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Perante o mar de
contestação que rodeia o seu ministério, Figueiredo Lopes aponta os
sindicatos de polícia de falta de rigor e promete mais empenho no
serviço de patrulhamento. A hipótese de deixar o Governo não a
considera, embora admita a extrema exposição por parte do seu
ministério
Correio da Manhã -
Vem aí o Euro'2004, mas, por outro lado, cresce a contestação dos
sindicatos das forças de segurança. Acha que as polícias estão
preparadas para o Euro?
Figueiredo Lopes - Estão sim, e sou o primeiro a criticar as mensagens
que começam a deixar de ter crédito que são passadas por dirigentes
sindicais de que os polícias não estão preparados, de que não há
meios, de que está tudo por fazer. É tão evidente esta falta de rigor
na informação que eu já tive oportunidade de num mesmo dia, perante a
comunicação social, assistir a uma acção de formação com novos
equipamentos e viaturas e corpos de intervenção e no momento imediato
ver na televisão alguém a dizer exactamente o contrário. Perante esta
evidência, entendo que não podemos continuar a utilizar um momento
como o Euro'2004, tão importante e tão mobilizador de segurança e da
capacidade operacional das forças de segurança, para o combate
sindical ou o combate político. Respeito a opinião e o debate da luta
sindical, mas gostava de ver os sindicatos com uma maior coesão e
adesão a um objectivo fundamental para o nosso país, para a própria
dignificação das forças de segurança.
- Mas será que as polícias estarão moralmente preparadas para o
Euro, quando a GNR e a PSP não recebem os gratificados do futebol há
um ano.
- Sei que há problemas que precisam de ser resolvidos rapidamente, mas
sei também que as polícias têm consciência da importância da sua
participação no Euro.
- Mas sabe com certeza que os gratificados não são pagos há um ano.
- Tenho procurado obter junto do senhor comandante-geral da GNR e do
senhor director nacional da PSP um levantamento de toda essa situação
para se encontrar uma solução e eu espero também podermos anunciar
brevemente a todas as forças de segurança o pagamento da participação
no Euro.
- É uma gratificação?
- Eu estava a pensar numa compensação financeira que pudesse ir ao
encontro do esforço suplementar, em termos de horas de trabalho.
- Tem ideia do número de elementos policiais?
- É que não são apenas as cidades ou os estádios onde se realizam os
eventos desportivos, mas as áreas mais próximas. Por exemplo, se o
evento for em Faro é natural que depois os frequentadores do estádio
procurem uma zona como Albufeira. Na proximidade de um estádio haverá,
por evento, entre 600 a mil polícias, e à volta estará a GNR.
- Estão idenficados os riscos, como o terrorismo, que rodeiam o
Euro'2004?
- Tem havido uma avaliação dos tipos de ameaças, onde surgem o
terrorismo, o hooliganismo e o pequeno crime. Ninguém pode, em
consciência, dizer que estas ameaças não sejam previsíveis,
susceptíveis de equacionar. O que temos de continuar a dizer é que nem
o Euro nem o Rock in Rio se apresentaram ainda no quadro das
informações de que dispomos como alvos privilegiados de actos de
terrorismo.
- É verdade que as forças policiais, em particular a GNR, tem
demasiados efectivos em funções administrativas?
- Desafiei o anterior comandante da GNR e prossegui com o actual,
assim como o director nacional da PSP, para encararem a necessidade de
pôr todos os operacionais na rua. Os respectivos relatórios estão a
ser feitos e vão no sentido de atingir um dos objectivos importantes
do Governo. E essa questão vai estar associada à reforma da
Administração Pública.
- Associada como?
- Chegámos à conclusão de que é possível retirar operacionais de
funções administrativas e empenhá-los em funções de patrulhamento.
Concluímos também que em trabalho administrativo temos 20 por cento
dos efectivos e, dessa percentagem, dez por cento poderiam ser
substituídos pela informatização, que é outro programa de modernização
que está em curso e que estará concluído em 2005. Os outros dez por
cento poderão ser eventualmente substituídos por excedentários da
Administração Pública, e é por isso que eu falo no enquadramento deste
objectivo com a reforma da Administração Pública.
- E como vai ser isso feito?
- Já pedi à senhora ministra das Finanças e a outros ministérios
interessados que me dêem sempre conhecimento de eventuais projectos de
reforma com impacto local. Por exemplo, se eu tiver ao longo da
quadrícula nacional informações de elementos da Administração Pública
que possam ser aplicados nas tarefas administrativas a cargo da PSP ou
da GNR, esse movimento será feito, com a vantagem de podermos utilizar
no patrulhamento os agentes ou militares que estão a fazer essas
tarefas. No fim deste projecto e só para a PSP poderemos ter um
reforço de perto de 2500 efectivos. E queremos um impacto muito
visível já em 2005.
- Então, mas os trabalhadores que não servem para a Função Pública
servem para a PSP e para a GNR?
- Não, não é não servem, são trabalhadores que ficam excedentários
pela reorganização dos serviços. E mantêm a Função Pública, mas na GNR
e na PSP.
- O senhor é dos ministros com maior experiência governativa.
Chegou a passar pelo Ministério da Defesa e agora está no MAI. Onde é
que está a encontrar mais dificuldade?
- A Defesa e o MAI são estruturas semelhantes na sua substância, ambas
voltadas para questões de segurança, ou seja, com uma base cultural
comum. Isso facilita-me a vida porque, tendo passado pela Defesa, a
minha compreensão dos fenómenos é mais desenvolvida. Mas comparar as
duas realidades é impossível, na medida em que estamos a trabalhar no
âmbito da segurança interna, com a realidade do dia-a-dia, com aquilo
que afecta directa e indirectamente a segurança, a protecção e o
socorro e que tem a ver com a vida do cidadão em sociedade.
- Será, por isso, também um Ministério muito mais exposto?
- No MAI há uma maior complexidade de problemas, há uma exposição
permanente, diária. Uma vez disse com algum humor, com sentido lúdico,
que na Defesa eu tinha a guerra nas salas de operações, nos mapas e
nas projecções de 'Powerpoint' que me eram apresentadas pelos senhores
generais nos estados-maiores, aqui eu tenho a guerra no terreno
permanentemente.
- Colocava, por exemplo, a hipótese de voltar à Defesa?
- Eu estou muito satisfeito por ter consciência de que estou a dar um
importante contributo para a Administração Interna.
- Mas tem havido insistentes pedidos para que se demita por parte
dos bombeiros e dos polícias e quando se fala de remodelação o seu
nome aparece com alguma insistência.
- Temos aqui uma questão de cultura política. Em Portugal pensa-se,
por vezes, que problemas complexos podem ser resolvidos no dia
seguinte. Eu compreendo a impaciência de muitos sindicatos. O que eu
não compreendo é que a forma considerada mais eficaz pelos sindicatos
para resolver os seus problemas seja pedir para os ministros serem
demitidos. Mas isto não é por mim - é que não posso entender que a
saída de um ministro seja a solução imediata para a resolução de todos
os problemas, bem pelo contrário. Os sindicatos deviam ser aliados de
um ministro que já demonstrou que tem ideias, que tem projectos e que
tem vontade de resolver os seus problemas.
- Mas pelos vistos os sindicatos não entendem assim, estão
previstas várias manifestações e acções contrárias ao ministério.
- Obviamente, mas eu tenho trabalho feito. Consegui melhorias
substanciais no quadro dos equipamentos, da modernização das
instalações. Ainda agora se viu no desfile do 25 de Abril, a GNR
apresentou-se com novas viaturas, novos fardamentos, novo equipamento,
novo armamento. Há investimentos que estão a ser feitos para melhorar
as condições das forças de segurança.
- Reconhece, no entanto, que o MAI tem sido dos ministérios mais
expostos. Em menos de um ano, foram os fogos, depois a questão da BT,
a seguir o Iraque e agora uma sucessão de manifestações. Como é que
isto se explica?
- Isto é a dinâmica enorme, é uma prova de que aqui não se está
parado, de que se está a trabalhar e de que não desanimamos perante as
dificuldades, que não metemos a cabeça na areia.
- Então porquê tanta contestação?
- Isso eu não posso explicar. Só posso dizer que tenho notado numa ou
noutra declaração de alguns sindicatos falta de rigor no assento
tónico em que colocam as suas reclamações.
- Dê um exemplo.
- Ainda há dias eu ouvi dizer que não tinha sido dada resposta à
questão do seguro de vida, que não tinha havido regulamentação do
estatuto disciplinar, mas poucos dias antes o seguro tinha sido
anunciado e no caso do estatuto disciplinar ele já tinha sido
distribuído aos sindicatos exactamente para a negociação que está
neste momento em curso. Parece-me que há aqui uma recorrência na forma
como os sindicatos se dirigem à opinião pública, que nem sempre é
rigorosa.
- Já alguma vez colocou a hipótese de não chegar ao fim do mandato?
- Não, eu não considerei essa hipótese como não considero a hipótese
contrária. Eu estou aqui a prestar um serviço com toda a dedicação,
com toda a lealdade e empenhamento, porque aceitei o desafio que o
senhor primeiro-ministro me fez e entendi que o meu passado em outros
governos e até se calhar por causa disso era legítimo exigirem-me
ainda mais este esforço.
A GNR E A PRESENÇANO IRAQUE
- A GNR está no Iraque e o Exército está em Timor. As posições não
estarão invertidas?
- Não vou fazer comentários a hipóteses dessas e neste momento a GNR
está no Iraque e está a cumprir plenamente a sua missão, que é de
natureza policial, de formação da polícia iraquiana e humanitária.
- O Presidente da República deixou no ar a necessidade de se
repensar o empenhamento no Iraque.
- O Presidente da República não colocou o problema sem que as
alterações locais que se esperam e o total do calendário venham a ser
cumpridos integralmente.
- Mas admite ou não que a nossa presença está a criar a uma
situação de divisão entre os portugueses?
- Não, eu penso que os portugueses estão cientes de que esta presença
de Portugal no contexto das forças de coligação contribui para
reforçar o nosso papel na comunidade internacional e é um contributo
importante que dignifica o País.
MUDANÇA NOS SERVIÇOS DE INFORMAÇÕES
- Em que vai consistir a reforma dos serviços de informações?
- Não vou pronunciar-me antes de a questão chegar ao Conselho de
Ministros.
- Acredita que os vários serviços aceitarão ser dirigidos por uma
única pessoa, um magistrado, por exemplo?
- Nós não estamos a falar de pessoas mas de estruturas. É importante
que se consigam sinergias de cooperação entre os vários sectores,
preservando a sua especialização.
- Cooperação que ainda não se verifica...
- Já foi pior. Posso garantir- -lhe que conseguimos aquilo que antes
não se tinha conseguido, que foi normalizar a situação de um serviço
que estava a atravessar uma fase difícil, refiro-me ao SIEDM, com a
nomeação de uma nova direcção e também reforçar as relações de
cooperação entre o SIS e o SIEDM.
- É verdade que nem se falavam?
- Isso não sei. Com este Governo houve a preocupação de reforçar a
cooperação.
PERFIL
António Jorge de Figueiredo Lopes nasceu em 21 de Novembro de 1936, em
Teivas, Viseu. É casado com Maria Teresa da Silva Brites de Figueiredo
Lopes, tem três filhos e três netos. É licenciado em Direito pela
Universidade de Lisboa e filiou-se no PSD em 1981. Experiência
governativa não lhe falta. É, aliás, o governante com mais
experiência: foi secretário de Estado da Administração Pública, do
Orçamento, da Defesa, e ainda ministro da Defesa. Foi várias vezes
deputado e eurodeputado. Trabalhou directamente com Jacques Dellors.
Carlos Varela/José
Rodrigues in CM de 02-MAI-2004
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