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Por Que É Que Os Polícias
Matam |
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Por RICARDO DIAS FELNER - IN PUBLICO
Domingo, 18 de Abril de 2004
O quarto parece-se com o de um jovem
estudante: uma televisão, uma aparelhagem "midi", uma "playstation",
uma secretária em madeira clara, várias revistas empilhadas ao acaso,
vários CD. Deitado no divã, Rui, 28 anos, aguarda pela meia-noite para
vestir a farda e ir para a esquadra, situada numa periferia nobre de
Lisboa, cujo nome pede para não ser publicado. "Há pessoas que
continuam a querer fazer-me mal", explica.
"Vai ser um turno calmo, como sempre
acontece aqui: vizinhos a queixarem-se do barulho de outros vizinhos,
eventualmente um pequeno furto", diz, aborrecido, depois de recordar o
tempo em que era reconhecido como um dos mais bravos agentes da
divisão da Amadora da PSP.
Lá fora, a classe média-alta regressa do
emprego, ordeiramente, para os seus apartamentos caros. As ruas estão
limpas, há jardins cuidados e vêem-se moradores passeando cães de
raça. "Não foi para isto que vim para a polícia. Estou a pagar um erro
grave que cometi", diz o polícia, mais de um metro e oitenta de
músculo, um físico possante e atlético.
Os factos que ditaram a transferência -
esta tranquilidade forçada - remontam a 5 de Dezembro de 2001, cerca
do meio-dia, hora a que o agente foi chamado para ir recuperar um
carro roubado à Cova da Moura, um dos bairros mais problemáticos da
Grande Lisboa. O filme passa depressa, como uma vertigem.
Rui e um colega escondem-se atrás de uns
contentores, junto a um carro roubado. A ideia é apanhar os ladrões em
flagrante delito. Ângelo e "Nuca", já cadastrados na esquadra de
Alfragide, aparecem ao fim de poucos minutos, entram na viatura e
sentam-se. Rui avança imediatamente empunhando a "shotgun" ("naquele
bairro, não se pode ir para uma coisa destas de mãos a abanar").
"A partir deste momento estão detidos:
saiam e encostem-se à parede", ordena. Os prevaricadores parecem não
oferecer resistência. O colega revista-os.
De repente, contudo, a situação
descontrola-se. O outro polícia é "dobrado" com murros e pontapés.
"Nuca" foge. Ângelo escapa-se para o lado de Rui, que segue no seu
encalço. O jovem de 17 anos, leve como uma pena, ganha terreno ao
polícia. Rui dispara dois ou três tiros da "shotgun" municiada com as
balas de borracha - nada que detenha Ângelo. "Pára, pára!", grita
ainda. Ângelo não responde, continuando a correr como uma gazela. Não
se apercebe do dramatismo do aviso.
O polícia coloca, então, a "shotgun" de
lado. Ajoelha-se. "Quando a pessoa toma a decisão não volta atrás".
Acto contínuo: a mão direita vai ao coldre da pistola de 9 mm, o gesto
é mecânico, perfeito, firme, os braços em linha com as pernas
intrépidas do jovem. "Pum". O tiro sobe e acaba por acertar nas costas
de Ângelo, um pouco acima da nádega. "Não sei o que aconteceu desta
vez".
O rapaz cai, fica estendido de barriga
para cima. Um jorro de sangue perpassando a "t-shirt" na zona do
fígado. Rui abeira-se do corpo. "Mataste-me", sentencia Ângelo,
agonizando. O agente fala com ele, coloca-lhe os dedos a tapar o
buraco na barriga e tenta estancar com a própria mão o sangue que sai
pelas costas - apercebe-se logo que era muito grave. Às 18h00 desse
mesmo dia, Ângelo, 17 anos, conhecido por ser tímido com as raparigas
mas "terrível" quando acompanhado de "gandins mais velhos", morria no
hospital.
O homicídio teve um segundo capítulo,
muito mais mediático. Dois dias após o disparo fatal, as televisões
interromperam a emissão habitual para mostrar, em directo, uma
insurreição na Cova da Moura contra a PSP e contra parte da população
do bairro que, no dia a seguir à morte do rapaz, se mostrara
compreensiva para com a "infelicidade do agente".
Rui viu tudo da terra natal, no interior
do país ("também não convém especificar o sítio"), onde vive a mulher
e as suas duas filhas. "Estavam lá o Toni, o Lages, o Resende, o
Anjos, todos os colegas da esquadra". Sabia, todavia, que não os podia
ajudar; que a sua missão na Cova da Moura terminara e que em breve
seria transferido de posto e acusado pela Justiça.
Tendência para se
"acreditar na sorte"
As atenções, na altura do episódio
trágico, centraram-se no pingue-pongue de culpas. O jornal "24 Horas",
no dia a seguir ao homicídio, titula: "Polícia amigo o bairro está
contigo". Dois dias depois, só o sujeito da manchete muda: "Ângelo
amigo o bairro está contigo".
Poucos, contudo, procuram perceber por que
tirou o agente, que até então nunca disparara com uma 9 mm contra
ninguém, a pistola do coldre.
As respostas não são simples. "A acção
policial não é como a matemática", nas palavras do subintendente
Magina da Silva, da PSP, segundo comandante do Grupo de Operações
Especiais, especialista em armamento. Mas da análise do caso é
possível extrair algumas pistas que ajudam a explicar os 14 casos de
homicídios perpetrados por agentes de segurança, desde 2000, em
Portugal (seis dos quais no ano passado).
Para Maria Leitão Nogueira,
subinspectora-geral da Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI),
uma primeira conclusão que se pode retirar é que os polícias "não
matam porque querem matar", mas "porque acreditam demasiado na sorte",
pondo fé em que a bala não vai causar danos físicos graves.
Para além disso há falhas, deficiências
estruturais, quer do ponto de vista da preparação jurídica dos agentes
(saber em que circunstâncias a lei permite que usem uma arma de fogo),
quer do ponto de vista estritamente policial (interpretar os riscos da
acção, utilizar correctamente as armas mais apropriadas e seguras para
cada situação).
Isso explica, no entender da responsável
da IGAI, que os polícias continuem a arriscar disparar em situações de
perseguição, seja apeada, seja motorizada - contexto em que morreram
quatro das seis vítimas registadas em 2003 - ou que haja tantos casos
em que os agentes agressores acabam por invocar um quadro de legítima
defesa que manifestamente não existe.
Aumento do desrespeito à
autoridade
Os agentes assumem, quase todos, este
argumentário. Mas acrescentam-lhe outras razões mais prosaicas, só
sentidas no terreno: a falta de treino de tiro, a falta de armas
alternativas às de fogo, o amadorismo na abordagem de prováveis
situações de conflito e a agressividade crescente demonstrada em
certos meios contra as forças de segurança.
Um inspector experiente da brigada de
Homicídios da PJ, polícia que tem o exclusivo da investigação destes
crimes - "sem querer retirar responsabilidades aos infractores" -
sublinha o "aumento das agressões e das provocações aos agentes",
situações que "são encaradas como 'fait-divers' pelo Governo e pela
comunicação social" mas que são sentidas na pele, diariamente, pelas
forças de segurança.
"Não é nada fácil entrar em certos bairros
onde os delinquentes dizem na cara dos polícias coisas do tipo: 'bófia
é merda'; 'vai-te embora daqui, isto é nosso'", descreve o
investigador da Judiciária, acrescentando: "Há uma grande tensão
acumulada nos homens que lidam com isto, e que patrulham, por exemplo,
o Bairro dos Navegadores, em Porto Salvo, ou a Cova da Moura. Nestes
locais, é frequente serem recebidos à pedrada, quando não mesmo com
tiros. Qual é a serenidade destas pessoas? Qual é a serenidade de
alguém que vai para um sítio onde sabe que há dezenas de armas
clandestinas", questiona.
O relato do agente Rui reforça esta ideia.
"Fui enchendo, enchendo e naquele dia rebentei. Admito que quando fiz
o disparo, o primeiro em serviço, não era uma pessoa tranquila. Ao fim
de quatro anos a lidar diariamente com o mundo da Cova da Moura, onde
a vida vale pouco, onde toda a gente cresce na violência, fiquei mais
amargo, mais duro. A violência gera violência. Tive dezenas de
situações perigosas, fui agredido, a minha postura deixou de ser a
mais tranquila. Sempre que entrava no bairro a adrenalina subia ao
máximo. O simples toque dos dedos uns nos outros dava choques",
recorda.
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"Formação em Tiro Nula
Ou Quase Nula" |
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Um colega e amigo de Rui, do tempo em que
trabalhavam na esquadra de Alfragide, aduz outros factores para a má
utilização das armas de fogo. "O Rui até era bom atirador. Mas a
formação em tiro da maioria dos agentes é nula ou quase nula. E depois
as armas mais usadas ainda são as velhinhas 7.65 mm", diz.
As críticas são partilhadas pelo próprio
subintendente Magina da Silva, encarregue de melhorar o emprego das
armas na PSP. "É, de facto, uma desgraça, a esse nível. Cada comando
da PSP devia ter uma carreira de tiro, para treinos, mas isso não
acontece. E também é verdade que todas as polícias modernas usam já as
armas de 9 mm e não as de 7.65", admite.
Perante este cenário, os agentes dizem que
quem infringe a lei se sente cada vez mais forte. E que há um caldo de
cultura que tende a extremar posições - a isolar, a "guetizar" as
comunidades problemáticas. "Deixámos de patrulhar a Cova da Moura como
fazíamos antes da morte do Ângelo. É o próprio comando da Amadora que
nos desmotiva a fazê-lo. É melhor assim: aumentam as agressões, os
roubos, o tráfico, os homicídios, mas não se fala em erros da
polícia", refere, com ironia, um outro polícia da PSP da Amadora.
O inspector-geral da Administração
Interna, por sua vez, tem preferido salientar - como explicação para o
elevado número de mortes causadas por polícias - o espírito
voluntarista de alguns agentes. Rodrigues Maximiano parte em defesa do
"elo mais fraco", afirmando que os polícias "actuam muitas vezes
desprotegidos" e sem o necessário enquadramento técnico dos seus
superiores hierárquicos.
"Isso é verdade", assume Rui, que conta
ter actuado muitas vezes no fio da navalha. "Cada dia era uma
aventura", confessa, revelando estar agora mais calmo e ter menos
complicações profissionais no dia-a-dia. Neste momento, o mais
importante é voltar para junto da sua mulher e das duas filhas, a
viver na sua terra natal e esperar o fim da fase de instrução do seu
processo, em que está acusado pelo Ministério Público de homicídio por
negligência. A carreira pode não estar destruída, uma vez que nem
sequer chegou a ser suspenso. Mas o seu projecto profissional era
outro. "Ninguém passa impune à morte de alguém, seja ele quem for".
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Relatório da IGAI
Revela Mais Mortos, Mais Agressões e Mais Abuso de Poder
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Em média, em 2003, todos os dias se soube
de uma queixa contra a actuação de um agente de segurança ou contra os
serviços da Administração Interna. O Relatório da Inspecção-Geral da
Administração Interna (IGAI) relativo ao ano passado dá conta de 364
ocorrências, um aumento de cerca de 30 por cento relativamente a 2002.
Entre as participações mais graves volta a haver casos fatais: seis
pessoas morreram às mãos da PSP e da GNR, um recorde trágico que
coloca Portugal no fundo da tabela europeia.
De resto, as participações subiram em
todos os capítulos. Registaram-se mais agressões, mais ferimentos ou
ameaças com arma de fogo, mais situações de abuso de poder e de
corrupção, bem como mais "práticas criminais diversas".
O relatório - a que o PÚBLICO teve acesso
- dá também particular destaque a um acréscimo de queixas de violência
doméstica perpetrada por elementos da PSP (7) e da GNR (4) contra as
suas mulheres. A IGAI faz notar que as 11 denúncias reunidas foram
feitas directamente pelas vítimas, pela Associação Portuguesa de Apoio
à Vítima (APAV) e pelo Ministério Público.
Em termos quantitativos, o número de
agressões em 2003 foi de 109, a maioria das quais da responsabilidade
de agentes da PSP (78), quando em 2002 o valor verificado foi de 81.
No que respeita aos ferimentos ou ameaças com arma de fogo,
registaram-se nove ocorrências para apenas duas em 2002. O abuso de
poder revela também um crescimento significativo, com 38 situações em
2003 (24 da PSP, 13 da GNR e uma do Serviço de Estrangeiros e
Fronteiras) e 27 em 2002 (20 da PSP, 7 da GNR).
Quanto à fiscalização do trânsito,
continua a ser uma das áreas onde há mais queixas por procedimentos
incorrectos e corrupção, representando quase 50 por cento dos totais
desta categoria (70 casos e 26 casos, respectivamente).
Como aspectos positivos a IGAI apenas
aponta a "ausência de registo de casos de suicídio de cidadãos detidos
no interior das instalações das forças de segurança" (em 2002
verificaram-se dois e em 2001 também).
Apesar do significativo aumento das
infracções denunciadas, a inspecção-geral não dá qualquer explicação,
no documento, sobre as possíveis causas, limitando-se a constatar que
o ano passado, em comparação com 2002, os cidadãos e sobretudo o
Ministério Público apresentaram naquele serviço muito mais queixas
(evolução que constrasta com a verificada nas participações oriundas
dos próprios comandos nacionais das polícias integradas no Ministério
da Administração Interna).
É, no entanto, de assinalar que o volume
de ocorrências em 2003 nem por isso resultou em mais processos
instaurados pela IGAI, que apenas assume o controlo directo de "casos
de particular gravidade", tais como morte, ofensas corporais graves,
situações de grave abuso de autoridade ou de lesão de elevados valores
patrimoniais.
De facto, houve menos processos de
averiguações, menos processos de inquérito e menos processos
disciplinares - sendo que de entre estes últimos (32, menos dois do
que em 2002) somente três foram concluídos até Janeiro de 2004, tendo
dois deles sido arquivados e os restantes resultado na aplicação de
uma punição.
Arquivamento e
processos disciplinares
De salientar que no que respeita aos seis
agentes que mataram cidadãos durante 2003 (metade da PSP, metade da
GNR) pelo menos três deles foram ilibados de qualquer
responsabilidade, através de despachos de arquivamento, tendo sido os
outros sujeitos a processos disciplinares sobre os quais não se
informa do resultado.
Por sua vez, as acções preventivas
realizadas por inspectores da IGAI a 137 postos e esquadras, em 2003,
acabaram por não detectar qualquer situação de violação de direitos
fundamentais dos cidadãos, designadamente de detidos ou pessoas
conduzidas às instalações policiais.
A fiscalização apenas assinalou a
desconformidade de algumas zonas de detenção com as normas em vigor. É
o caso da existência de pontos de suspensão, portas ou janelas com
grades, susceptíveis de favorecer os suicídios.
Outra das chamadas de atenção tem que ver
com "as deficientes condições de trabalho que em muitos casos
continuam a verificar-se", sobretudo nos postos da GNR de
Trás-os-Montes, onde os agentes passam frio. Crítica semelhante é
feita às condições do posto de fronteira de Vilar Formoso, onde opera
o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e onde, para além do mais, as
zonas de detenção são irregulares.
O relatório refere-se também a acções de
verificação da intervenção das brigadas de investigação criminal, quer
da GNR quer da PSP, sem no entanto especificar quais as falhas
registadas. Relativamente à GNR, a IGAI limita-se a afirmar: "A acção
terminou com propostas, oportunamente apresentadas à tutela". No caso
da PSP, vai um pouco mais longe: "Pela grande relevação que assumem,
foi destacada a necessidade de desenvolvimento de esquemas de formação
específica - técnico-profissional e jurídica - para todos os elementos
da área da investigação criminal.
O documento foi submetido ao ministro da
Administração Interna, António Figueiredo Lopes, que tem a tutela da
IGAI, que já o homologou.
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Membros do Núcleo de
Disciplina da PSP Sem Formação Apropriada |
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Nem todos os elementos que integram os
Núcleos de Deontologia e Disciplina da PSP têm a formação jurídica
mínima para avaliar os casos que lhes vão parar às mãos referentes aos
seus colegas. O relatório da Inspecção-Geral da Administração Interna
de 2003 volta a enunciar várias deficiências nesta matéria,
assinalando nomeadamente problemas nos comandos regionais da Madeira e
em Faro. Na Madeira assinala-se que se mantêm "alguns aspectos menos
positivos já evidenciados" numa primeira visita, "entre os quais se
destaca a ausência de formação jurídica, quer por parte dos elementos
que integram o núcleo, quer por parte dos instrutores casuisticamente
nomeados". Em Faro, para além deste aspecto, é também salientada a
"morosidade processual, a necessidade de aperfeiçoamento de alguns
despachos, nomeadamente o de acusação em sede de articulação dos
factos, a implementação de mecanismos de controlo de gestão processual
e a omissão de algumas formalidades".
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"Custa Muito Ver Alguém Fugir"
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"Pedro", nome fictício, apanhou um susto
de morte. Não está entre os quatro agentes que atingiram mortalmente
ocupantes de carros, no ano passado. Mas podia ter estado. "Mandámos
para um carro suspeito, perto de Entrecampos [Lisboa], eram cerca de
4h00. Ele encostou e quando me aproximei o condutor arrancou, quase me
atropelando. Não fiz mais nada: apontei a 9 mm e descarreguei seis
tiros contra o automóvel", conta, ciente de que cometeu uma sucessão
de erros - consciente de que uma das balas poderia ter causado danos
graves. "Durante essa noite dormi mal", lembra. "Estava sempre a
pensar se não apareceria alguém ferido ou mesmo morto". A explicação
que encontra para aquele procedimento é simples: "Custa muito ver
alguém fugir".
A mesma sorte não teve, contudo, o colega
que atirou em circunstância semelhante, no bairro do Zambujal, um dos
mais fustigados pelo tráfico de droga. Neste caso, o carro também não
obedeceu ao sinal de paragem, uma mera "operação stop". A versão
oficial da PSP diz que o agente foi alvo de uma tentativa de
atropelamento e que reagiu abrindo fogo, já a viatura se afastava
velozmente, primeiro com disparos para o ar depois em direcção ao alvo
em movimento. Um dos ocupantes, um jovem de 20 anos seria atingido,
acabando por falecer no Hospital de S. Francisco Xavier, em Lisboa.
A subinspectora da Inspecção-Geral da
Administração Interna, Maria Leitão Nogueira, é uma das pessoas que
têm chamado a atenção para a irregularidade deste procedimento. "São
casos claros em que se faz uma má avaliação da situação", salienta, "e
muito frequentes", sendo que as polícias "alegam quase sempre o
direito de legítima defesa". Para a jurista, este argumento é errado,
uma vez que o perigo para o agente, no momento em que dispara, já não
existe.
"Último recurso"
Maria Leitão Nogueira alarga as suas
preocupações às situações de perseguição motorizada, situação que
comporta um "elevado grau de risco para a vida e integridade física".
Na sua opinião, a arma de fogo não pode ser usada para imobilizar
viaturas, "salvo se do interior desta houver reacção com recurso a
tais armas ou se, não havendo cessado o flagrante delito, se torne
imperioso evitar danos maiores, caso em que será admissível como
último recurso, de preferência com munições adequadas".
Muitos polícias têm justificado o aumento
do número de disparos mortais contra viaturas em movimento com o facto
de não serem proporcionados meios alternativos. No centro da polémica
tem estado a utilização de barreiras físicas, como as "lagartas", uma
solução considerada de risco nalguns relatórios oficiais (uma vez que
a viatura pode despistar-se e causar danos a terceiros), mas que
voltará a ser utilizada "em força", segundo disse ao PÚBLICO a PSP.
A próprio subinspectora da IGAI Maria
Leitão Nogueira afirma não ser contra esse "instrumento". "Em
determinadas situações, as lagartas podem ser úteis".
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"Shotgun", a Espingarda
da Discórdia |
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O seu uso é banal, diário. Os polícias que
patrulham os bairros mais problemáticos das grandes cidades nunca a
largam. A razão para a veneração é simples: o porte da arma é, por si,
intimidatório e as balas utilizadas são normalmente de borracha - ou
seja, em regra, não matam.
Sublinhe-se, contudo, que a regra comporta
a excepção, motivo aliás que colocou a famigerada "shotgun" no centro
do debate securitário, quando, no ano passado, um agente da PSP matou
um rapaz no bairro da Bela Vista, Setúbal.
O julgamento terminou o mês passado. A
absolvição do arguido foi fundamentada, em parte, com a alegação de
que o agressor desconhecia o poder mortal do disparo da "shotgun",
ainda que à queima-roupa - como terá sido o caso. Para sustentar esta
tese, o próprio director nacional da PSP deslocou-se ao Tribunal
Judicial de Setúbal, declarando sob juramento que aquelas armas, até à
data, eram consideradas não letais pela PSP.
O colectivo de juízes acabaria por dar
como provado que a vítima dirigiu-se "intempestivamente" contra os
agentes policias, que se haviam deslocado ao bairro para pôr termo a
desacatos; e que "não acatou as ordens para se afastar", avançando com
"uma conduta agressiva e uma garrafa partida nas mãos". Foi também
entendimento do tribunal que não era exigível ao agente "esperar para
verificar a eventual confirmação da ameaça". Nem saber da letalidade
da arma que empunhava.
A sentença poderia, contudo, ser diferente
caso fosse a Inspecção-Geral da Administração Interna e não a PSP a
dar o parecer sobre o poder de fogo da "shotgun". A
subinspectora-geral daquele serviço, Maria Leitão Nogueira, numa
conferência dada o ano passado, referiu ser "incontroverso que o
disparo de uma projécteis de borracha através de uma 'shotgun',
desferido a uma curta distância da vítima e na direcção de órgãos
vitais retira conteúdo útil à argumentação do desconhecimento do
enorme perigo que tal conduta representa para a vida de um terceiro e,
logo, da sua natureza letal".
"Armas alternativas"
Ora foi precisamente essa a circunstância
que envolveu o homicídio no bairro da Bela Vista.
Indiscutível, ainda assim, parece
continuar a ser a sua utilidade, sobretudo quando entre os bastões de
borracha e as armas de fogo não existem, à excepção da "shotgun",
quaisquer outros instrumentos ao dispor dos agentes.
Esta é, precisamente, uma das razões
invocadas mais vezes para justificar o excessivo recurso às armas de
fogo: se os polícias tivessem "spray" de gás pimenta, ou pistolas de
choques eléctricos, como sucede noutros países, algumas situações
poderiam ser resolvidas de outra forma.
A Direcção Nacional da PSP está consciente
desta carência, razão pela qual a introdução de "armas alternativas"
no policiamento começa a ser preparada e foram já regulamentados os
casos em que devem ser utilizadas.  |
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