DOSSIÊ EXTRA N.º 4

 
     
  Entrevista ao IGAI, parte I  
  Entrevista ao IGAI, parte II  
  Entrevista ao IGAI, parte III  
«Ou matam ou ficam lá»
 

 

Portugal Diário de 22-ABR-2004
Lisete Reis e Miguel R. Fernandes
 

ENTREVISTA: O homem que fiscaliza as polícias diz que agentes deviam usar armas não letais para evitar morte de cidadãos. E defende que Polícia pode filmar algumas ruas das cidades

 

Sofre em dobro, cada vez que um civil morre pelas mãos da polícia. E para evitar essas situações, insiste na adopção de novas formas de intervenção, sobretudo nas patrulhas do dia-a-dia. Há oito anos a vigiar as polícias, Rodrigues Maximiano não se conforma quando os comandantes e chefes não são também responsabilizados pelos incidentes com cidadãos. Uma conversa sem papas na língua.

A polícia continua a abusar da força?

Eu penso que isso está neste momento num processo de alteração qualitativa que passa por duas questões. Primeiro: valorização nas escolas dessa temática. Aumentar o currículo dos polícias na área dos direitos humanos. Fazer perceber aos agentes que os direitos humanos são a essência de uma sociedade democrática. E o comportamento da polícia exprime também o grau de evolução da própria democracia. Há um segundo aspecto que realmente me preocupa e que está a ser equacionado. Relativamente aos agentes portugueses que estão na rua, os seus responsáveis têm que pensar em novas formas de intervenção na rua. Há situações em que são chamados a intervir numa situação. Os civis podem estar armados e os agentes só dispõem de uma arma letal. Contrariamente a outros países, não têm sprays nem paralizadores eléctricos. Ou fogem ou têm que enfrentar a situação com a arma. Muitas vezes ou matam ou ficam lá. É antes da intervenção dos polícias que tem que se resolver o problema.

Como?

Através de novos instrumentos de trabalho e do enquadramento da intervenção policial. São necessários novos processos de abordagem, com armas não letais e nova formação. As armas não letais servem para resolver as questões do quotidiano sem necessidade de disparar uma bala que mata uma pessoa. A maioria das questões do quotidiano resolve-se com isso. Ou então um numero de agentes manifestamente superior. Estamos a falar de alterações de ordem de rua e de lutas de rua. Não falo do combate à criminalidade. Aí penso que a polícia portuguesa está no bom caminho.

Apesar de tudo este ano está a correr bem. Ainda não houve nenhum incidente mortal com polícias.

Estou muito satisfeito porque estamos em Abril e felizmente não há nenhum caso mortal. Espero que continue assim até ao final do ano. São situações que criam muita angústia. É que o agente que tem um comportamento incorrecto, de onde resulta uma morte, vai ter responsabilidade por essa morte. Mas há outra parte, que resulta da ausência de formação ao agente, da ausência do enquadramento dos oficiais de comando à saída do agente, da ausência de preocupação de uma série de responsáveis, que continuam numa situação olímpica de não serem responsabilizados. E isso não é justo.

E o que é que a IGAI pode fazer para alterar essa situação?

Eu tenho procurado chamar a atenção de todos os responsáveis da cadeia de comando e depois responsabilizar pela omissão.

Concorda com a opinião do director nacional da PSP, quando defende que a Polícia deveria ter mais poderes?

A lei portuguesa dá à polícia os instrumentos legais adequados para desempenhar a sua função. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. O que a polícia não tem, e devia ter, são outros instrumentos de trabalho que outras polícias têm. Armas não letais, por exemplo, ou a possibilidade de visionar alguns locais das cidades. Mas a [a polícia] não demonstra capacidade organizativa de gestão. A polícia tem que ter uma lufada de ar fresco nos seus critérios de gestão. 

Já propôs esse aumento de meios para à tutela?

Quanto ao uso das armas já me pronunciei sobre isso.

Há quanto tempo?

A ministros anteriores. Mas esses meios não vão servir para nada à polícia portuguesa se não modificar os critérios de intervenção. [Importante é] a precisão da gestão dos recursos humanos, a estratégia da intervenção policial.  

 
Entrevista ao IGAI, parte II
 

Departamento de Assuntos Internos seria constituído por polícias que «vão observando os comportamentos dos outros para evitar situações como a que aconteceu na Brigada de Trânsito»

Acha que os polícias deviam ser mais controlados internamente?

O que eu defendo é a existência, no interior das polícias, do Departamento de Assuntos Internos (DAI). Mas não é para andar atrás das pessoas. O DAI é um departamento de auto-controlo comportamental. Constituído por um conjunto de pessoas, polícias, que preventivamente vão observando os comportamentos dos outros para evitar situações como a que aconteceu na Brigada de Trânsito.

Mas não é para isso que serve a Inspecção da GNR e da PSP?

Não tem sido. Agora julgo que a GNR está a mudar um pouco mas o que têm feito é ir às unidades, ver quantas armas têm, quantos homens, do que é que precisam. É uma inspecção burocrática. E podia ser uma inspecção operacional. No sentido de olhar para dentro da instituição, avaliar os comandos, por exemplo. Eu tenho defendido sempre que se devia dar uma grande implementação às duas inspecções e aos serviços de disciplina e deontologia. E não se dá.

Os agentes continuam a beber demais?

Acho - não posso garantir - que o problema do álcool está altamente restringido. Eu tentei arranjar um contrato entre as forças de segurança e uma unidade da Marinha que faz o despiste precoce do álcool e da droga. As pessoas que estão no limiar ficam com o problema resolvido em oito a 15 dias.

As polícias aceitaram?

Isto foi apresentado ao MAI e houve reuniões com as forças de segurança. A GNR considerou que já tinha resolvido esse problema internamente. A PSP nunca teve um seguimento dessa matéria. Cada um tem o seu modelo. Eu acho que seria bom uniformizar.  

Que resultados têm tido as inspecções feitas no SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras)?

No SEF já temos duas acções terminadas. Uma sobre o desenvolvimento dos processos de aquisição de nacionalidade. A primeira vez que vimos isto estavam a demorar seis a sete anos. Neste momento está com 18 meses. Ainda acho muito. Mas eles também não têm condições para vencer as consequências dos processos extraordinários de legalização que geraram milhares de processos. Vamos fazer outra acção que tem a ver com a extradição ou expulsão administrativa. Onde podem estar direitos fundamentais em causa. Vamos ter de saber se o SEF cumpre exactamente as normas para expulsar as pessoas. Eu julgo que sim. Mas vamos ver.

Que outros desafios se põem à IGAI, no âmbito do SEF?

Eu tive uma grande preocupação. Julgo que foi em 2002, aparecerem vários ucranianos mortos em esquadras e postos. Eu na altura propus ao ministro que [o SEF] tivesse uma bolsa de tradutores e que, quando acontecessem situações destas, ainda com a pessoa viva, imediatamente aparecesse alguém a falar o idioma, com assistência médica imediata. Porque, na maioria dos casos, eram pessoas que parece que estavam a ser pressionadas por organizações criminosas, com ameaças à família, e as pessoas não conseguiam explicar o que queriam. Ficavam doentes e suicidavam-se. Hoje o SEF tem esses tradutores, tem ligações hospitalares.

 
Entrevista ao IGAI, parte III
 

Rodrigues Maximiano defende que a Polícia deve mudar formas de intervenção nas patrulhas do dia-a-dia

Preocupa-o que possa haver excesso de força por parte das autoridades durante o Euro2004 e o Rock in Rio?

Quando há situações de grandes eventos, potencialmente de risco, está na competência da Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) não interferir na actividade operacional das polícia mas avaliar o seu desempenho profissional. Na Expo98 tivemos uma primeira experiência com dois inspectores. E não aconteceu nada, felizmente. É de todo o interesse colocar dois inspectores credenciados no Euro. Aleatoriamente, estarão nas zonas do evento, nos estádios ou nas áreas envolventes. O objectivo é apenas a observação. A análise.  

 

 

O Gabinete Coordenador de Segurança já autorizou essa inspecção?

Eu não sei quais são as normas de credenciação. Vou ter uma reunião com o General [Leonel de Carvalho] para tratar disso.  

Será que duas pessoas chegam para observar milhares de polícias?

A IGAI trabalha numa filosofia de agilidade, imprevisão e grande rapidez de procedimentos. Isto quer dizer que eu tenho na actividade fiscalizadora 15 inspectores mas se for preciso fazer uma inspecção às cinco da manhã eles estão lá. Não seguimos as correntes de pensamento napoleónicas que defendem que deve haver 2000 inspectores para aplicar multas de 50 escudos. Nós temos menos inspectores e depois as multas podem ser de cinco mil contos.  

E no Rock in Rio, também haverá inspectores?

Penso que aí não se justificará. É um evento pontual. Não tem permanência. Além disso é um evento lúdico, de prazer. A Polícia portuguesa está bem preparada para fazer face a essas situações de intervenção. Não para o quotidiano. Tem um bom GOE (Grupo de Operações Especiais), um bom CI (Corpo de Intervenção), boa ciência de minas e armadilhas. No quotidiano é que tem que ser trabalhada. Tem que haver mais investimento nesta área.  

Além do desempenho da Polícia nestes eventos, quais as grandes preocupações da IGAI para este ano?

A principal, que eu espero resolver brevemente, é o reforço da capacidade de auditar financeiramente a área do Ministério da Administração Interna (MAI). O Estado está a desenvolver um grande esforço neste momento para o controlo financeiro dos organismos públicos. E a IGAI tem tido dificuldade em ter o número suficiente de inspectores nessa área. Por isso há a preocupação de valorizar a intervenção da auditoria financeira na área da Administração Interna. Outro objectivo é reforçar sempre o aspecto dos direitos humanos, que tem dado a Portugal no exterior uma nova imagem. Para além disto penso que o ano 2004 será um ano de avaliação da eficácia do que foi feito. Vamos saber qual é o grau de execução nas polícias das propostas da Inspecção-Geral.