|
FOI JUIZ EM GRÂNDOLA EM 1975, DEPOIS OPTOU PELA MAGISTRATURA DO
MINISTÉRIO PÚBLICO. ESTÁ HÁ NOVE ANOS À FRENTE DA INSPECÇÃO-GERAL DA
ADMINISTRAÇÃO INTERNA, A POLÍCIA DOS POLÍCIAS, MAIS AINDA NÃO ESQUECEU
A PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA, ONDE FOI MAGISTRADO. NÃO POUPA O
PROCURADOR, OS JUÍZES E A POLÍCIA JUDICIÁRIA, QUE ACUSA DE “COLONIZAR”
AS OUTRAS POLÍCIAS
«O Ministério Público tem uma crise de
liderança»
Entrevista
> Adriana Vale
Fotografia > Rui Dias
Já está há alguns
anos à frente da Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) e
trabalhou com governos diferentes e vários ministros. Qual é a receita
para a sua “sobrevivência”?
Estou cá desde 1996,
faz nove anos em Fevereiro. Não há aqui um problema de sobrevivência.
A minha vida profissional não é isto, sou magistrado da
Procuradoria-Geral da República (PGR).Vim para aqui com um mandato de
três anos para implementar um projecto de qualidade na acção policial,
entendido como uma melhoria clara da polícia com o cidadão, no
respeito pelos direitos humanos e no respeito dos direitos
fundamentais das pessoas concretas. Sempre que mudaram os governos, e
apesar de eu colocar a todos o meu lugar à disposição, mostraram
interesse em que o projecto continuasse para se consolidar. Essa é a
justificação que eu encontro para ainda aqui estar.
Mas não faz parte
dos seus projectos sair?
Faz parte dos meus
projectos não ficar aqui eternamente. Em princípio, terminando a minha
comissão, regresso à PGR. É o meu destino natural.
Houve um grande
caso de corrupção na GNR e falou-se em problemas na PSP. Está tudo
resolvido?
Não está nem estará
tão cedo. No meu serviço têm passado pontualmente casos isolados na
área criminal. Sobres esses casos, a área disciplinar, que é a que eu
trato, tem andado, quanto a corrupção, um pouco a reboque da decisão
criminal. Porque as estruturas policiais não têm modelos organizativos
internos para fazer face ao procedimento disciplinar. São os oficiais
da polícia
e da guarda que fazem
os processos disciplinares. Um oficial de polícia não está vocacionado
para fazer processos disciplinares, não é licenciado em Direito e não
sabe nada daquilo, é avesso a fazer aquilo e, portanto, não investiga
disciplinarmente ou investiga mal.
Deviam ter corpos
civis, de advogados, nos núcleos de justiça e deontologia, embora a
decisão dos processos coubesse a um oficial de polícia. Esses
advogados deviam estar em todas as unidades com um peso específico
significativo.
Mas deixou de
haver corrupção na polícia?
Não pode ter deixado,
falamos em abstracto, não é possível não haver corrupção onde há
poder. Há sempre. O problema da corrupção não é eliminação, é o
controlo da dimensão. É muito difícil responder a essa pergunta porque
não há estatística nem análise das cifras negras.
Ninguém sabe quantos
casos de corrupção há na polícia, como ninguém sabe quantos casos de
corrupção há no Ministério da Educação. Isso só seria possível de
controlar se houvesse, porque não há, no interior das organizações
policiais portuguesas, um departamento de assuntos internos para a
prevenção comportamental.
Como o “internal
affairs” norte-americano?
É um modelo de
justiça diferente do nosso. O “internal affairs” tem competências
criminais, e aqui quem as tem é o Ministério Público (MP). Mas era um
controlo comportamental. Se detectassem uma infracção dessa natureza
denunciavam à PGR. A prevenção, a pró actividade, é fácil de fazer no
interior de uma organização policial para efeitos disciplinares.
O que está a
funcionar mal nas polícias?
O problema, agora e
sempre, desde que comecei a trabalhar nesta área, é o modelo
organizativo e a ausência de estratégia. Ainda ninguém deu resposta à
questão para que servem as polícias. Só depois de eu saber para que
serve a polícia é que tenho de saber como é que a organizo. A GNR
serve para andar no campo a multar quem tem os cães na rua sem açaime?
E a PSP, para andar nas cidades a apreender as mercadorias dos
vendedores ambulantes? Os responsáveis políticos têm de responder para
que é que querem as polícias, só depois é que podemos definir o
modelo. Por isso é que temos 46 mil polícias e continuo a dizer que
com um modelo bem definido e moderno se calhar bastavam 18 ou 20.
O actual modelo legal
está esgotado. Vários governos apresentaram propostas ou anunciaram
alterações nas leis orgânicas da polícia e da Guarda Republicana e
estamos na mesma. Continuamos a gerir à vista.
Há então polícias
a mais...
Que fazem
policiamento a menos. Uns são telefonistas, outros estofam automóveis,
mudam pneus nas oficinas da PSP em Alfragide. A colónia de férias da
Guarda Republicana é, de acordo com a lei, uma unidade militar,
tem lá cento e tal
homens no activo...
É preciso mudar a
lei.
E o conceito
policial. Não é por acaso que as unidades especiais, os homens que vão
para o Iraque, os que estiveram no Euro 2004, funcionaram bem. Tinham
objectivos muito claros e sabiam exactamente o que tinham de fazer e
como. Isto está mal segundo os meus critérios, mas para o dos
dirigentes policiais não está. Tanto não está que não mudam. Para
eles, está bom. Está melhor porque a violência sobre as pessoas
desapareceu. Não é endémica. Não enjeito a co-responsabilidade da IGAI
nesse assunto, mas há uma coisa que tenho de reconhecer: mudou
essencialmente por uma atitude interna dos polícias. E eu não dou de
barato que isso esteja consolidado. A área da violência policial é uma
área que tem sempre que ter um controlo atento.
Não tem saudades
do MP?
Tenho muitas saudades
de algumas áreas do MP. Tenho saudades do tribunal, porque é onde eu
gostava de estar e tenho alguma mágoa de não estar no MP agora, porque
há uma intervenção que estaria a fazer nesse domínio e que não devo
fazer estando de fora.
Concretamente em
que área?
Áreas da gestão do MP.
Todos os problemas que o MP está a ter, da forma como está a intervir
ou não, da forma como está a ser relacionado com o poder político, da
autonomia...Toda a problemática que o MP tem. O MP está inserido numa
área que tem grandes problemas, que é a Justiça. Não vejo o MP
isolado. Faz parte de uma área que hoje é questionada, e bem.
Dizia que o MP
está a precisar de reformular a sua intervenção....
O MP tem de estar
especialmente atento se voltar a surgir na ordem do dia o problema de
questionar a sua autonomia. Na nossa cultura, nenhum cidadão ficará
descansado no dia em que o MP depender do poder executivo.
Ou se este tiver
qualquer possibilidade de mandar no trabalho dos magistrados. Agora
não pode.
A autonomia está
ameaçada?
De vez em quando vêm
levantar esse problema invocando que se o Governo é o responsável pela
política criminal tem que dar ordens a quem a desenvolve. Isto é pôr o
problema de uma forma falaciosa. A autonomia do MP tem, para o cidadão
– não é nenhum direito nosso –, a mesma garantia que tem a
independência dos juízes. Isto é uma história que vem da Alemanha dos
anos 1940. Quando o poder político quis manipular os tribunais, nunca
teve a possibilidade de o fazer pelos juízes, porque a cultura
europeia não acha aceitável que o Governo mande nos juízes. Como é que
pode então instrumentalizar? Mandando a montante, dizendo quais são os
processos que vão, ou não, levar a julgamento. Se um dos cancros das
democracias é a corrupção, e se a corrupção está ali onde há poder, é
evidente que os sectores mais elevados da administração pública são os
que têm mais condições para haver corrupção. Se o investigador da
corrupção depender do poder político, onde esta possa estar, é
evidente que não tem possibilidades de investigar.
Mas o MP continua
a ser autónomo.
E acho que se vai
manter. Isso é o primeiro aspecto. Mas há um segundo: devia ser feita
uma grande reflexão, como nas polícias sobre o futuro e a modernidade.
Colocar a questão
“para que serve o MP”?
Sobre as nossas
competências e sobre o modelo organizativo. Saber se continua a
justificar-se o modelo que temos. Um MP que, por exemplo, não tem
assessorias. Que tem uma direcção central de combate ao crime
organizado que dirige os processos feitos pela Polícia Judiciária –
que também
tem esse
departamento, que é concebida como se fosse um tribunal da província.
A directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal não
tem secretariado, não tem chefe de gabinete, não tem orçamento. Não
tem viaturas, tem carros emprestados pelas forças de segurança. O MP,
que está vivo, merece esta reflexão...
Está vivo mas não
se ouve...
Tem – eles não vão
gostar disto – aquilo que a Europa tem, ressalvadas as devidas
proporções: o MP não tem lideranças. Tem uma crise de liderança
impressionante.
O procurador-geral
da República não poderia protagonizar essa liderança?
Isso é um problema do
estilo das pessoas e, se calhar, não tem a ver com o estilo dele. Se
calhar, a escolha obedeceu a critérios que não têm a ver com o que eu
não acho que é importante. Eu acho que é importante uma liderança.
Cunha Rodrigues
não tinha esse problema?
Não, mas tinha
outros. Há pessoas que concordavam com o seu estilo de liderança,
outros não. Não estou a discutir se, para o MP, é bom o Cunha
Rodrigues ou mau o Souto Moura. O que estou a discutir é que para uma
instituição como o MP – ao contrário do que acontece com o presidente
do Supremo, que não lidera nada porque os juízes governam-se a si
próprios –, que tem responsabilidade de defender os direitos
fundamentais dos cidadãos, tem que haver liderança. Pode até não ser
um jurista, pode ser um médico, mas alguém tem que liderar. Se uma
pessoa não tem perfil para isso, dificilmente faz uma Procuradoria.
O caso Casa Pia
revelou erros, complicações...
Eu não sei se isso é
verdade...
Há quem diga que
se prendeu antes de investigar e questione a permanência em funções do
procurador-geral da República na sequência dos erros deste processo.
Ele diz que fica, subscreve?
Aí há vários
problemas. Sobre a pergunta concreta, não subscrevo a saída do
procurador-geral com esses erros todos ou muitos mais porque acho que
quando for lido que o cargo é politizável, a isenção da magistratura
do MP acabou. O que me disse antes é importante, porque isto acontece
a partir do momento em que o Governo, à época, põs a funcionar uma
nova Lei da Polícia Judiciária e uma nova Lei da Investigação
Criminal, dando à Polícia
Judiciária um
estatuto de quase colonizador das outras polícias, com autonomia
técnica. Esta tem sido interpretada, na prática, como autonomia
estratégica e de investigação e com uma cúpula (a da PJ) dependente de
um ministro. Os meus colegas que têm o dever e o direito legal de
definir a estratégia de investigação estão a sentir-se confrontados
com comportamentos daqueles que devem pura e simplesmente executar a
investigação. E ninguém, este Procurador-geral ou outro, põe mão
nisto. A única entidade com capacidade para resolver este problema é o
Governo através da via legislativa. As três polícias, embora na Guarda
e na PSP isso não se note, porque vivem claramente na direcção do MP,
não têm os pruridos da PJ.
A Polícia
Judiciária tem que estar sob a tutela do MP...
Não tenho dúvidas
nenhumas sobre isso. A Polícia Judiciária é a única polícia que não
tem nenhum controlo, tirando o do inspector do Ministério da Justiça
que é um controlo que não pode investigar o trabalho da polícia nos
processos. Até a PSP e a GNR, que não tinham controlo externo, agora
têm, sou eu que o faço. É da essência das democracias, quem tem poder
tem que ser controlado e não há maneira de dar volta a isto.
E quem controla o
MP?
O MP é uma instância
com altas vertentes de controlo. Tem o da cidadania e dos média, que a
Polícia Judiciária não tem. Não se sabe o que se passa lá dentro,
sabe-se o que a polícia diz cá para fora. Tem o Conselho Superior, com
seis ou sete representantes dos principais grupos parlamentares, dois
representantes ilustres designados pelo ministro da Justiça e o
procurador-geral da República, que não tem de ser magistrado do MP.
Este, por acaso, é e é o primeiro. O procurador é nomeado pelo
Presidente da República sob proposta do primeiro-ministro. E mais.
Todos os membros do Conselho do MP – isto é importante para os meus
colegas juízes – relatam os processos. Não há aquela coisa de tirar
aos do Parlamento os processos. Na judicatura, no órgão que decide as
promoções e classificações dos juízes, os elementos de fora da
carreira estão em minoria, o que é claramente inconstitucional.
Disse-o Jorge Miranda
há pouco tempo no Centro de Estudos Judiciários (CEJ). Não pode estar
agora a dizer-se que o órgão máximo de gestão da magistratura judicial
tem maioria de eleição e depois inventar um mini conselho. E depois há
o controlo dos tribunais. O controlo político é com o procurador-geral
que assuma as suas responsabilidades.
E ele tem-nas
assumido?
Por aquilo que diz,
sim. Quer eu esteja de acordo quer não. Não devo falar do senhor,
ainda por cima é meu colega. Agora, aquilo que ele diz é uma assunção
de responsabilidades, quer ele diga asneiras quer diga coisas
certas. Quem não
assume está calado. Pode discordar-se do que ele diz, da maneira como
diz e quando diz, mas quando ele diz eu agora daqui não saio, se
quiserem mandem-me embora, isto é assumir responsabilidades. Chega a
Espanha e fala dos processos de gente importante, isso é assumir
responsabilidades.
E quanto aos erros
do processo Casa Pia?
Há claramente a
utilização dos média por gente que tem capacidade para isso,
financeira ou outra, e que, do seu ponto de vista, legitimamente leva
ao leitor a sua leitura das coisas. Há uma certa manipulação da
comunicação social. Não no sentido de que a comunicação social está a
manipular, mas que está a entrar num processo de manipulação. Entendo
que os jornalistas, hoje e cá, têm muito pouca independência. Também
são empregados de empresas. E acho que isso para bom entendedor...
Os juízes
discordaram com a nomeação de uma professora de direito, Anabela
Rodrigues, para a direcção do CEJ. Como comenta a demissão em bloco
dos juízes-formadores?
Ainda bem que me faz
essa pergunta. Eu ando há três ou quatro dias à procura do telefone da
dra. Anabela Rodrigues para lhe dar os meus parabéns. E, como
magistrado, congratulo-me por ter um professor universitário a dirigir
a escola da magistratura. Um gestor não vai dar aulas e ensinar como é
que se julga. Os meus colegas tiveram uma reacção que não posso deixar
de classificar como altamente corporativa. Mas não me surpreende.
Porque...
Porque o órgão máximo
da magistratura judicial hoje, que é o Conselho Superior da
Magistratura, tem competências que são a expressão desse tipo de
filosofia. Os magistrados judiciais, através dos seus representantes,
não têm tido uma atitude aberta à sociedade mas uma atitude de defesa
fechada e corporativa. Não quero ofender ninguém. Mas porque é que tem
de ser um juiz a dirigir o CEJ? |