CORPO DE SEGURANÇA PESSOAL - CPS

 
     
     

O Agente Perfeito da PSP Mora no Corpo de Segurança Pessoal
Por POR ANABELA MENDES - in Público
Domingo, 21 de Março de 2004

Aprumados, bem vestidos, com uma cultura geral acima da média, fluentes em línguas, mas essencialmente discretos, estes homens e mulheres fazem parte do Corpo de Segurança Pessoal da PSP.

São cerca de 200, muitos mais homens que mulheres, os que se voluntariaram para este serviço, com um grau de risco bastante elevado. Não são melhor remunerados por isso, mas dizem-se dispostos a arriscar a vida por aqueles que protegem.

Gostam do risco inerente ao trabalho e quase todos dizem que o que os motivou a optarem por esta especialização profissional foi a ideia de fugirem às rotinas, conhecerem pessoas novas e interessantes e moverem-se em círculos sociais diferentes. Aparentemente, nenhum se desiludiu com as expectativas.

Maria está no Corpo de Segurança desde 1983. É uma veterana nestas andanças. Em 21 anos de serviço já esteve em missões no deserto do Sara, na Bósnia e na Jugoslávia. Em Portugal, já lhe é difícil recordar todas as pessoas cuja segurança teve à sua responsabilidade. Mas garante que continua com o mesmo entusiasmo. Diz que conheceu pessoas interessantes, culturas diferentes, que quase todos os dias acaba por aprender coisas novas. E, mais importante que tudo, nenhuma das personalidades que estiveram à sua guarda sofreu qualquer percalço.

O mesmo sentido de dever cumprido tem Joaquim. No Corpo de Segurança desde 1992, também nunca falhou em nenhuma missão. Garante que o entusiasmo é o mesmo e que as expectativas que o levaram a abraçar a profissão nunca foram goradas.

Marco e Isabel ainda são novatos nestas andanças. Só ingressaram há oito meses nesta força especializada da PSP e mal conseguem disfarçar o orgulho que sentem por isso.

As expectativas que os levaram ali são iguais às dos seus colegas mais velhos, mas as histórias de vida profissional ainda são poucas.

Episódios caricatos, momentos de medo, aventuras mais atribuladas, vícios e virtudes de quem protegem, tudo fica registado na memória, mas daí não sai. A discrição é ponto de honra para estes elementos. Ninguém lhes arranca uma palavra sobre o assunto. São olhos e ouvidos, mas aparentemente a boca não funciona, a não ser quando fazem o sorriso enigmático de quem tudo sabe mas nada pode dizer.

E talvez porque o seu trabalho não possa ser discutido ou contado ao comum dos mortais, como qualquer um faz num círculo de amigos, em família ou na mesa de um café, nesta força especial os laços de amizade e de cumplicidade são mais fortes que o normal. Entre eles formam uma espécie de família. São iguais entre si, para que se possam defender do facto de serem diferentes do resto da população.

Mil euros por mês e um suplemento para a gravata

Quando entram no Corpo de Segurança Pessoal atingem um patamar diferente no trabalho policial. Passam por concursos rigorosos e o crivo vai-se apertando por cada etapa ultrapassada em exames distintos. Talvez por isso, e apesar de o número de voluntários para esta função ser sempre muito elevado, os que acabam por conseguir passar são relativamente poucos.

De acordo com o que está estabelecido, as características necessárias para ter o perfil inerente a um elemento do Corpo de Segurança Pessoal não estão ao alcance de qualquer agente da PSP. Sob o ponto de vista moral, têm de ter "uma extrema lealdade e uma forte personalidade". No lado pessoal, é-lhes exigida "discrição, auto-domínio, educação e trato de níveis elevados, grande flexibilidade física e mental, excelente apresentação e aprumo, apreciável formação cultural, com bom desempenho nas exposições orais e escritas". Finalmente, do ponto de vista profissional, é fundamental "capacidade de decisão, autodisciplina, capacidade disciplinadora, forte sentimento de hierarquia e forte espírito de equipa". Quase a síntese do agente perfeito.

Como contrapartida, não têm horário de trabalho e obrigam-se à dedicação total ao Corpo de Segurança, o que tem vindo a demonstrar ser, em não raros casos, incompatível com a vida familiar. Recebem cerca de mil euros mensais e um chamado "suplemento para a gravata"... que já está incluído no ordenado.  

 

Luís Carrilho, o Rosto do CSP

Licenciado em Ciências Policiais, Luís Ribeiro Carrilho, de 37 anos, é desde há dois anos e meio comandante desta força especial, por convite do actual Director Nacional da PSP. Começou a sua carreira no comando da PSP de Santarém, cargo que dividiu durante seis meses com o de professor da cadeira de formação jurídica na Escola Prática de Polícia, em Torres Novas. De seguida, foi destacado como adjunto do posto de comando do Centro Cultural de Belém, durante a primeira presidência portuguesa da Comunidade Europeia. Depois, comandou a 15ª esquadra da PSP de Lisboa, tendo posteriormente sido destacado para adjunto do oficial de segurança do primeiro-ministro, cargo que acumulou com o comando da esquadra de segurança à residência oficial do primeiro-ministro, em São Bento.

Após comandar a esquadra dos Olivais, foi chamado ao Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna, onde além de professor ocupou o cargo de chefe de gabinete. Seguiram-se missões na Croácia e na Bósnia, onde trabalhou na formação de polícias internacionais. Destacado para Timor, foi o primeiro director da Academia de Polícia de Timor. Nomeado por Sérgio Vieira de Mello, seguiu para as Nações Unidas, em Nova Iorque, onde durante alguns meses foi oficial de ligação. Voltou a Timor como adjunto do comandante geral da Polícia das Nações Unidas, de que foi também porta-voz naquele país.

No seu currículo somam-se ainda missões em S. Tomé, no Gana, Senegal, Egipto, Jordânia, Chile e Argentina. Ontem regressou de Israel, país com que o Corpo de Segurança Pessoal da PSP mantém boas relações de trabalho, cada vez mais necessárias numa altura em que Portugal se confronta, pela primeira vez, com o medo do terrorismo internacional.

 

Como Se Forma Um Agente do Corpo de Segurança

Um escudo azul, uma espada de prata, a cabeça de uma águia de ouro ladeada de uma coroa de louros, é este o símbolo heráldico do Corpo de Segurança Pessoal da PSP. Esta força, que tem por missão garantir a segurança pessoal de membros dos órgãos de soberania e de altas entidades nacionais ou estrangeiras, bem como de outros cidadãos quando sujeitos a situação de ameaça relevante, nasceu como Grupo Especial da PSP em 1976, no Comando de Lisboa, composto por equipas mistas de elementos da polícia e militares. Em 1979 passou a Divisão de Segurança, ficando responsável pela segurança pessoal, instalações diplomáticas e instalações oficiais.

Durante este período sofreu a única baixa da sua história. Num atentado ao embaixador de Israel em Portugal, a 13 de Novembro de 1979, o guarda Ildefonso conseguiu evitar que o pior acontecesse à figura diplomática, mas perdeu a vida nessa missão. Em 1982, agentes do Corpo de Segurança evitaram que o Papa João Paulo II fosse agredido com um sabre pelo padre Juan Khron, em Fátima, e em Julho de 1983, dois elementos desta força conseguiram resgatar a família do conselheiro da embaixada da Turquia em Lisboa, após a tomada do edifício por um comando arménio.

Finalmente, em 1994, o decreto-lei 321, de 29 de Dezembro, cria o Corpo de Segurança Pessoal da PSP, que só em 1999, de acordo com a lei 5 de 27 de Janeiro, toma a forma de unidade autónoma e na dependência directa do Director Municipal da PSP.

De acordo com a legislação em vigor, os agentes que se propõem integrar esta força especial podem ter no máximo 38 anos, têm de ter três anos de serviço de esquadra e têm de ser aprovados em testes psicológicos, provas médicas, físicas e culturais e uma entrevista. O curso específico para esta força tem a duração de 12 semanas, divididas entre 427 horas de formação diurna e 39 de formação nocturna.

Da matéria curricular fazem parte cadeiras tão específicas como técnicas de segurança pessoal, noções de segurança de Estado, Direito, protocolo e relações públicas, armamento e equipamento, tiro, condução avançada, luta e defesa pessoal, explosivos ou segurança aeroportuária e em voo. Depois de admitidos, todos os elementos têm instrução e aperfeiçoamento permanente em luta e defesa pessoal, educação física, técnica e táctica de segurança pessoal, informação interna, tiro e condução.