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Governo quer travar ilegalidade
das claques
De todos os grupos de
apoio aos clubes da I Liga apenas a Torcida Verde obedece à lei
António Pedro Pereira
Sílvia Freches
in DN de 23 de Outubro de 2005
Os grupos organizados de adeptos vivem numa clandestinidade
pública, assumida pelos próprios membros e reconhecida pelo
Governo, clubes e mesmo PSP, que em nome da segurança nos
estádios lhes confere um estatuto de que legalmente não dispõem.
Quando a presente época futebolística arrancou, apenas uma
claque estava legalizada, a Torcida Verde, do Sporting. Uma
situação à qual todos fecham os olhos, apesar dos sobressaltos
que lhes causam esses mesmos grupos, jornada a jornada,
sobretudo nos jogos de forte rivalidade.
Ao secretário de Estado da Juventude e Desporto, Laurentino
Dias, não passam ao lado as constatações de que muito do que faz
tremer a segurança em torno do futebol tem um nome. E em
declarações ao DN compromete-se "O Governo pensa que há algo que
merece uma reflexão cuidada, que são os grupos organizados de
adeptos. Por isso, o Governo prepara uma medida legislativa
sobre a matéria a apresentar brevemente."
De facto, a insegurança nos estádios portugueses, apesar de
dentro da lógica de brandos costumes, continua a afastar adeptos
do futebol e nem mesmo o Euro 2004, com a consequente
actualização das infra- -estruturas, mudou o cenário. Pelo
contrário na época de transição para o Europeu, a Polícia de
Segurança Pública registou 100 incidências em jogos da Liga de
futebol, número que aumentou na temporada pós-Euro (146, um
pouco menos de um incidente em cada dois jogos). Esta semana, e
fora desta contabilidade, um petardo arremessado em Espanha
pelos adeptos do Benfica num jogo da Liga dos Campeões, com o
Villareal, impressionou os espanhóis. Um sinal da realidade
interna: são os incidentes com artefactos pirotécnicos que
dominam estas estatísticas. A média, nas primeiras seis jornadas
(ainda não foi contabilizada a do FC Porto-Benfica, em que os
petardos voltaram a soar), subiu ligeiramente: 28 casos em 54
jogos. Culpados? Legislação ambígua na distribuição de
competências na vigilância dos jogos (dividida há duas épocas
entre polícia e assistentes de recintos desportivos (ARD) -
vulgos stewards - e as já referenciadas claques.
"As claques fazem o que querem, a polícia não tem formação
específica para controlar este fenómeno, vêem-se claques rivais
a passar perto umas das outras e dos adeptos comuns, que se
sentem ameaçados", sintetiza Costa Perei-ra, presidente da
Associação Portuguesa de Adeptos (APA), criada em Outubro de
2003. A APA não é a única a apontar o dedo aos grupos
organizados de adeptos. A polícia e as próprias claques - Rui
Teixeira, um dos líderes dos Super Dragões, diz que "são
potencialmente um foco de insegurança" - sabem-no, o Go-verno
mostra-se atento e diz-se empenhado em legislar.
"A violência nos estádios tem desaparecido muito pela força das
infra-estruturas de que foram dotados os recintos para o Euro
2004", disse ao DN Laurentino Dias, que também associa a
problemática da violência aos grupos organizados.
A questão, no entanto, é bem mais densa. As claques, na prática,
não existem. A Lei (16/2004) de regulação do Sistema Desportivo
Nacional é real mas inoperante, sobretudo no artigo (1) que
obriga as claques e todos os seus membros a registarem-se no
Conselho Nacional contra a Violência no Desporto (CNVD). Neste
momento, apenas a Torcida Verde obedece à lei, que prevê duras
sanções pecuniárias contra os clubes que mantêm apoios a grupos
não legalizados. Por exemplo, os Super Dragões (FC Porto) estão
a tratar do processo de inscrição e pretendem fazê-lo, segundo o
dirigente Rui Teixeira, "até ao princípio do ano", isto apesar
de não terem apoio oficial do clube, beneficiando apenas de
algumas ajudas. "Facultam-nos uma sala para podermos vender os
bilhetes em dias de jogos e facilitam-nos o acesso a ingresso,
que são mais caros do que para os sócios, mas mais baratos do
que para o público em geral", refere.
O clima de ambiguidade estende-se ainda ao CNVD, tutelada pelo
Instituto do Desporto de Portugal (IDP). "O organismo tem tido
um funcionamento irregular. Tem que ser mais regular. Estão
previstas reuniões de três em três meses, o que não está a ser
cumprido", confessa ao DN Luís Sardinha, presidente do IDP e,
por inerência, da CNVD. "O CNVD tem que ter um papel mais
interventivo na prevenção, admito que exista um desequilíbrio
entre o que está previsto na legislação e a concretização,
nomeadamente de natureza preventiva e consultiva". Ou seja, o
organismo não dispõe de instrumentos operacionais para fazer
cumprir a legislação, algo que justificará a promessa de
Laurentino Dias de enquadrar legislativamente as claques.
Um exemplo da falta de poderes e do mau funcionamento de toda
esta teia ocorreu no dia 10 de Setembro, no Sporting-Benfica. Os
desacatos entre grupos rivais provocaram oito feridos, entre os
quais um agente da autoridade, o secretário de Estado do
Desporto pediu ao CNVD que averiguasse os incidentes. Até à
data, apenas chegou ao CNVD o relatório do Sporting, falta o da
PSP (contactada pelo DN, garantiu que será enviado na próxima
semana). Nada que a APA não tenha verificado. "Pedimos
informações sobre o sucedido às forças de segurança, ao clube
responsável pelo estádio e até à Secretaria de Estado Desporto
para saber onde estão os inquéritos de que se falou na altura. O
que é que se passou? O que é que falhou na segurança desse
jogo?", pergunta Costa Pereira na qualidade de representante de
adeptos. E é por questões como esta que o presidente da APA
considera que o Euro pouco melhorou o clima de insegurança nos
estádios. "Não acho que as famílias se sintam seguras para ir
aos estádios. Sentem-se amedrontadas. Há um clima de abertura
que faz as pessoas que vão aos estádios sentirem que nunca serão
presas, independentemente do que façam. Como entram petardos nos
estádios? Quem falha? Existe seguro caso alguma coisa de má
aconteça?"
Novos
estádios não são sinónimo de segurança
"É seguro assistir a um derby. Não desaconselho os pais a
levarem os seus filhos a esses jogos entre as equipas grandes,
pelo contrário, é interessante sentir aquele ambiente, eu não
receio levar a minha filha. Contudo, aconselho vivamente para
que não levem uma criança para a zona das claques, não por
eventuais actos de violência, mas por toda a tradição que
caracteriza o comportamento das claques, como os cânticos
obscenos, as rixas entre eles." É a opinião do comissário
Alexandre Coimbra, do Departamento de Informações Policiais da
Direcção Nacional da PSP, para quem as movimentações das claques
poucos segredos têm.
É à Polícia de Segurança Pública que cabe a responsabilidade de
acompanhar os grupos organizados de adeptos nos jogos
considerados de risco, como um Sporting--Benfica, ou um
Benfica-FC Porto, que esta época já se realizaram e com
incidentes - em maiores dimensões no clássico de Alvalade.
"Não são os novos estádios que podem travar este tipo de
situações, mas sim a mudança de mentalidade, uma maior
consciencialização de todos os agentes despor-tivos", comenta
Alexandre Coim- bra, recordando a época anterior à do Euro 2004.
"Os adeptos tinham outra atitude, assumiram a responsabilidade
do País, estavam empenhados em dar uma boa imagem e os
incidentes nos estádios desceram muito. Depois do Euro, da
missão cumprida, tudo voltou ao 'normal' e dispararam de novo as
ocorrências" (ver quadro).
Mas a situação não é para alarme, longe disso. "As claques e os
seus elementos estão identificados, sabemos quem são os mais
problemáticos, existe um acompanhamento assíduo das suas
movimentações", conta, adiantando que as principais claques do
Benfica, Sporting e FC Porto têm "um indivíduo de
extrema-direita, bem identificado pela PSP", mas que não oferece
receios de maior, "funciona, basicamente, como força de
segurança das próprias claques."
O que mais preocupa a polícia são mesmo as facilidades dadas
pelos clubes. "A maioria cede-lhes um espaço dentro do estádio,
onde guardam o material, e permite- -lhes o acesso a esses
locais na véspera dos jogos", diz o agente, explicando desta
forma a presença, em dia de jogo, de objectos proibidos. Mas
esta não é a única porta de entrada de petardos e similares. "É
impossível, numa claque de 3000 elementos revistar um a um.
Fazemos revistas selectivas, e garanto que apreendemos mais
objectos do que aqueles que entram."
O Europeu trouxe também para os estádios portugueses um novo
sistema de segurança, passando a ser obrigatório, por parte dos
clubes, o recurso à segurança privada, os assistentes de recinto
desportivo (ARD) que se devem articular com os agentes da
polícia. Estes passaram a estar de forma mais discreta nos
estádios (perto das claques, à paisana nas bancadas, e numa zona
reservada, onde está o corpo de intervenção) e continuam a ser
os únicos que podem actuar em situações de descontrolo.
"Existe coexistência pacífica e de respeito entre os ARD e a
PSP. O balanço deste ano e meio de convivência é positivo. Ainda
não é perfeito porque estamos num período de adaptação e também
porque na lei há uma zona cinzenta na definição das
responsabilidades", explica Alexandre Coimbra, relatando
situações que evidenciam a confusão gerada pela lei "Há estádios
onde a revista é feita pelos ARD, outros onde é a PSP, outros
onde ambos fazem o mesmo."
Testemunho
de um polícia*
"Uma relação algo manhosa"
"A relação com os stewards é um bocado hipócrita. Por
exemplo, no jogo em que o FC Porto perdeu em casa com o Nacional
(0-4, na época passada), os Super Dragões arremessaram isqueiros
e outros objectos para o relvado e, no final da partida, um
tratador da relva estava a escondê-los. Um colega meu disse-lhe
para parar, porque isso teria que constar no relatório.
Envolveram-se e os ste-wards vieram em auxílio do funcionário
portista. Isto revela que a relação não é muito cordial e é algo
manhosa. Desconfiam sempre de nós e contestam a nossa
autoridade. Não gostam muito que estejamos na zona do relvado,
apesar de termos que estar por ali para precaver possíveis
desacatos. Temos alguns problemas com os Super Dragões. O grande
problema são as claques, as nossas preocupações não são os
adeptos em geral, mas sim as claques. Quando estamos noutras
zonas do estádio até dá para ver o jogo. Na zona onde estão os
Super Dragões estamos cinco ou seis por porta de acesso à
bancada; no resto do estádio estamos dois - e nem é em todas as
portas - e com ordem para acorrer à zona da claque ao mínimo
sinal de problema. Na zona da claque há sempre alguma
conivência. A ideia é que até podem estar a fumar uns charros,
com os aparelhos radiofónicos que usam para coordenar os
cânticos, estar com os paus de bandeiras que conseguem
introduzir no estádio, tudo coisas ilegais, desde que se portem
bem. Há tempos, falava-se muito da possibilidade de a maioria
dos stewards estarem em situação ilegal, isto é, não deterem o
estatuto de segurança e tão- -pouco a credencial de assistentes
de recintos desportivos, que é passada pelo Ministério da
Administração Interna. Fez-se uma fiscalização e verificou-se
que oito dos dez visados não cumpriam os requisitos. Não sei se
foi coincidência. Temos alguma formação para controlo de
aglomerados, como cursos de técnicas de intervenção policial,
mas concretamente de futebol não. Temos umas noções gerais,
sabemos o que é permitido entrar ou não nos estádios. Felizmente
as coisas têm corrido bem, porque se corressem mal não sei como
seria."
*Prestado sob anonimato
Petardos
Uma perigosa
intimidação
Os petardos são como bombas de Carnaval, mas ligeiramente
maiores e com uma maior dosagem de pólvora. Adquirem-se
facilmente no mercado negro da pirotecnia. Entram nos estádios
dentro de tubos de bandeiras, enrolados nas gigantescas tarjas
das coreografias das claques, às vezes com a conivência dos
clubes, que facultam o acesso aos membros dos grupos nas
vésperas dos jogos. São um perigo real que pode provocar sérios
danos, como explicou um médico contactado pelo DN. Dependente da
direcção, velocidade e força do impacto, e do sítio lesado,
"pode provocar queimaduras, problemas psicológicos, a surdez e
até mesmo a morte, se atingir uma zona vital". "Nunca vi alguém
ferido com um petardo", diz, por sua vez, Rui Teixeira, dos
Super Dragões FC Porto "Usam-se para intimidar e assustar."
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