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Reestruturação
das polícias. O Governo pediu um estudo sobre vícios e
desperdícios da PSP e GNR. O retrato não é famoso. Aguardam-se
as soluções
Presos por faxes
e formulários
Burocracia anda à solta nas
esquadras

Na esquadra de Faro, agentes e civis
trabalham no departamento de recursos humanos. Embora haja
alguma papelada à vista, a esquadra é um exemplo a seguir no uso
de novas tecnologias (Intranet ou videoconferência) e no combate
à burocracia
O agente ‘Mário’ coça a cabeça com impaciência sempre que tem de
se sentar em frente ao computador para preencher o auto de
detenção de mais um ladrão de automóveis, apanhado em flagrante.
“Chego a demorar uma hora”. A base de dados digital da PSP, a
Intranet, facilitou a vida aos agentes, mas ainda é demasiado
lenta. “Tem uma banda demasiado estreita. Está sempre a ir
abaixo”.
Quando é mais necessária torna-se ainda mais vagarosa: no
horário de serviço, altura em que milhares de polícias em
dezenas de esquadras do país estão a introduzir centenas de
processos no computador. “E o pior de tudo? Continuamos
inundados em papéis, quase como antigamente”. Soa a exagero, mas
depois de preencher o auto de detenção do ladrão de automóveis,
o agente ‘Mário’ tem de fazer quatro cópias: uma para a
esquadra, as outras para o IGAI, tribunal e arquivo da
polícia...
Em Chelas, e em todas as esquadras do país, as velhas máquinas
de escrever ganham pó na arrecadação, mas o choque tecnológico
não acabou com as resmas de papel nem com as longas filas de
espera no balcão de atendimento. Vítimas, polícias e ladrões
desesperam. O aparelho de fax também não foi arrumado na gaveta:
sempre que há uma detenção, é obrigatório um aviso para o
Ministério Público - e, se o detido não for de nacionalidade
portuguesa, segue outro fax para o Serviço de Estrangeiros e
Fronteiras. “Com tanta tecnologia não seria mais prático e
rápido se enviássemos tudo por «e-mail»? Do outro lado só teriam
que imprimir”.
O tortuoso caminho da burocracia não termina por ali. Depois de
elaborado o ‘expediente’, o agente ‘Mário’ tem ainda de
acompanhar o detido até ao tribunal. “Se for às segundas-feiras
é o cabo dos trabalhos. Chegam a estar mais de 30 pessoas à
espera de julgamento. Já apanhei ‘secas’ de sete horas”. Como
nunca vai sozinho nesta missão, estima-se que, pelo menos, dois
agentes estejam fora de jogo durante este período de tempo. “É
um dia completamente perdido”.
Entre os prédios rosa-choque de Chelas, o Simplex ainda não é
lei. Apesar de haver três esquadras da PSP em tão poucos metros
quadrados de betão, as ruas não estão mais seguras. “Seriam
menos perigosas se não estivéssemos enterrados na burocracia de
secretária”, sentencia o agente, um dos cerca de 70 polícias do
bairro. “Em cada uma das três esquadras, há um agente ao balcão
e outro na porta. O que perfaz oito polícias em quatro turnos.
Multiplique-se este número por três e temos 24 homens que podiam
estar em patrulha”. ‘Mário’ considera haver só uma solução para
pôr estes polícias em acção: “Acabar com duas esquadras”.
Todas as tardes, assiste a um episódio caricato: o do colega que
tem de se deslocar de propósito à sede da 2.ª Divisão, nos
Olivais, para ir buscar as escalas de serviço de todos os
agentes e afixá-las no painel na esquadra. “Não seria mais fácil
alguém simplesmente imprimi-las aqui em Chelas?” É que desde o
advento do «on-line», as escalas estão à distância de um clique
de qualquer um. “Vieram as tecnologias, mas ficaram os velhos
hábitos”.
Um subchefe da 5.ª Divisão ironiza: “A Direcção Nacional
garantiu que a Intranet estará a funcionar a 100% em... 2017. Já
falta pouco”.
O oásis algarvio
Trezentos quilómetros mais a sul, o comandante da esquadra de
Faro, Hugo Marado, de 22 anos, conduz um Skoda dos novos até à
Escola EB 2,3 de Santo António. Quer confirmar a notícia de que
um miúdo andaria a assustar os colegas com uma faca. “Gostaria
de estar mais tempo no terreno. Perco três horas diárias com o
‘expediente’, e outras três com reuniões e gestão de pessoal”.
Não é bem uma queixa, mas um anseio. O comandante afiança que os
seis computadores da esquadra chegam para as encomendas. Afinal
Faro é uma cidade pacata. Tão pacata que nenhum dos polícias
algarvios com quem o Expresso falou se recorda da última vez que
alguém disparou um tiro a sério. Tão pacata que a história do
miúdo e da faca não passou, afinal, de falso alarme.
Texto Hugo Franco
Foto José Ventura
CURIOSIDADES
A PSP pode gastar, só em idas de agentes seus a tribunal como
testemunhas, 225.337 horas por ano. Isto equivale às horas de
trabalho de 155 agentes e custa cerca de 3 milhões de euros em
salários.
Os militares da GNR chegam a ter de percorrer 200 quilómetros
para substituir uma peça de automóvel, o que reflecte a enorme
dispersão de serviços.
A GNR tem 16 suplementos salariais e a PSP, 17. Nesta última
corporação são necessários 120 elementos para os processar nas
folhas salariais.
Para entrar para a GNR é exigido apenas o 9º ano, enquanto na
PSP as habilitações mínimas de ingresso são o 11º ano. Esta
discrepância tem efeitos a nível de comandos: um posto da GNR
pode ser comandado por um cabo com o 9º ano, enquanto que na PSP
uma esquadra só pode ser comandada por um oficial licenciado.
A PSP e a GNR gastam 4 milhões de folhas de papel/ano em
processos de multas, ocupando 104 pessoas polícias na
secretaria. Custam 2,3 milhões de euros em salários
desperdiça-se a sua formação policial, orçada em 1,4 milhões.
GNR REAGE A ESTUDO
A resposta da GNR ao estudo para a ‘‘racionalização’’ das forças
de segurança é demolidora. Num documento de mais de 20 páginas,
assinado pelo comandante-geral Mourato Nunes, enviado ontem a
António Costa, é feita uma análise das propostas, as quais, na
sua opinião, significariam rupturas violentas na GNR. É o caso
da sugerida integração das Brigadas de Trânsito (BT) e Fiscal (BF)
nas Unidades Territoriais, ou da extinção do nível brigada na
cadeia hierárquica.
A Guarda manifesta discordância com a maior parte das sugestões
e explica que o cariz militar da GNR implica níveis hierárquicos
próprios. No seu entender, a metodologia do estudo é parcial em
alguns aspectos e não retrata a realidade, designadamente dando
destaque a questões organizacionais e secundarizando a vertente
operacional. O estudo é omisso em relação aos índices de
produtividade, constatáveis na redução dos níveis de
criminalidade e no aumento da actividade da GNR em relação aos
crimes contra o Estado e contra a sociedade, como os ambientais,
os rodoviários ou os crimes fiscais e aduaneiros. “Temos feito
muito mais com menos gente e apenas com 1% do orçamento para
investimento” é a ideia que a Guarda quer transmitir.
VM
TEORIAS
A organização futura das forças policias tem suscitado acesos
debates e diferentes propostas. Eis as principais:
A) Uma polícia de apoio à tropa: Com a redução dos efectivos das
Forças Armadas, deve haver uma única polícia nacional com treino
militar, capaz de apoiar a tropa em cenário de guerra. A PSP
contribuiria com os corpos especiais (como o GOE) e os restantes
agentes iriam, a médio prazo, para as polícias municipais.
B) Polícia Nacional Civil: Noutros países europeus que
reestruturaram forças de segurança. criou-se uma Polícia
Nacional única de cariz civil. As polícias judiciárias
tornaram-se um departamento.
C) Manter GNR e PSP reorganizadas e com um comandante civil para
a GNR: O exemplo vem de Espanha, onde foi recentemente criada
uma direcção nacional civil para comandar o Corpo Nacional de
Polícia (equivalente à PSP) e a Guardia Civil (equivalente à
GNR).
No próximo
mês, Costa deverá receber outro, importante, sobre a ‘reforma
do sistema de segurança interna’, cuja conclusão pode implicar
alterações profundas na actual organização das forças de
segurança e que têm trazido
a debate várias teorias. Em preparação está também um
levantamento sobre a reorganização geográfica do dispositivo da
GNR e da PSP, já iniciado com o anterior Governo. António Costa
pretende ter prontas, até ao final do ano, as alterações às leis
orgânicas da PSP e da GNR, conforme calendarizado no Programa de
Reestruturação da Administração Central
do Estado (PRACE). “Concluída esta reflexão, será então momento
de decidir
e tomar opções”, sublinha o porta-voz oficial do ministro.
Alguns analistas afiançam que se António Costa fizer 2/3 das
medidas que são avançadas nestes estudos, ficará na história
como o primeiro grande reformador das forças
de segurança. “Se ele não for capaz, com a força política que
tem, dificilmente outro o conseguirá tão depressa”, diz um
oficial da PSP, organização que
já começou algumas das reformas preconizadas no estudo. Na GNR o
ministro terá mais resistências. Aliás, na apresentação do
estudo
da ‘racionalização’, em Julho passado, onde estava também
António Costa,
o comandante-geral da GNR, fez questão em manifestar o seu
veemente desagrado, saindo da sala antes do final da exposição.
Independentemente
das conclusões e proposta, o estudo agora apresentado faz um
pormenorizado retrato da situação nas forças de segurança.
Valentina Marcelino
1 Descoordenação entre unidades da GNR e da PSP
Com excepção das operações planeadas com alguma antecedência,
cada unidade da GNR (como a Brigada Fiscal ou a Brigada de
Trânsito) ou da PSP (como as unidades especiais do Corpo de
Intervenção, Corpo de Segurança Pessoal ou Grupo de Operações
Especiais) prepara isoladamente as operações. Há poucos treinos
conjuntos e, em alguns casos, seria possível evitar o
agravamento de certos incidentes se fosse logo accionada a
unidade adequada. O que só seria possível com normas de
procedimento previamente definidas e aprovadas, que não existem.
2 Demasiados comandos na GNR
A GNR tem três níveis hierárquicos de comando e controlo do
dispositivo: o comando-geral, as brigadas e os grupos ‘comandam’
os destacamentos, subdestacamentos e postos. Resulta uma
morosidade acrescida nos processos e na circulação da
informação. Se o comando-geral quiser pedir uma informação ao
nível de um posto (uma carta de condução de um indivíduo, por
exemplo), o pedido é enviado para a brigada que, por sua vez o
envia ao comandante de grupo, que o transmite ao destacamento e
este ao posto, onde a informação é recolhida. Tendo em conta o
circuito inverso, até chegar de novo ao comando-geral, o
circuito pode demorar mais de 20 dias.
3 Serviços de apoio repetidos em várias unidades, com
desaproveitamento de economia de escala na aquisição de bens e
serviços
Cada unidade, comando, posto ou esquadra da PSP ou da GNR tem os
seus serviços de apoio, como as secretarias, provocando uma
replicação de serviços e um excesso de polícias e militares em
funções administrativas. Muitas vezes, mesmo dentro da própria
unidade. Os casos dos regimentos de Infantaria e de Cavalaria da
GNR são paradigmáticos. O primeiro está disperso em três
quartéis de Lisboa e cada um tem os serviços de suporte próprios
que ‘engolem’ 30% do efectivo (360). O segundo multiplica os
serviços de suporte por quatro quartéis em Lisboa, com 34% do
efectivo (320). Secretarias, cozinhas, bares… tudo em triplicado
e quadruplicado. Só para alimentação e bares, a GNR tem
destacados 652 elementos que tiveram formação policial. Só na
Brigada Fiscal existem 22 messes em funcionamento com espaços e
estruturas de serviços próprios.
4 Sistemas de informática insuficientes, principalmente na GNR.
A rede informática da GNR ainda não chega ao nível do posto. Num
efectivo de cerca de 25 mil elementos, só 300 militares têm
endereço de «e-mail». A comunicação da informação é baseada no
papel, resultando em elevada carga burocrática. As ordens de
serviço ao nível das brigadas, embora estejam na rede intranet
da GNR, continuam a ser enviadas em papel para as unidades onde
não há rede informática. Por exemplo, de dois em dois dias, o
Grupo Territorial de Santarém manda à sede, em Lisboa, uma
patrulha para obter expediente diverso, entre o qual as ordens
de serviço. Na PSP, por exemplo, a divisão de investigação
criminal tem uma secção de apoio com 34 polícias, dos quais 22
(65%) afectos só a funções de tratamento e encaminhamento de
expediente em papel.
5 Processos externos (idas a acidentes sem vítimas e aos
tribunais) consomem demasiado tempo e recursos.
Em 2005, foram registados no Comando Metropolitano da PSP do
Porto cerca de 10 mil acidentes sem feridos que envolveram a
deslocação de elementos da PSP. Cada deslocação implicou, pelo
menos, dois agentes e a respectiva viatura e demorou uma hora.
Ou seja, 20 mil horas foram gastas nesta função, o que equivale
ao trabalho anual de 14 polícias. Se se juntar o trabalho
administrativo, o total de horas ascende a 30 mil/ano, ou seja,
equivale a 21 agentes ou cerca de 400 mil euros em salários. No
caso de ida aos tribunais, o exemplo vem de Aveiro, onde 28% dos
524 elementos que constituem este comando da PSP tiveram de
comparecer a tribunal como testemunhas de processos vários.
Contas feitas, as horas despendidas num ano foram mais de 220
mil, o que equivale ao tempo de trabalho de 155 polícias a tempo
inteiro, representando um custo de três milhões de euros/ano.
Expresso de 14 de Outubro de 2006
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