os serviços sociais. E vão passar a ter".

O ministro garante ainda que há um acordo com os sindicatos em relação às alterações. "A única divergência de fundo em matéria de saúde é o facto de o Governo ter decidido que, a partir de 1 de Julho, os novos incorporados na PSP ou na GNR aderem ou passam a ser cobertos pela ADSE e não pelo sistema de saúde da PSP".

"A percepção subjectiva da criminalidade"

O Governo anunciou nas últimas semanas medidas de combate à criminalidade que passam pelo reforço policial em zonas críticas e também pelo recurso a sistemas de vigilância mais eficazes. Os incidentes na praia de Carcavelos fizeram soar o alerta relativamente a uma novo tipo de criminalidade.

O Relatório de Segurança Interna de 2004 refere que a criminalidade baixou. No entanto, o mesmo documento dá conta de um aumento da criminalidade organizada em 5,7 por cento. Crimes que ocorreram, sobretudo, em zonas urbanas, mas que também começam a surgir noutras localidades.

Sobre o clima de instabilidade e as notícias de assaltos, o ministro considera que é necessário fazer uma pequena reflexão. "Hoje, mais importante que o valor absoluto da criminalidade é qual é o sentimento e a percepção subjectiva que cada um de nós tem da situação de insegurança. E uma coisa não tem que ter necessariamente que ver uma com a outra", considerou.

A verdade dos números

"A verdade dos números é, por exemplo, que em todas as linhas de comboio da Área Metropolitana de Lisboa houve uma redução de 2004 para 2005 de cerca de um terço das ocorrências. Essa redução resultou quer das medidas adoptadas pela PSP e pela CP no sentido de reforçar os meios de policiamento, os meios de violência no sentido positivo", disse António Costa.

Mas, para o ministro, "as pessoas não têm essa percepção e se virem imagens como estas é evidente que passam a percepcionar esta realidade como uma presença brutal".

Para reforçar a ideia anterior, António Costa referiu ainda mais números. "Se tiver em conta o número de passageiros que actualmente circula nestas linhas de caminho-de-ferro e o número de ocorrências e de pessoas que são vitimadas podemos concluir que existe uma vítima para 303 mil passageiros. Isto não significa que cada um daqueles factos seja de uma gravidade imensa".

Para António Costa, as imagens que têm corrido mundo são "intoleráveis", mas o ministro relembra que "é impossível ter um polícia em cada uma das carruagens dos 500 comboios, por dia, que a CP tem na linha de Sintra ". Garante, no entanto, que já houve um reforço policial.

Falta de meios de combate aos incêndios vai ser analisada

Só nos primeiros cinco meses deste ano arderam dez mil hectares de floresta. Números preocupantes que superam a média registada em igual período nos últimos cinco anos. A falta de meios tem sido um assunto polémico. António Costa garante que essa é uma questão que vai ser analisada no fim do Verão.

"Encerrada esta época oficial de incêndios, chegados ao Outono tomaremos as decisões definitivas sobre essa matéria e, das duas uma, ou procedemos à aquisição de meios aéreos ou procedemos ao aluguer permanente e plurianual. É a solução que existe", garantiu o ministro.
 

 

 
Manifestação decorreu em Lisboa
Forças de Segurança ameaçam endurecer formas de luta 
 

Os profissionais das forças e serviços de segurança que se manifestaram hoje em Lisboa ameaçaram endurecer as formas de luta se o Governo não satisfizer as suas reivindicações, tendo chegado a gritar "greve, greve".

A "manifestação histórica", como foi classificada pelos organizadores, começou às 17h30 na Praça dos Restauradores, rumou para a Praça do Comércio e seguiu depois para a Assembleia da República, onde terminou às 21h30.

O protesto foi convocado pela Comissão Coordenadora Permanente (CCP) dos Sindicatos e Associações dos Profissionais das Forças e Serviços de Segurança contra "a diminuição de regalias".

A manifestação reuniu "mais de dez mil" profissionais das forças e serviços de segurança, segundo os sindicalistas, enquanto um oficial da PSP que acompanhou a segurança e a vigilância do desfile estimou o número de manifestantes "à volta de cinco mil".

"Manifestação histórica"

"O certo é que esta manifestação é histórica em termos de participação de profissionais das forças de segurança", afirmou à Lusa José Manageiro, presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG), uma das cinco organizações que integram a CCP.

No final do protesto, os manifestantes aprovaram uma moção dirigida à Assembleia da República, em que expressam "profunda preocupação pelo conjunto de medidas do Governo, com destaque para o congelamento da progressão nas carreiras, escalões e subsídios, aumento do tempo de serviço para efeito de reforma, alterações do sistema de aposentação e pré-aposentação e o fim dos subsistemas de saúde" na PSP e GNR.

No âmbito de um pacote de medidas para tentar diminuir o défice orçamental público, o Executivo socialista anunciou a equiparação dos subsistemas de saúde da GNR e PSP à ADSE (Assistência na Doença aos Servidores do Estado) e a aposentação dos profissionais das corporações policiais aos 60 anos de idade, em vez dos actuais 55 anos.

"São medidas que atentam gravemente contra os direitos dos profissionais de polícia, esquecendo o Governo a especificidade e o risco da função policial", disse à Lusa José Manageiro.

Na moção, "os cidadãos-polícias" presentes na manifestação exigem do Governo "o respeito integral pelos seus direitos adquiridos" e apelam à Assembleia da República para que garanta "os direitos que, legal e legitimamente, foram conferidos às polícias e seus profissionais".

"Profissionais das forças de segurança inovarão formas de protesto"

O coordenador da CCP e presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), Alberto Torres, no discurso que proferiu junto à Assembleia da República, avisou: "Se o Governo teimar em impor as medidas que anunciou, os profissionais das forças de segurança inovarão formas de protesto".

Essas palavras mereceram uma viva ovação de aprovação dos manifestantes, tendo muitos deles gritado "greve, greve" e "não às multas".

Alberto Torres salvaguardou que os profissionais "respeitarão sempre a legalidade democrática, cumprindo as funções na prevenção e combate à criminalidade e não descurando a segurança dos cidadãos". "Quanto ao resto, haverá uma pausa daqui para a frente", acrescentou.

Os deputados António Filipe, do PCP, Ana Drago, do BE, e Nuno Magalhães, do CDS-PP, desceram a escadaria da Assembleia da República para trocarem algumas impressões com os promotores da manifestação.

"Sócrates presta atenção, não mexas na aposentação"

"Sócrates escuta, os polícias estão em luta", "Com tanta incúria, os polícias estão na penúria", "Os polícias unidos jamais serão vencidos", "Sócrates presta atenção, não mexas na aposentação" e "A luta continua" foram as principais palavras de ordem gritadas pelos manifestantes.

No entanto, os manifestantes - todos à civil e alguns ostentando as suas carteiras profissionais - gritaram palavras mais duras dirigidas ao primeiro-ministro, acusando José Sócrates de ser "mentiroso" e "aldrabão".

Além da APG e da ASPP, a CCP é constituída pela Associação Sócio-Profissional da Polícia Marítima, Sindicato da Carreira de Investigação e Fiscalização do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional.

A manifestação de hoje foi também apoiada pela Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da Polícia Judiciária.

A Plataforma das Forças de Segurança, outra estrutura federativa de sindicatos e associações, também convocou para amanhã uma manifestação em Lisboa, igualmente contra a "diminuição de regalias". 

 
 
Manif junta dois mil agentes das forças de segurança
 

Um protesto entre a Praça dos Restauradores e a Praça do Comércio, em Lisboa, contra «a diminuição das regalias» 

Cerca de dois mil profissionais das forças de segurança iniciaram hoje, cerca das 17:30, uma manifestação entre a Praça dos Restauradores e a Praça do Comércio, em Lisboa, contra «a diminuição das regalias».  

«Estimo que estejam aqui reunidos cerca de dois mil profissionais das forças de segurança, mas é provável que muitos mais cheguem para participar no desfile», disse à Agência Lusa um comissário da PSP destacado para o local e que acompanha o protesto.  

Entretanto, o presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG), José Manageiro, questionado pela Agência Lusa sobre o número de manifestantes, disse que «ainda é cedo para contabilizar a quantidade de participantes».  

A manifestação foi convocada pela Comissão Coordenadora Permanente (CCP) dos Sindicatos e Associações Profissionais das Forças e Serviços de Segurança, que é constituída pela APG, Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, Associação Sócio Profissional da Polícia Marítima, Sindicato da Carreira de Investigação e Fiscalização do SEF, e Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional.  

O protesto é também apoiado pela Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal, da Polícia Judiciária.  

A CCP está contra o que considera «o congelamento de carreiras, escalões, suplementos e subsídios», e opõe-se à equiparação dos subsistemas de saúde da PSP e da GNR ao regime da ADSE (assistência na doença aos servidores do Estado).  

Segundo a CCP, estas medidas, anunciadas pelo ministro de Estado e da Administração interna, António Costa, no âmbito de um pacote governamental para tentar reduzir o défice orçamental do Estado, implicarão nomeadamente numa redução de regalias para os profissionais das duas corporações, sobretudo para os seus familiares.  

Um dos manifestantes, que pediu para não ser identificado, disse à Agência Lusa que «os profissionais das forças de segurança alimentavam uma grande esperança no actual governo, mas afinal o que está a acontecer é uma grande desilusão, com o anúncio de medidas que representam um retrocesso em termos de direitos adquiridos».  

Os manifestantes ostentam bandeiras das suas organizações sindicais e fazem grande ruído, principalmente com apitos.  

A manifestação termina no Terreiro do Paço, junto do Ministério da Administração Interna, disse José Manageiro à Agência Lusa, a propósito da informação de que o protesto só terminaria na Assembleia da Republica. 

 
 
Mitos desistiram de ‘andar’ à noite
Medo maior do que força da Polícia
 

Um estranho silêncio percorre as carruagens. Tomados pelo medo, os passageiros da Linha de Sintra sentem-se a próxima vítima. 

O caso não é para menos: o assalto de segunda-feira, em plena luz do dia, deixou os utentes em estado de choque. Muitos – a exemplo do que aconteceu no passado fim-de-semana na praia de Carcavelos – preferiram optar ontem por outro meio de transporte. O desconforto é evidente, sempre que o comboio se aproxima da estação seguinte. Instintivamente, olha-se para a janela, tentando adivinhar quem entra, e só se respira de alívio quando o comboio retoma a marcha.

A ausência de polícias, de seguranças e de revisores, como aconteceu ontem com a composição que partiu de Sete Rios às 16h52 em direcção ao Cacém, aumenta a ansiedade, que rapidamente se transforma em pânico quando algum rosto suspeito encara de frente. “Já tinha medo, mas agora é pior”, diz, baixinho, Fernanda Silva, 52 anos, bancária, moradora no Cacém. “A Polícia dá tranquilidade, mas não resolve o problema. Não pode estar em todo o lado e eles são muito espertos: quando vêem uma farda, já não entram”.

Luís Gonçalves, 36, merceneiro, viaja no banco da frente e não concorda. “O problema é que andam aos quatro, na estação, a passear de um lado para o outro, quando deviam estar aqui dentro.”

“É evidente que se chegou a uma situação muito complicada, mas as forças da ordem não podem mostrar tanta passividade como o têm feito. Têm de andar de um lado para o outro, de umas carruagens para as outras”, sugere.

“Eu deixei de andar de noite. E, como eu, muitas outras pessoas. E, quando digo noite, fala das nove em diante. Não imagina o que é o ambiente, a sensação do medo que se sente. É horrível.”

Já o dono do bar de uma estação, que pediu o anonimato com medo de represálias, não se fica por sugestões, exigindo, antes, outro comportamento dos agentes da PSP. “É bater primeiro e perguntar depois. É preciso dar-lhes forte e feio, só assim é que aprendem. Quando andava por aqui a Polícia de Intervenção estavam escondidos como ratos. Foram-se embora, é isto”, diz, com ar de quem está preparado para se defender, se lhe vierem bater à porta.

Não é o único que pede para não ser fotografado nem sequer mencionar o nome. Ainda o repórter não pegou na máquina e já se ouve: “Foto não, nem pensar. Amanhã aparecem aí e sabe-se lá do que são capazes”. Palavras que dizem bem da revolta e do pavor que circula na Linha de Sintra.

A descrença é tanta que, das muitas opiniões que o Correio da Manhã ouviu, a maioria disse já não acreditar que o problema se resolva com mais Polícia, ainda que seja bem-vinda.

Atente-se, por exemplo, o relato de Jorge Graça, 42 anos, jurista. “É impossível ter um polícia em cada carruagem. O que precisa de ser reformulado é o sistema prisional. É preciso tornar a prisão num espaço em que as pessoas, ao fim de um mês, não sintam vontade de lá voltar.”

“O que se está a viver é incomportável. É preciso tomar medidas. As pessoas não podem estar sujeitas a isto”, garante.

De repente, um indivíduo musculado e com cara de poucos amigos, descansa os pés no banco da frente. Levanta levemente a cabeça, espreita pelo boné e deixa escapar um sorriso enigmático. Dois bancos à frente surgem outros olhares suspeitos. O silêncio regressa. As letras do jornal já não distraem e muito menos a selva de betão que a janela deixa transparecer.

Afinal, é só susto. Mas deu para arrepiar.

APONTAMENTOS

PROMESSA

O ministro da Administração Interna, António Costa, prometeu ontem mais polícia na Linha de Sintra. A verdade é que, na viagem que o ‘CM’ fez não viu um único agente da autoridade entre a estação de Sete Rios e a do Cacém. Nem dentro do comboio nem nas plataformas.

SINAIS

Os assaltos começam, normalmente, na última carruagem e estendem-se depois às carruagens seguintes, explicou ao ‘Correio da Manhã’ fonte policial. Segundo a mesma fonte, os utentes deverão ter especial atenção aos indivíduos que apresentem um ar nervoso, bem como aqueles que ‘saltam’ de carruagem em carruagem.

CONTACTO

Deve, igualmente, evitar-se o passageiro que procura encostar-se, um modo de actuar muito próprio dos carteiristas. Sempre que se verifique qualquer situação anómala, deverá contactar-se de imediato a Polícia e o 112. Tal como aconteceu, de resto, no assalto da passada segunda-feira, em que ‘choveram’ telefonemas para os mais diversos sítios.

FUGA

Logo que espreite o perigo, o utente deve colocar-se em local estatégico, como as portas, de forma a permitir a sua fuga logo que possível. A Polícia aconselha, ainda, os passageiros a sentarem-se junto dos mais desprotegidos, como idosos, senhoras com crianças e grávidas.

A VOZ DOS UTENTES

“Moro em Queluz e utilizo o comboio duas a três vezes por semana. Nunca tive problemas, porque já conheço o espírito dessa gente e afasto-me. Mas hoje (ontem), depois do que se passou segunda-feira, estou com medo. Vinha no comboio à retaguarda e percebi logo que havia confusão. É preciso parar com esta insegurança. Há medo por toda a parte! E não estou nada de acordo com o presidente Sampaio. Tolerância sim, mas as pessoas que fazem isto têm de ser disciplinadas. É preciso pôr um travão a isto. Há limites, embora reconheça que não é fácil lidar com estas situações.” Carlos Domingos | 58 anos, reformado

“Viajo todos os dias entre Lisboa e Sintra e começo a sentir-me desconfortável. Como vou trabalhar de manhã e regresso ao fim da tarde, ainda não assisti a nada como o que aconteceu segunda, mas já vi muitas cenas entre africanos. Falam alto, provocam, intimidam. Imagine o que é ver grupos de 70 ou 80 negros aos gritos dentro de uma carruagem. Se houvesse civismo, a vigilância não era necessária. Mas, como as coisas estão, isto só lá vai à força. Vivi em Lisboa desde 1958 e nunca houve destes problemas. Agora é diariamente. Não se pode ficar de braços cruzados.” Joaquim Costa | 60 anos, taxista

“Damaia, Amadora e Queluz são as piores estações. Juntam-se aos grupos, como ali no Centro Babilónia (Amadora) e, depois, vão armar confusão. Em venho cedo para casa, em Massamá, e consigo escapar ao ‘terror’ da noite. Nunca assisti a nada de grave, embora se ouça falar todos os dias de problemas nos comboios nesta Linha de Sintra. Mas os sinais de insegurança são evidentes, embora se note a presença dos agentes da PSP e outros seguranças. Não sei se chega, se isso vai contribuir para alguma coisa, mas é importante que os passageiros sintam a presença das forças da autoridade.” Rony Melo | 28 anos, pedreiro

“Já vi de tudo! O que mais me impressionou foi quando roubaram uma pulseira a uma senhora, já de idade. Fiquei com pena, mas nem me mexi. Tive medo. Também estava na carruagem quando apareceram aqueles duzentos – que as televisões têm passado imagens estes dias – a ameaçar e roubar as pessoas. Eu tenho muito medo, já que regresso tarde a casa e é à noite que o perigo mais se faz sentir. Há muita gente que já evita andar de comboio a partir de certa hora. É um perigo e as pessoas têm amor à vida. Não sei se resolve, mas acho que devia haver mais polícia nas estações e dentro do comboio.” Denise Pietroski - 25 anos, empreg. restaurante

Aqui em baixo, na zona comercial da Estação da Amadora, não há problemas. Tenho a loja aberta há 11 anos e nunca tive razões de queixa. Às vezes aparecem um grupos de negros a gritar, a correr, mas é tudo entre eles. Há tempos houve umas facadas, mas as lojas já estavam fechadas. Faço todos os dias o trajecto entre o Cacém e a Amadora e, até agora, nunca tive problemas. No dia do ‘arrastão’ é que fiquei intrigada: eram tantos, tantos. Nunca tinha visto uma coisa assim. Percebi que aquilo ia acabar mal. Mas medo só senti hoje (ontem), depois do que aconteceu na segunda-feira.” Maria Deus - 60 anos, florista

“Vim visitar um amigo ao Cacém. Moro em Setúbal e é raro andar por estas paragens. Mas toda a gente sabe o que é que se passa. Penso que o grande ‘culpado’ é o desemprego. Há muita gente que não trabalha, que vive frustrada por não conseguir arranjar emprego e, depois, vão para os comboios ameaçar e roubar as pessoas. Vivo em Luanda. Estou em Portugal há seis meses, para tirar o curso de treinador de futebol, lá não há. Muitos dos jovens angolanos que ‘andam por ai’ vieram para cá para fugir à tropa, quando havia guerra. A falta de emprego leva-os para a marginalidade.” Raimundo raul - 48 anos, treinador

AMBIENTE

No interior dos comboios da Linha de Sintra respira-se ansiedade. As distância entre as estações são curtas , mas cada segundo parece um minuto, cada minuto parece um hora. Sempre que o comboio pára, sobretudo nas estações de maior risco, parece uma eternidade. Mesmo depois, já em marcha, afastado o perigo, o olhar vai viajando pelos bancos e as portas que ‘dividem’ as carruagens.

 

 

 

 

 
Sindicatos da Polícia contestam reforma
 

Alterações ao sistema de assistência à doença desagrada profissionais das forças de segurança 

As duas estruturas sindicais das forças de segurança, reunidas ontem com o ministro da Administração Interna, insurgiram-se contra a reforma do sistema de saúde da PSP e da GNR, integrando-o no sistema da Administração Pública, e mantém as manifestações de hoje e amanhã.

O ministro da Administração Interna reuniu-se, ontem, com a Comissão Coordenadora Permanente dos Sindicatos e Associações dos Profissionais das Forças e Serviços de Segurança - que congrega cinco sindicatos - e com a Plataforma das Forças de Segurança - que congrega dez sindicatos - para debater a reforma do sistema de assistência na doença.

José Oneil, porta-voz da Plataforma das Forças de Segurança, disse que aquela estrutura não aceita o que está a ser proposto pelo Governo. "Queremos manter o nosso subsistema de saúde. Iremos assim manter a manifestação na quinta-feira (amanhã, junto ao Ministério da Administração Interna) e apoiamos todos os protestos marcados pelos polícias porque achamos que é um atentado contra a saúde dos agentes".

O mesmo defendeu Alberto Torres, da Comissão Coordenadora Permanente. "Mais uma vez ficou visto que o Governo não está de boa fé em relação a estes profissionais. Há medidas que já foram aprovadas na administração pública que serão aplicadas aos profissionais das forças de segurança, sem os ter ouvido", disse.

Sobre a reforma do sistema de saúde, referiu que o Governo "dá o facto como consumado". "Não consideramos que isto seja uma negociação e disponibilizamo-nos para encontrar soluções para o problema".

A Comissão Coordenadora Permanente mantém a manifestação marcada para hoje.

Aos jornalistas, o ministro da Administração Interna referiu que espera ter o dossiê concluído na próxima semana. Segundo António Costa, tal como na reunião anterior, as associações sindicais reconheceram a necessidade de alterar o sistema de saúde, mas estão em desacordo com as propostas governamentais. "Aguardamos agora contrapropostas para tomar uma decisão final", disse.  

 

 
Forças policiais saem hoje à rua contra política de António Costa
 

Sindicatos não aceitam novo sistema de saúde. Protesto marcado para as 17.00  

As forças de segurança saem hoje à rua em protesto contra as alterações promovidas pelo Governo aos subsistemas de saúde e o congelamento na progressão das carreiras. "Não aceitamos o que está a ser proposto pelo Governo. É um atentado aos direitos das forças de segurança", dizem os sindicalistas. E ameaçam mesmo com outras formas de luta, as quais podem passar pela greve - mas só em algumas forças policiais, já que este tipo de protesto está vedado à PSP e à GNR.

Cinco dias após o protesto da administração pública, que juntou 40 mil pessoas nas ruas de Lisboa contra a política laboral de José Sócrates, é a vez de as forças de segurança dizerem "não" à política de António Costa. Apesar de não serem avançados números, a acção de hoje, agendada para as 17.00 na Praça dos Restauradores, conta com a presença da Associação Socioprofissional do Pessoal da Polícia Marítima, Sindicato Nacional do Corpo de Guarda Prisional, Sindicato da Polícia Judiciária e seis sindicatos de várias forças policiais, incluindo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. A Comissão Coordenadora Permanente dos Sindicatos e Associações dos Profissionais das Forças e Serviços de Segurança (CCP), plataforma que integra cinco sindicatos e que promoveu o protesto de hoje, espera uma megamanifestação. "Sabemos que haverá forte adesão a nível nacional", garantiu ao DN Alberto Torres, da CCP.

encontro. No final de quase quatro horas de reunião com António Costa, ministro da Administração Interna, Alberto Torres mostrou-se indignado "Hoje, mais uma vez, ficou provado que o Governo não está de boa-fé em relação a estes profissionais. Há medidas que já foram aprovadas na administração pública que serão aplicadas aos profissionais das forças de segurança, no que toca a carreiras, por exemplo, sem os ter ouvido". O sindicalista fez questão de frisar que o Governo "dá o facto como consumado, mas não consideramos que isto seja uma negociação e disponibilizamo- nos para encontrar soluções".

Já José O'Neil, porta-voz da Plataforma das Forças de Segurança, que congrega dez sindicatos e convocou o protesto de amanhã (17.30, na Praça do Comércio), não escondeu também a sua revolta "Queremos manter o nosso subsistema de saúde e apoiamos todos os protestos marcados pelos polícias porque achamos que é um atentado contra a saúde dos agentes." E confessa: "O objectivo é sensibilizar a opinião pública e mostrar que os polícias precisam de ajuda."

reunião. No final do encontro, António Costa frisou que o objectivo deste encontro não era demover os sindicatos de se manifestarem. Sobre o encontro, o ministro referiu que as associações sindicais reconheceram a necessidade de alterar o sistema de saúde (tal como já tinha acontecido na reunião anterior, no passado dia 8), mas estão em desacordo com as propostas governamentais apresentadas.

"Aguardamos agora contra-propostas para tomar uma decisão final", vincou o governante. Ainda assim, e apesar das dificuldades apresentadas pelos sindicatos, o ministro de Estado frisou que espera ver este dossier encerrado na próxima semana, quando se voltar a reunir com os mesmos representantes sindicais. 

 
 
Crime afasta banhistas
Deserto de medo
 

Pouco mais de uma semana após o ‘arrastão’, a praia de Carcavelos ainda não recuperou do susto. As esplanadas estão vazias e o areal também. 

Todos os bares e restaurantes da praia de Carcavelos têm pelo menos duas coisas em comum: pouco movimento e uma vista privilegiada para o areal deserto. “O mês de Junho acabou”, lamenta, desanimado com o negócio, o gerente da Tricana, um dos mais emblemáticos estabelecimentos da Linha. Os efeitos do ‘arrastão’, fenómeno nunca visto que fez o mês chegar ao fim a dia 10, estão para durar. E o que falta em queixas apresentadas à Polícia, menos de meia dúzia, sobra em espaço livre na areia e nas esplanadas daquela que, por estes dias, é considerada a praia mais segura de Portugal.

“As pessoas podem vir à vontade. A PSP está sempre aqui e os assaltantes tão cedo não vão voltar”, garante Tiago Lopes, um dos empregados do ‘Angels Bar’. Encostado ao balcão, navega o olhar pelas ondas que, apesar de pequenas, são disputadas por meia dúzia de surfistas. Na areia, além de crianças da escola com chapéus amarelos, contam-se pelos dedos os banhistas. “Não se compreende. Já acabaram as aulas, o tempo está óptimo e a praia está assim”, lamenta. O braço fica estendido na direcção do areal. Deserto. “É natural que as pessoas, durante algum tempo, fiquem com medo de vir aqui. Mas sem razão. Já está tudo bem...”

PÂNICO PASSOU UMA SEMANA

Na tarde de 10 de Junho, com a praia a ‘rebentar pelas costuras’, vários grupos de jovens, de um grupo maior que contava quase quinhentos indivíduos, semearam o pânico entre os banhistas, roubando e agredindo. E a palavra ‘arrastão’, importada do Brasil onde é usada para caracterizar os assaltos praticados na praia por ‘meninos da rua’, ganhou dimensão mundial. As fotografias, obtidas pelo dono de um dos bares, encheram jornais e abriram noticiários na televisão. Nos dias seguintes, sucederam-se os debates e as promessas de maior segurança, enquanto a PSP apelava às vítimas para que apresentassem queixa.

Um apelo que, tudo indica, terá falhado. Segundo fonte policial contactada pela Domingo Magazine, o número de queixas apresentadas até ao final da tarde de quinta-feira era “inferior a meia dúzia”. Dificuldades acrescidas na investigação, é certo, mas nada que a polícia já não esperasse. Escassos dois dias depois dos assaltos, um responsável da PSP admitia que, “por medo ou falta de vontade em colaborar”, muitas vítimas optam por não comunicar os crimes às autoridades.

Maria Bernardo, ou ‘Ti Maria’, proprietária da Tricana que vende gelados junto ao calçadão, é das que não pensa em ir à polícia. “Não fui, porque não vale a pena. Levaram apenas um gelado”, diz, no balanço da tarde de 10 de Junho. Apesar de ter estado todo o dia na praia, onde está há 40 anos, só ficou a saber do ‘arrastão’ à hora do telejornal. “Como foi lá para a frente, mais para o meio do areal, não dei por nada. Só quando os rapazes que trabalham aí me avisaram é que percebi o que tinha acontecido”, conta.

A meio da semana, a falta de movimento na praia tornava mais fácil detectar a presença da polícia, que tentava também perceber o que ocorreu a 10 de Junho. E não eram apenas agentes fardados a circular na areia e no calçadão. Elementos à civil, da investigação criminal, falavam com os comerciantes, mostravam fotografias de suspeitos, na tentativa de identificar os participantes no ‘arrastão’. Este será um dos primeiros passos. Comparar imagens, recolher informação e analisar as (poucas) queixas. Ao mesmo tempo, a PSP tenta perceber o que esteve na origem dos incidentes: planeamento, organização no momento ou fenómeno espontâneo?

No dia dos incidentes, alguns concessionários de Carcavelos queixaram-se da falta de policiamento e dos assaltos frequentes que contribuíam para a insegurança dos banhistas. Agora, são ainda mais os que alegam que os números do ‘arrastão’ foram “exagerados”. “Não se pode dizer que eram centenas de assaltantes. O grupo tinha muita gente, é certo, mas os que andaram a roubar não eram mais do que vinta ou trinta”, contou o proprietário de um bar à Domingo Magazine, pedindo para não ser identificado. Mais alguns metros pelo calçadão e a teoria ganha força. “Dizer que foram 500 pessoas a roubar é exagerado”, alega João Nogueira. “Houve alguns assaltos, mas nada dessa dimensão.” Da sala panorâmica do ‘Sportsbar’, João Nogueira tem uma vista de sonho sobre o pesadelo. “Onde é que estão os estudantes? Onde é que estão as pessoas?” As perguntas ficam sem resposta. “Ainda vai demorar algum tempo até voltar à normalidade. E é pena, sabe, porque esta praia é espectacular...”

Que o digam Maria e António, que têm em Carcavelos a praia preferida. Na quinta-feira de manhã, fazem uma paragem no quiosque de gelados. Gil Neves recebe-os ao balcão e não há como fugir aos assaltos de sexta-feira. Três pares de olhos habituados a não ver um grão de areia quando o calor aperta, tantos são os banhistas, fixam--se no ‘deserto’ que se estende até à beira-mar. “Quando os miúdos das escolas se forem embora, isto fica vazio”, garante Gil. Os outros concordam, dizem que faz pena. “Isto agora só deve mudar para o mês que vem”, diz, resignado, o vendedor. “Talvez apareça alguém no fim-de-semana, mas não sei.” As esperguiçadeiras descansam à sombra sem ninguém que descanse nelas. As esplanadas estão vazias, mas no areal também não há ninguém.

Sem máquina, e entre duas passas no cigarro, Carlos Fernandes atira 60 por cento. “Com este tempo, nesta altura do ano, a quebra deve andar por aí. Sessenta por cento a menos. Para mim, Junho acabou. Em termos de negócio, o mês está feito”, diz o gerente da Tricana, com a sala vazia e sem perspectivas de a encher. “Vamos ver como será em Julho. Vamos ter bandeira azul e pode ser que tenha passado o efeito negativo do arrastão”, diz o empresário. Esta é uma esperança que, quase em surdina, percorre todo o calçadão de Carcavelos. “Pode ser que melhore, pode ser que mude.”

João Pinto faz o mesmo caminho há 28 anos, de um lado para o outro do areal, batatas-fritas numa mão, refrescos na outra. Na sexta-feira que entrou para a história de Carcavelos, voltou para trás a meio-caminho. “Eu ia a passar lá perto. Quando vi que ia dar para o ‘torto’, dei meia volta. Fiquei sentado lá em cima, a descansar e à espera que acalmasse. Depois, fui trabalhar outra vez”, recorda. Para o vendedor de 50 anos, até pode ser que os turistas apareçam, que os emigrantes regressem para um mês de férias e que os estudantes voltem a deitar-se na areia. “Isto está tão vigiado que não há problema nenhum. Podem ir ao banho e deixar as coisas, que ninguém mexe”. Mas há algo que não vai mudar. “As pessoas não têm dinheiro. É a crise. Ninguém compra nada.”

RAÍZES DO MAL

Há uma regra da sociologia segundo a qual ao patamar de desenvolvimento de uma determinada sociedade corresponde sempre um nível de violência idêntico ao de todas as sociedades nesse patamar. Francisco Moita Flores defende que em Portugal as contas ainda não estão certas. "Os níveis de violência na sociedade portuguesa estão muito aquém dos que correspondem ao nosso de-senvolvimento económico e social", explica à DM o criminalista, quando questionado sobre a natureza do ‘arrastão’. "Nos últimos dias, temos vindo a assistir àquilo a que chamo de discurso político sobre o real, que é diferente do real", diz Moita Flores. Os cerca de quinhentos jovens envolvidos nos assaltos em Carcavelos são agora, de acordo com declarações de políticos e responsáveis policiais, apenas algumas dezenas. "Isso não tem nada a ver com o que foi filmado e fotografado”

José Barra da Costa, antigo inspector da PJ, arrisca uma teoria que,diz, "é muito aborrecida". "Os miúdos podem ter sido instrumentalizados num determinado sentido, por algumas pessoas, numa lógica de informação e contra-informação, de modo a surgir, como sucedeu, uma resposta de sectores mais conservadores e de extrema-direita. Isso é possível e repare que tudo aconteceu no dia 10 de Junho." É uma reacção esperada, conclui Moita Flores. "Quando um fenómeno é atribuído a uma minoria, embora se saiba que são portugueses os envolvidos, é natural que o mecanismo emocional de reacção seja o inverso. Neste caso, o do discurso xenófobo", diz.

 

 

 

 

 
Criminalidade - Dilemas policiais
 

Há ou não crime de alguma forma organizado no ‘arrastão’ de Carcavelos? A pergunta continua sem resposta. Mesmo assim um antigo inspector da Judiciária não tem dúvidas:“Se há crime organizado a competência do combate aos assaltos nas praias passa a ser da responsabilidade da Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) da Polícia Judiciária. 

Uns perderão protagonismo, mas outros não se estão a ver de calção e crachá na praia.” Mas o mar de dúvidas levantadas pelo ‘arrastão’ de Carcavelos não se fica por aqui. Se aquela praia é responsabilidade da Polícia Marítima, que é que fez o Ministério da Defesa (entidade que tutela esta formação de segurança) antes e depois do ‘arrastão’? Enquanto Órgão de Polícia Criminal, que acções tem desenvolvido a Polícia Marítima no combate à criminalidade nas praias? Perguntas que ainda permanecem sem resposta.

No Verão, Carcavelos é uma das praias com maior densidade de banhistas na linha de Cascais. Mais uma pergunta: Quantos agentes da Polícia Marítima estavam em patrulha no areal de Carcavelos no dia e à hora a que se verificou o ‘arrastão’? Os concessionários pedem por tudo para não se referir o seu nome ou o do posto de praia que detêm, mas todos usam as mesmas frases: “O que é que um ou dois homens podiam fazer?”, disse um, enquanto outro se indigna com a acção da Polícia Marítima. “Multam a gente por tudo e por nada.” Mas aos banhistas não conseguem disciplinar. Nem sequer para pararem de jogar à bola em cima das pessoas e das crianças”, acrescenta.

O ‘arrastão’ de Carcavelos apenas foi notícia pelo grande número de assaltantes à mesma hora. O fenómeno das provocações grupais e dos assaltos nas praias da linha vem crescendo nos últimos anos e é do conhecimento das polícias. “Este tipo de actuações em grupo por parte de jovens da Amadora, da zona de Cascais e de Oeiras têm sido frequentes todos os anos”, disse há cerca de cinco anos ao Correio da Manhã um responsável do comando da PSP de Lisboa.

O turismo queixa-se da imagem que o país está a deixar passar. No dia seguinte ao ‘arrastão’ de Carcavelos, a abertura do telejornal da rede alemã de televisão Deutsche Wella mostrava fotos de Carcavelos misturadas com imagens de assaltos gravadas nas praias do Brasil. A notícia era sobre a segurança nas praias portuguesas. O jornalista foi ao aeroporto perguntar a turistas alemães se conheciam a realidade da segurança nas praias de Portugal.

A chegada à Praia de Carcavelos de grupos mais ou menos organizados foi notada por agentes da PSP a partir do meio-dia. “Uns de comboio, outros de camioneta, os grupos que chegaram por essa hora tinham as mesmas características dos que dias antes vinham protagonizando desacatos na praia, disse à Domingo Magazine um dos agentes de turno nesse dia. Outro, adiantou mesmo que “alguns traziam cães pitt-bull pela trela. Quem é que se quer meter com um cão daqueles ou com o seu dono?”

SETE CONSELHOS DE PRAIA

1 – Leve o mínimo de bens. Relógios, cartões de crédito ou débito, jóias e outros adereços, são dispensáveis.

2 – Localize o apoio de praia e o nadador-salvador. Normalmente sabem como chamar a autoridade de forma mais rápida.

3 – Roupas de marca e outros adereços de valor são factor de atracção.

4 – Leve apenas o dinheiro necessário.

5 – Evite o uso ostensivo de telemóvel, câmaras de filmar ou fotografar.

6 – Não durma na praia.

7 – Se for assaltado, não reaja. Isso pode enervar o assaltante e levá-lo a um acto mais violento. 

 
 
Os guetos de Carcavelos
 

No areal de Carcavelos, abancam jovens de guetos problemáticos. Vêm de Chelas, Brandoa, Cacém, com a violência a fervilhar no sangue. Nem todos assaltam banhistas ou pertencem a gangs perigosos. Muitos nem sequer estiveram envolvidos no ‘arrastão’ de 10 de Junho. Mas o mal está latente à beira-mar. 

Nas manhãs em que o sol faz brotar pingas de suor na testa, as calças largueironas,estilo roubado aos presidiários, são trocadas por um fato-de-banho Billabong. Os ténis Nike ficam arrumados e as havaianas, à venda na feira de Carcavelos por cinco euros, tiradas finalmente da prateleira. De boné Adidas enfiado na cabeça e em tronco nu, ‘dreads’ do Cacém, ‘gangsta raps’ de Chelas, ‘hip-hopers’ da Brandoa, desaguam na estação de comboio e vão em bandos até à praia de Carcavelos. Muitos vieram ao crava, guardando o dinheiro do bilhete para comprar um maço de tabaco.

No areal a perder de vista não há becos nem ruelas escuras, mas as toalhas estendidas são como muros invisíveis, dividindo territórios. Embora se cumprimentem com efusivos “tá-se bem”, os vizinhos marcam distâncias de desconfiança, sobrepovoando a zona da mítica Bola de Nívea e do campo de futebol. Conhecem-se de vista das partidas da bola, ou de rixas em noites frias dos subúrbios de cimento. Os mais velhos são venerados como ídolos de ‘Hip-Hop’. A reputação precede-os. Quanto pior, melhor.

Quem os avista de longe, da zona dos cafés onde se sentam os betinhos da linha, parecem estar todos ao monte. Não é ilusão de óptica. O ‘people’ junta-se em círculo para assistir aos ‘shows’ dos ‘blacks’ da Serra das Minas. Eles curtem manear o seu corpo atlético aos sons tribais do Kizomba, a bombar de potentes tijolos.

Sentados na areia molhada, indiferentes às acrobacias dos dançarinos e aos aplausos da plateia, também não faltam grupos de miúdos de onze anos acompanhados de Pitt-Bulls. Gostam de exibir os cães e sorrisos trocistas aos banhistas. Se estiverem enfastiados ou com falta de dinheiro, desatinam. Não é preciso grande pretexto. Quando as vítimas reagem mal, os Pitt arreganham-lhes os dentes. Os telemóveis ou carteiras, passam de mão em mão e passam a ter novo dono. “Antes, havia na praia uns desatinos e roubos, aqui e acolá. Nada de muito anormal. Mas tudo mudou com o ‘arrastão’. Entrámos numa nova dimensão”, conta, ainda incrédulo, Mauro, 17 anos, num português com sotaque de Belo Horizonte.

O aluno do liceu da Amadora que esteve no meio do furacão de sexta--feira, 10 de Junho, só regressou ao local do crime uma semana depois. Não por medo. O seu bando, liderado por Ahmed, é um dos mais respeitados na periferia de Lisboa. “Se me fizerem mal, também não se ficam a rir.” Olho por olho, dente por dente. Como manda a lei da rua.

ASSALTANTES SEM CAUSA

Mauro partilha com Mário, um ano mais velho do que ele, a toalha, a carteira da escola e as memórias do feriado fatídico. Os dois têm pinta de reguila e a arte do engodo encrostada à pele. “Quando vim de Luanda, aos 15 anos, ia para as mercearias roubar frutas e pacotes de chocolate”, confessa o angolano, de t-shirt da selecção canarinha vestida. Os pais trabalhavam no duro, não deixando que ele passasse fome, mas Mário não resistia aos vícios importados das ruas de Luanda: “Quando um gajo rouba, não o faz apenas por dinheiro.” O prazer de sentir as batidas aceleradas, a fama que se granjeia no bairro e, por inerência, a atenção das miúdas mais giras e atrevidas, eram outras das causas da rebeldia.

A carreira de pequenos crimes terminou quando a família, atenta às suas artimanhas, o convenceu a ir trabalhar durante os tempos livres das aulas. “Quando um dia me gamaram o Nokia, que comprei com o salário de uma semana a distribuir folhetos publicitários porta a porta, percebi a porcaria que fazia aos outros”, declara. Mário ficou furioso. Quase tão irritado como quando viu muitos dos ‘partners’ de bairros vizinhos a roubar famílias indefesas na praia.

Os dois amigos tinham chegado bem cedo, como sempre, com o seu bando da Amadora, para arranjar lugar na areia, não muito longe da Bola de Nívea. Por volta do meio-dia começaram a estranhar as movimentações. “Vinha malta do Cacém, Belas, Damaia e Queluz. Quando ouvimos os tiros e pessoas a fugir de um lado para o outro, percebemos que não ia ser um dia normal.”

À sua frente, viram miúdos muito mais novos do que eles a atirar areia à cara dos banhistas, aproveitando a confusão para lhes furtar relógios, telemóveis e fios de ouro. “Só lhes diziam: ‘tens uma coisa que me interessa, passa para cá”, recorda Mauro, que se deixou ficar na toalha nos longos minutos de agonia. O seu único objecto de valor eram uns velhos ténis Nike e umas poucas moedas no bolso. “Sabíamos que não nos iam assaltar. Até porque os conhecemos de ginjeira.”

Uns dias depois do arrastão, voltaram a cruzar-se com alguns dos ladrões nas sombrias ruas de Queluz. Trocaram os cumprimentos da praxe: Tá-se bem? Cada um foi à sua vida. “Eles vão voltar a atacar”, advertem os dois amigos antes de irem refrescar o corpo nas águas do Atlântico. “Com ou sem policiamento.”

RENEGADOS À NASCENÇA

Uns metros de areia mais abaixo, Paulo faz uns saltos mortais, para deleite da escassa plateia feminina. O cabelo laminado, bíceps esculpidos em halteres e um grosso colar ao peito dão-lhe aura de respeito. “Não me espantei quando vi o ‘arrastão’. Esta praia é a que tem mais ‘pretalhada’ e confusões do País.”

As palavras saem-lhe disparadas como tiros de pistola. “Não sou racista, mas sei que são os pretos quem anda aí a roubar.” Ao seu lado, Cris, de ascendência cabo-verdiana, ouve o discurso politicamente incorrecto do amigo, impassível. “Estás a exagerar, meu, mas tudo bem”, diz sem descruzar os braços.

Os dois fazem parte dos Renegados, uma das bandas rap mais populares de Cacém. Dizem já não ter idade nem paciência para fazer parte de gangs, mas todos os dias tropeçam nas ruas com miúdos armados, perigosos, que não hesitam em dar uns tiros só por gozo pessoal. “No Cacém, os mais violentos são os Gangsta Rap e os Putos Dreads”, revela Pedro, o menos expansivo e mais baixo dos três. É o DJ de serviço da banda. “Aproveitam-se do facto de serem menores para fazerem o que querem. Ninguém tem mão neles.”

Para o trio de músicos, nem tudo é mau no Cacém, como pintam as manchetes e os telejornais, mas há um ciclo vicioso que teima em não acabar: “O pessoal anda sem ambições: chumba, desiste da escola e fica no bairro sem nada para fazer. Sem emprego, sem dinheiro, acaba a roubar, porque é mais fácil”, conta Cris, que critica a falta de centros de juventude e de actividades culturais e desportivas numa cidade com mais de 80 mil habitantes.

As letras da banda revelam a insatisfação de uma geração de suburbanos deprimidos, agrilhoados em torres altas e anónimas. “A praia é o único escape possível. Mas eles trazem os problemas de casa para a areia”, filosofa Cris, que improvisa um ‘free-style’ enquanto o diabo esfrega o olho: “Não somos belos mas vou-vos contar o que aconteceu em Carcavelos / O que aconteceu foi uma cena de um gang, andaram aí aos tiros mas não houve sangue / Foi uma cena de primeira, roubaram Carcavelos e fugiram para a Quarteira / É uma merda que acontece, que toda a gente ouve e ninguém esquece.”

GAMAR SIM. GANG NÃO

Chipenda não ouviu as rimas inventadas em segundos pelo MC do Cacém. Mas os 16 anos passados no degradado bairro das Marianas, na Parede, poderiam servir de inspiração a outras letras da banda alternativa de hip-hop. Com uma vistosa juba afro e olhos azuis cristalinos tão vivazes como o seu latim, não é de admirar que seja um dos mais populares do seu grupo de sub-17, uma mistura de betinhos desalinhados e ‘dreads’ da linha de Cascais.

O estudante passa os dias na praia ‘a pastar’ ou a fanar nas prateleiras dos supermercados. “Nunca fui apanhado porque sou muito rápido”, vangloria-se com um rasgado sorriso. O seu maior troféu foi um telemóvel, que meteu no bolso sem os seguranças da loja se aperceberem. “Nunca me meti em drogas, senão estava lixado. Vejo o que aquela porcaria faz aos meus vizinhos do bairro.” É por causa da branquinha e do cavalo que muitos dos ex-amigos se meteram em aventuras demasiado ousadas. E sem retorno.

Embora os vícios e manhas do submundo de Cascais não tenham segredos para si, Chipenda garante nunca se ter fascinado com a ideia de pertencer a um gang: “Isso é barra pesada. Não quero acabar com um tiro na cabeça por causa de algum conflito relacionado com drogas duras”. Depois do que viu no feriado que terminou em tiros e agressões, não pensa mudar de ideias nos próximos tempos. “Estar num gang pode ser ‘cool’ mas não dá futuro a ninguém.”

Ele recorda-se dos acontecimentos com a precisão de um cinéfilo que já viu o seu filme preferido mais de dez vezes. Chipenda chegou às areias de Carcavelos por volta da hora de almoço, depois de mais uma manhã de indolência. “Vi um amontoamento de pessoas de raça negra. Para aí uns 300. Estavam sempre a chegar mais e mais. Pareciam formigas.”

O puto de ascendência angolana perdeu logo a vontade de se estender na areia porque pressentiu um mau ambiente no ar. “Às três horas, vi o início da ‘fight’. Um branco fugia de um bando de pretos, que não o largavam.”

A partir daí, assistiu ao desenrolar dos acontecimentos na primeira fila do paredão. Só faltavam as pipocas. “Com os tiros, as pessoas assustaram-se, aproveitando-se do pânico, uns 50 gajos iniciaram o ‘arrastão’. Quinze minutos depois, chegaram os 14 agentes da PSP armados até aos dentes. Fartaram-se de dar porrada. Houve muitos banhistas que levaram por tabela.” Só ao fim da tarde é que os 60 homens do corpo de intervenção conseguiram restabelecer a ordem em Carcavelos.

“Vi o pessoal a fugir. Pelo caminho ainda assaltaram o Pingo Doce e a praia de São Pedro.” Um pesadelo que não vai esquecer tão cedo. “Quem cá não volta este fim-de-semana sou eu ”.

SOBREVIVER AOS TIROS

Não há um jovem banhista suburbano de Carcavelos que não tenha uma teoria da conspiração sobre os acontecimentos de 10 de Junho. “Foi tudo planeado entre gangs”, sentencia Agostinho, 20 anos, colega de Chipenda no bairro das Marianas e viciado em banhos de mar. Mas não acredita que o móbil do crime fosse o dinheiro. “Afinal, o que se ganha com uns telemóveis e carteiras? Apenas uns trocos. Seria mais lucrativo e menos arriscado roubar uma loja de um centro comercial.” Ele não tem dúvidas de que fizeram aquilo apenas com um objectivo: por simples diversão.

Edmilson, um puto magricelas que passou essa tarde a jogar à bola com os três colegas do 9.º ano do Cacém, discorda: “O ‘arrastão’ não poderia ter sido combinado porque há uma rivalidade demasiado grande entre bairros.” O futebolista federado, que não fugiu quando o pânico se instalou na areia, ilustra a sua tese: “Os do Cacém odeiam os de Francos. A malta de Chelas detesta os da Cova da Moura e assim por diante.” A maturidade do discurso não parece encaixar-se na voz fina e no ar imberbe. Mas as cenas de violência a que assistiu já lhe roubaram muita da inocência dos 15 anos. Em Maio, foi apanhado no meio de um tiroteio numa festa africana em Queluz. “Não tenho medo do som dos tiros”, diz com o peito cheio de ar. Até quando?

Quem não tem problemas em confessar o trauma pelos distúrbios do feriado é Bruno, 17 anos. Ele não queria regressar aos areais de Carcavelos mas para quem vem de transportes públicos da linha de Sintra, não há grandes alternativas para gozar os raios ultravioletas do sol de Verão. “O Tamariz está ‘out’ e a Costa de Caparica fica demasiado longe”, justifica.

O estudante do 12.º ano, acredita, no entanto, que o arrastão não terá passado de um infeliz acaso. “Era um dia especial: conjugou-se o feriado e o início de férias escolares. Juntou-se demasiada gente de bairros problemáticos num curto espaço. E deu-se a explosão.”

Bruno recusa-se a defender os autores do roubo, mas indigna-se por assistir ao crescimento de movimentos racistas contra a população africana: “Principalmente contra os da Cova da Moura. É o azar deles e a sorte dos gangs de outros bairros que podem armar confusão à vontade.” Nota de rodapé: Bruno tem a pele branca, apenas um pouco escaldada pelo sol, e vive no bairro social da Serra das Minas. 

 
 
Crime sobe na Amadora
 

A criminalidade na área da Divisão da PSP da Amadora subiu no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período do ano anterior, de acordo com estatísticas policiais a que o CM teve acesso. 

O caso mais flagrante é o das apreensões de droga. Na área da PSP da Amadora (todo este concelho e ainda parte do de Sintra), nos primeiros três meses deste ano, foram apreendidas mais de 5200 doses de heroína (quase o dobro que no ano anterior).

No rol das apreensões de droga, a polícia contou ainda mais de 4850 doses de cocaína, quando no período homólogo de 2004 tinham sido apreendidas 1550 doses.

Já a apreensão de haxixe subiu em flecha. A polícia confiscou mais de 7140 doses entre Janeiro e Março do ano passado. Este ano foram contabilizadas mais de 97 900 doses, o que corresponde a cerca de 20 quilos de haxixe em três meses.

O culminar de uma investigação, no dia 16 de Fevereiro, levou à detenção de 4 homens por tráfico de comprimidos de ‘ecstasy’. Foram apreendidas 15 mil unidades a juntar a outras 125 apanhadas no âmbito de outras actuações policiais realizadas entre Janeiro e Março deste ano. No primeiro trimestre do ano anterior não tinham sido apreendidas ‘pastilhas’.

Para estes números, reconhece a PSP, também tem contribuído a cooperação de outras forças de segurança: PJ, SEF, e Inspecção-Geral de Actividades Económicas.

OUTROS CRIMES

28 COM ÁLCOOL

O crescendo da criminalidade obrigou a mais operações de controlo de trânsito. No primeiro trimestre do ano passado foram detidos 16 condutores com uma taxa de alcoolemia superior a 1,2 g/l. Nos três primeiros meses deste ano, foram apanhados 28.

SEM CARTA

As operações de trânsito realizadas pela Divisão da Amadora da PSP detiveram ainda, entre Janeiro e Março, 60 condutores sem habilitação legal, mais 13 que em período homólogo do ano passado.

DETENÇÕES

No primeiro trimestre de 2004 a PSP deteve 211 suspeitos. Este anos, de Janeiro a Março, foram apanhados 215 suspeitos de vários crimes.

 

 
Lisboa: momentos de tensão no desfile entre o Martim Moniz e o Rossio
Polícia evitou confrontos na manifestação skin
 

O cenário é de tensão. O Rossio de Lisboa está dividido em duas facções. No centro da praça D. Pedro IV, centenas de manifestantes de extrema-direita – entre eles dezenas de ‘skinheads’ – gritam palavras contra a criminalidade e a imigração. Para lá da barreira policial, começa a formar-se um grupo de imigrantes que não resiste e parte para os insultos. 

São 16h00. No altifalante soa a buzina que assinala o final da marcha contra a criminalidade. O mesmo som que assinalou o início da manifestação na praça do Martim Moniz, às 14h00 de ontem.

A polícia mantém-se alerta. São poucos os nacionalistas de extrema- -direita que enrolam as bandeiras contra a imigração e se põem a caminho. A maioria mantém-se firme gritando por Portugal.

Até que um grupo de estrangeiros se junta numa outra calçada e tenta abafar os manifestantes. “Querem casas e centros comerciais, somos nós que os construímos”, dizem. As palavras são logo abafadas por um grupo de cabeças-rapadas. “Vão para o vosso País”, dizem. Os ânimos exaltam-se e a polícia actua logo. Separa as duas facções, coloca--se no meio da estrada e cria uma barreira policial de elementos do Corpo de Intervenção.

Os apupos chovem de uma lado e outro até que a PSP começa a trocar as posições. “É uma manobra estratégica”, dizem. Resultou.

Ainda assim um grupo de manifestantes de extrema-direita correu em direcção ao elevador da Glória e agrediu um negro mais provocador. A vítima acabou por se refugiar numa loja até à chegada da PSP, que conseguiu resolver a situação.

A marcha contra a criminalidade, organizada pela Frente Nacional, começou no Martim Moniz e ia angariando apoiantes à medida que percorria a baixa lisboeta. Sexagenários juntaram-se a cabeças-rapadas que envergavam roupas negras e cartazes contra os imigrantes e o crime. O Hino Nacional entoava e contagiava os curiosos que assistiam à porta dos estabelecimentos comerciais.

O centro comercial da Mouraria – onde trabalham dezenas de imigrantes – fechou as portas, temendo que a passividade da marcha não passasse de uma promessa.

'NEM ASSALTOS NEM EXTREMA-ESQUERDA'

Domingos lia o jornal à sombra de uma árvore na Praça do Martim Moniz, em Lisboa. É nigeriano e estuda literatura em Portugal há dois anos. O grupo de ‘skinheads’ que se aglomerava a dois passos de si não o intimidou. Se alguém o chateava pelo tom da sua pele, ele respondia com paz. No chão já estavam estendidos os cartazes da marcha.

Enquanto José Pinto Coelho, do Partido Nacional Renovador, criticava a imigração, havia quem estivesse mais atento ao conteúdo dos cartazes: “Basta! Imigrantes = Crime”; “Não existem direitos iguais quando és um alvo a abater”.

Na frente da marcha, que entretanto começou, cerca de uma dezena de nacionalistas segurava um cartaz: “Isto é nosso”, lia-se. Ao lado, um manifestante travava outra luta. Em silêncio exibia o cartaz: “Nem assaltos, nem extrema-esquerda. Nenhum presta”.

 

 
Nacionalidade - Sampaio quer nova Lei
 

A defesa de alterações à Lei da Nacionalidade – dando nacionalidade portuguesa a filhos de imigrantes já nascidos em Portugal –, a par da necessidade “urgente” de uma requalificação urbana para a Cova da Moura, foram os grandes temas que Jorge Sampaio apresentou ontem de manhã naquele problemático bairro dos arredores de Lisboa – numa visita em que o Presidente da República também aproveitou para condenar os actos de “intolerância, racismo e xenofobia”, numa alusão à manifestação de extrema-direita em Lisboa. 

Jorge Sampaio defendeu a alteração da Lei da Nacionalidade porque, segundo diz, “há pessoas nascidas no nosso país que neste momento não têm nacionalidade” – é que, através da actual lei, aos filhos dos estrangeiros nascidos em Portugal é concedida a nacionalidade dos pais ou, em alternativa, é inscrito no registo do nascimento que a criança tem ‘nacionalidade desconhecida’.

O Presidente quer acabar com esta situação e dar a cidadania portuguesa aos filhos de imigrantes que nasçam em Portugal.

Eram 10h00 quando a comitiva presidencial – à qual se juntaram os ministros da Educação e Ambiente, secretário de Estado do Ordenamento e presidente da Câmara da Amadora, entre outras individualidades – irrompeu pela rua principal da Cova da Moura, rodeada de grandes medidas de segurança a cargo da PSP.

Acompanhado pela primeira-dama, Maria José Ritta, o Presidente foi entusiasticamente recebido por muitos moradores e membros da associação cultural ‘Moinho da Juventude’ – dedicada ao apoio dos jovens moradores.

Num dia marcado pela anunciada manifestação, à tarde, de militantes de extrema-direita contra a imigração e criminalidade em Portugal, o Presidente não escondeu algum desconforto com a situação.

“Portugal orgulha-se de ser um país tolerante. Tal como no passado outros países acolheram os nossos emigrantes, nós recebemos outros povos e outras culturas ao longo de 30 anos de democracia”, disse.

No entanto – e apesar de condenar “a xenofobia, o ostracismo e a demagogia mediática” –, Sampaio lembrou a obrigação de todos “respeitarem as leis de um Estado de Direito”. “Encarar esta realidade é também punir quem se julga acima da Lei ou quem a viola”, disse.

A requalificação urbana da Cova da Moura é, segundo o Presidente, de carácter “urgente”.

“Como tantos outros bairros do País, e especialmente nas periferias das áreas metropolitanas, a Cova da Moura nasceu e cresceu desordenadamente, sem qualquer tipo de intervenção atempada e eficaz”, disse.

O presidente da Câmara da Amadora, Joaquim Raposo, fez um apelo ao Governo para que o concelho seja considerado “um caso de excepção” e elogiou o “papel determinante do ‘Moinho da Juventude’ no trabalho que tem feito, substituindo muitas vezes a falta de apoio dos diferentes governos”.

"A SITUAÇÃO DOS FILHOS É INJUSTA"

Isabel Marques tem 36 anos e vive há 20 na Cova da Moura. Mas apesar disso, esta cabo-verdiana nunca conseguiu nacionalidade portuguesa – tal como os quatro filhos, de 15, 18, 19 e 20 anos, todos nascidos em Portugal.

Uma situação que Isabel considera injusta e que muito os prejudica: “Eu posso ser estrangeira mas os meus filhos nasceram cá e deviam ser considerados portugueses, em vez de lhes atribuirem a minha nacionalidade. A minha filha de 19 anos não consegue arranjar emprego precisamente por causa da nacionalidade, o que é injusto”, diz.

Depois da visita do Presidente e de o assunto ter sido abordado, Isabel tem agora esperança que o Governo “faça alguma coisa”.

"VIVÍAMOS DE PORTAS ABERTAS"

Com 43 anos, Maria Felicidade Gonçalves vive no bairro há 23. Para ela, a presença de Jorge Sampaio na Cova da Moura foi importante para que o Presidente ouvisse “a voz de um povo que precisa de ser ajudado”.

“O bairro tem pessoas honestas e não é só feito de delinquentes – esses são uma minoria”, diz. Maria Felicidade, que vive com a mãe, o marido e os três filhos, tem “fé” num regresso à segurança de outros tempos.

“A criminalidade no bairro tem sido muito falada mas lembro-me de quando vivíamos aqui com as portas de casa abertas”.

 

 
Polícia promete Verão com segurança apertada
 

Grupo de Operações Especiais destacado pela primeira vez para a operação Verão Seguro. Polícia de choque vai patrulhar praias. PSP vai filmar zonas turísticas e dar informações, nos aeroportos, aos turistas 

A segurança nas praias e zonas turísticas será este ano alvo de um reforço de patrulhamento policial. A estratégia de prevenção seguida pela PSP tem em vista transmitir segurança aos cidadãos portugueses, mas também a todos aqueles que chegam a Portugal. A criminalidade grupal e alterações da ordem pública são algumas das preocupações da Direcção Nacional da PSP para este Verão e por isso mesmo o reforço de polícias passa também, pela primeira vez, pela afectação de «Equipas de Reacção Táctica» à Operação Verão Seguro 2005.  

A segurança em época balnear engloba uma reestruturação dos meios disponíveis das polícias. Uma das soluções encontradas está na colocação dos agentes de autoridade, do programa «Escola Segura», de novo nos Comandos operacionais de modo a que possam ser destacados para as zonas de maior fluxo populacional. Este redireccionamento das forças de segurança permite que mais 324 polícias, 142 viaturas e 99 motas patrulhem áreas de maior risco.  

Na mesma linha de gestão de recursos a Direcção Nacional da PSP (DNPSP) coloca também nos Comandos de Lisboa, Porto e Faro, cerca de 685 elementos do Corpo de Intervenção (CI) que vão: «não só estar alerta de modo a intervir em qualquer situação de alteração de ordem pública, que pode ser detectada pelas câmaras de vigilância, mas também vão reforçar o efectivo que patrulha as zonas com mais turistas», adiantou ao PortugalDiário o comissário Moura, da DNPSP.  

O Grupo de Operações Especiais (GOE) faz parte das unidades especiais da Policia e lida com situações de terrorismo, sequestro e criminalidade mais violenta e complexa. «Este ano, o GOE e o CI vão formar equipas com cerca de 12 elementos e que estarão preparados para lidar com casos complexos, como por exemplo, terrorismo ou grandes assaltos com armas de fogo», explicou o mesmo comissário.  

O fluxo de populações para as zonas costeiras traz ainda uma outra realidade na segurança interna do país. Muitas habitações ficam sem vigilância o que potencia os furtos. Deste 1977 que a PSP tem em conta esta criminalidade, mas só desde 1985 é que todos os Comandos do país efectuam vigilância às habitações quando os seus proprietários vão de férias. A Operação Férias está este ano inserida na operação Verão Seguro.

«Até ao ano passado as duas politicas de prevenção estavam separadas, mas este ano estão integradas de modo a que os Comandos distritais possam fazer uma melhor gestão dos recursos», explicou o comissário Moura que adiantou ao PortugalDiário que de 2002 a 2004 apenas 21 casas foram assaltadas de entre mais de 21 mil que estiveram sob vigilância da PSP. Qualquer cidadão pode pedir este serviço à PSP.  

A política de prevenção de crimes vai também contar com videovigilância e esquadras móveis. «Estamos a ultimar os procedimentos para que através das câmaras possamos detectar situações de perigo. Os nossos postos móveis terão também uma maior mobilidade, no sentido de funcionarem como esquadras móveis ao dispor do cidadão», adiantou.  

A proximidade com os cidadãos é uma das preocupações da PSP que este ano é estendida aos turistas. «Temos também o projecto de receber os cidadãos, que vêm passar férias a Portugal, nos aeroportos com informação de prevenção», afirmou o comissário responsável.  

A GNR, à semelhança da PSP, tem em marcha desde dia 15 a operação Verão Seguro, sendo que a actuação desta força é mais vigente no controlo do trânsito e das florestas. 

 

 

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