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Serviços de Informação Deviam
Poder Fazer Escutas Sob Controlo Judicial
In Publico de
Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2005
Entrevista com Daniel Sanches
Magistrado do Ministério Público com grande experiência na área
da prevenção criminal e no combate a várias ameaças, Daniel
Sanches não se conforma que um agente dos serviços de informação
não tenha cobertura legal para "fotografar um eventual
terrorista num átrio de hotel". Por António Arnaldo Mesquita e
Mariana Oliveira (texto) e Nuno Ferreira dos Santos (foto)
O mandato de
Daniel Sanches como ministro durou quatro meses. A experiência
foi fugaz, mas as funções desempenhadas pelo procurador-geral
adjunto nos últimos 32 anos facilitaram-lhe o diagnóstico da
situação da administração interna. Sanches foi magistrado em
diversas comarcas, procurador distrital de Évora e o primeiro
responsável pelo DCIAP (Departamento Central de Investigação e
de Acção Penal), além de director nacional adjunto da Polícia
Judiciária e director-geral do SIS e do SEF. Em gozo de uma
licença sem vencimento para se envolver na actividade de gestor
de empresas, Daniel Sanches está prestes a abandonar um cargo
que, assegura, só pode ser desempenhado no horizonte de uma
legislatura e com grande estabilidade política.
PÚBLICO -
Quando cessar funções ministeriais, regressa ao Ministério
Público (MP) ou continua no sector privado?
Daniel
Sanches - Ainda não tomei uma decisão definitiva, mas em
princípio volto à administração de empresas. Não pus ainda de
parte o regresso à magistratura, que faz parte dos meus planos
de vida. Quero terminar a carreira no MP, mas talvez agora não
seja o momento mais adequado para regressar.
- Há quatro
anos afastado das lides judiciais, como vê a actual situação do
MP?
- As coisas
estão praticamente na mesma. O MP tem atravessado um período
crítico, que lhe tem sido extremamente doloroso, devido a alguns
processos mediáticos.
- Que
balanço faz desta experiência governativa?
- O tempo
foi muito curto. Desde a posse até ao anúncio da dissolução da
Assembleia mediaram pouco mais de quatro meses. Pude fazer um
diagnóstico e concluir que, para tomar conta desta pasta, é
preciso uma legislatura completa e grande estabilidade. Há
determinadas políticas que vão ter que ser assumidas. Por
exemplo, os cidadãos clamam por melhor segurança e mais
polícias, e as associações policiais alegam haver déficite de
efectivos, três/quatro mil. Quanto a mim esse não é o problema.
Os rácios do Conselho da Europa mostram que somos um dos países
da União Europeia com maior rácio polícia/cidadão, cerca de 470
a 480 polícias por cada 100 mil habitantes. Nos países nórdicos,
que não são menos seguros, esse rácio é inferior a 200 polícias
por 100 mil habitantes.
- E o que
deve ser mudado?
- Por um
lado, utilizar os polícias só em actividade policial. Há
polícias em funções administrativas que podem ser desempenhadas
por civis. Portugal tem o menor rácio de civis nas forças de
segurança. Segundo dados do Banco Mundial de 2000, entre 52
países, Portugal é o quinto com o rácio mais baixo, que é
inferior a 10 por cento, ao passo que em outras polícias
europeias essa relação é ligeiramente superior a 20 por cento.
Por outro lado, há unidades especiais a mais. Na PSP, 10 por
cento dos efectivos estão em unidades especiais, que estão
sobredimensionadas e algumas delas quase se limitam a policiar
alguns jogos de futebol de alto risco e reforços às praias, no
Verão. Não sou contra a existência de unidades especiais, sou
pelo seu redimensionamento.
- A ideia
que a população tem é que hoje estamos mais inseguros que nunca?
- Não
estamos menos seguros. Pela primeira vez desde há muitos anos, a
criminalidade não cresceu face ao ano anterior. É a primeira vez
que não cresce nos últimos 10 anos. Em termos gerais a
criminalidade desceu 1,1 por cento e o único elemento que pode
contrariar esta tendência é a criminalidade grave ter subido no
cômputo geral.
A
insegurança é um estado de espírito que pode ser influenciado
por factores verdadeiros ou induzidos, através dos próprios
meios de comunicação social. Portugal é um país seguro, com
algumas zonas mais difíceis que é preciso controlar, através de
uma intervenção policial moderna e eficaz. Hoje nos centros
urbanos ela está a ser feita numa dupla vertente: a do
policiamento de proximidade, em que é importante a visibilidade;
e, simultaneamente, a mobilização de efectivos para neutralizar
acções nos pontos quentes e às horas quentes.
- Está
satisfeito com a actual coordenação das forças e serviços de
segurança?
- A
criminalidade organizada é combatida através da informação
operacional reunida pelas várias policias. Em termos legais as
informações deveriam ser registadas no Sistema Integrado de
Informação Criminal (SIIC). Em termos de concepção o sistema
está correcto. No que respeita ao terrorismo, uma parte da
informação vem daí e outra é obtida pelos serviços de
informação. Aí ainda há lacunas. Houve uma alteração recente que
mudou a orgânica dos serviços, no entanto, as formas de recolha
de informação são insuficientes. Continuamos a viver mais à
custa daquilo que nos é transmitido pelos serviços amigos, que
estão ligados a organismos internacionais onde há um intenso
fluxo de informação, nomeadamente destinada a prevenir ameaças
comuns.
- Há a
questão das escutas...
- Em termos
de esforço próprio, a lei portuguesa não dá nenhuma amplitude
para que os serviços de informação desempenhem cabalmente as
suas funções, obviamente com todo o controlo judicial, como
seria o recurso às escutas telefónicas. Tem que haver um grande
consenso nesta área e tem sido difícil encontrá-lo. A lei
processual mudou muito nos últimos 20 anos mas há vários
instrumentos vedados aos serviços de informação. No arranque dos
nossos serviços de informação, em 1985, não havia, por exemplo,
a figura do agente infiltrado e das entregas controladas. Cabe
na cabeça de alguém que um serviço de informações que tem que
actuar contra o terrorismo, contra a espionagem, não possa
utilizar um agente infiltrado, ou não faça escutas sob controlo
judicial. Que não posso fotografar um eventual terrorista num
átrio de hotel. Isto é admissível? Estou um pouco afastado do
direito comparado, mas há dez anos não havia na Europa um
serviço que tivesse este tipo de limitações.
"Falta Pôr a Funcionar Um
Verdadeiro Sistema de Protecção Civil"
A protecção civil tem um plano que ainda não está testado. Na
perspectiva de Daniel Sanches falta dinheiro e colaboração das
populações
- O que
falta ao sistema de protecção civil?
- Falta pôr
a funcionar um verdadeiro sistema de protecção civil (PC). Tem
sido uma área pobre, que só é falada quando há um grande
desastre. O planeamento está feito, mas é preciso testar. O
problema é que os simulacros custam muito dinheiro e temos
recursos limitados. Ainda por cima, se fizermos um simulacro
numa hora de ponta temos a população indignada porque quer
chegar a horas a casa. Se fizermos esse mesmo simulacro ao
fim-de-semana, que geralmente é quando são feitos, não temos uma
situação real. É preciso dinheiro e colaboração das pessoas. É
uma área que tem que ser ensinada desde as escolas primárias.
- Como
avalia o problema dos incêndios florestais?
- Vai
demorar a resolver e em países com o nosso clima nunca fica
totalmente resolvido. O grande problema é o ordenamento
florestal. Por outro lado o abandono da actividade agrícola
também leva à potenciação dos fogos. É preciso apostar na
prevenção.
- E depois
do fogo deflagrar?
- É
essencial uma detecção precoce. O fogo enquanto é pequeno é
dominável quando cresce, acabou-se. Temos que ter um sistema de
detecção rápido.
- Mas o
plano de combate aos fogos florestais recentemente apresentado,
dá uma ênfase enorme aos meios aéreos e não faz um grande
investimento nesta questão?
-
Construíram-se mais três torres de vigia e prevê-se a criação de
mais 11. Mas não será talvez o melhor sistema. O sistema de
detecção aéreo com infra vermelhos será eventualmente o melhor
sistema. Estávamos a tentar se este ano na época crítica
tínhamos instalado uma experiência piloto: aviões que andam a
patrulhar o ar permanentemente com infra-vermelhos e, que quando
detectam fogo, dão imediatamente as coordenadas do local para se
activar logo os meios aéreos e terrestres. Por outro lado,
também é importante a criação de brigadas helitransportadas, que
actuam sobre o fogo nascente. Depois do fogo ter uma frente
grande, perdemos o controlo das chamas e devem actuar os meios
aéreos pesados. Mas aí já actuam contra algo que já é um drama.
Os meios aéreos são muito importantes para conter essas chamas,
mas não são milagrosos. Se fossem já não havia incêndios no
Canadá, na Austrália ou nos Estados Unidos.
- Anuncia-se
131 milhões de euros para o combate aos incêndios, mas quando se
desfia os números vê-se que a nível do sistema de combate as
verbas quase não cresceram. A maior parte do investimento está
na área do ministério da Agricultura. Isso não é tentar enganar
as pessoas?
- Em termos
de investimento as verbas sobem consideravelmente, embora a
maior parte do dinheiro seja para a prevenção estrutural levada
a cabo pelo ministério da Agricultura.
- Os
bombeiros são o principal agente da protecção civil, mas são
entidades privadas assentes no voluntariado. Há quem advogue que
é preciso profissionalizar o socorro. Concorda?
- Os riscos,
nomeadamente com o progresso, são hoje maiores que no passado e
justifica-se cada vez mais uma profissionalização. Todos os
bombeiros voluntários do país deviam ter um núcleo profissional.
Isso implica um estatuto remuneratório próprio que lhes permita
dedicarem-se a tempo inteiro àquela actividade. O voluntariado
será sempre muito importante, nomeadamente como fonte de
recrutamento.
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